O processo diplomático tem sofrido alterações consideráveis desde a eleição de Donald Trump como 47.º presidente dos Estados Unidos. Nos últimos meses, tem ficado claro que a Casa Branca privilegia uma comunicação pouco ortodoxa, algo quase em formato de “reality show”, entre o presidente norte-americano e o líder diplomático em negociações na altura.
Sem aquilatar a eficácia desse método, importa notar que se aproxima mais um encontro com potencial para impactar consideravelmente o panorama internacional.
Lee Jae-myung, presidente da Coreia do Sul, realiza a sua primeira cimeira com Donald Trump.
Precedeu este evento, em meados de agosto, exercícios militares conjuntos entre os EUA e a Coreia do Sul que, embora apresentados como medidas de dissuasão e prontidão, reacenderam a tensão na península.
Kim Jong Un, o líder norte-coreano classificou esta ação conjunta como um “ensaio para a guerra” e não tardou em ripostar em peso como é conhecido por fazer.
Entre várias medidas, anunciou a expansão do arsenal nuclear e exibiu o seu novo ativo de bandeira: o Choe Hyon.
Do que se trata? Um destruidor de mísseis guiados, o primeiro do género na marinha norte-coreana, com capacidade de lançar mísseis antinavio e de ataques terrestres.
Representa uma mudança considerável no panorama estratégico da marinha norte coreana, de essencialmente defensiva transforma-se agora numa força preparada para ameaçar rotas comerciais no Mar do Japão e no Pacífico ocidental.
Algumas análises externas sugerem ainda a possibilidade de ter vetores com ogivas nucleares, o que a confirmar-se, agravaria ainda mais o risco regional.
Para Washington, a conjuntura atual leva a que se tenha de demonstrar poder e manter a credibilidade de dissuasão sem precipitar um confronto aberto.
Não é a primeira vez que Trump gere tensão com este adversário imprevisível. Podemos relembrar o episódio caricato de 2018, onde no auge da crise, Kim Jong Un afirmou ter um “botão nuclear” sempre à mão ao qual o presidente norte americano respondeu no Twitter que tinha “um botão maior, mais poderoso e funcional” e tal provocação acabou por abrir caminho ao diálogo direto na cimeira de Singapura.
Se no passado, esta abordagem de provocação direta resultou, agora será diferente, a demonstração de firmeza e controlo da região terá como base a demonstração de uma aliança coesa entre a tríplice: Washington, Tóquio e Seul.
O que significa tudo isto para nós, europeus? À primeira vista parece distante mas cadeias de abastecimento, rotas marítimas comerciais e a autonomia estratégica europeia depende do Indo-Pacífico.
A Estratégia de Cooperação da União Europeia no Indo-Pacífico sublinha a liberdade de navegação e a necessidade de uma presença naval significativa, precisamente porque qualquer agravamento regional tem reflexos nos portos europeus e na segurança económica do continente.
O escalar de um conflito como este representa não só um desafio para os Estados Unidos e para os seus aliados asiáticos mas também um teste à capacidade europeia de agir de forma coerente num cenário de rivalidade crescente entre grandes potências.
O que hoje se decide no mar do Japão não é apenas uma questão de equilíbrios militares regionais, é também um sinal de que a era das tensões geopolíticas compartimentadas acabou.
Da Ucrânia ao Mar Vermelho, do estreito de Taiwan ao estreito de Ormuz, cada nova crise rouba a capacidade de resposta global e aumenta a probabilidade de uma faísca acender vários fogos ao mesmo tempo.
Ignorar a Coreia do Norte não nos irá proteger do seu impacto. Perceber a lógica deste acréscimo de tensão pode, pelo contrário, ajudar-nos a preparar para um mundo onde a dissuasão nuclear volta a ser uma linguagem corrente.
O tempo da Europa parar de reagir e começar a liderar é agora. Mais do que evitar a próxima crise terá de se provar que há fôlego para enfrentar todas ao mesmo tempo.