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Lisboa está para o desporto como uma ciclovia está para a cidade. Tem imenso potencial; é útil para os cidadãos; é fundamental para a construção de uma cidade do futuro – moderna, verde, inovadora, inclusiva, aberta e saudável, que revela uma preocupação global com o mundo e com as pessoas. Mas o desporto, tal como uma ciclovia, na atual governação socialista, não passa de uma propaganda inconsistente, de um checklist eleitoral, que apenas serve para inglês ver. Mas eu, que sou lisboeta, pouco ou nada vejo. Aliás, vejo um projeto mal pensado, mal executado, panfletário e, acima de tudo, insuficiente e escasso para os cidadãos de uma cidade que se quer uma grande capital europeia. Se olharmos para os últimos 10 anos, Lisboa está mais virada para a atividade física e mais movimentada, é certo. Quem atravessa a ponte e vem de Almada é testemunha das centenas de pessoas a correrem junto ao rio, a praticarem boxe com os seus PTs e a fazerem elevações nos ramos de uma árvore. Só que isso não chega. Lisboa é mais do que o Tejo, Lisboa é mais do que bonitinhos eventos avulso, Lisboa é mais do que campos de basquetebol pintados com arte urbana para ficarem elegantes e apetecíveis. Lisboa pode ser muito melhor e não está a fazer uso das suas extraordinárias faculdades para a atividade física e o desporto, área verdadeiramente central para a cidade.

E por que razão deve ser o desporto uma área central da sociedade? Porque combate o sedentarismo; porque promove práticas de vida saudável; porque combate doenças dos foros físico e psicológico; porque aumenta a qualidade de vida de todas as gerações; porque educa o ser humano a fixar-se em metas para além do seu ego; porque contribui para a responsabilização, elevação e inclusão social; porque aumenta a produtividade das pessoas e, por isso, das empresas; porque é uma valência para o conhecimento da natureza humana em todas as suas vertentes; porque ensina o valor da superação, da transcendência e o sentido do outro; porque desenvolve o espírito de equipa, a relação com os objetivos individuais e coletivos; porque nos ensina que podemos e devemos dar o melhor de nós mesmos; porque nos diz que, sem os outros, não somos nada, nem ninguém.

Entre muitas análises que podem ser feitas, a vida desportiva da cidade de Lisboa ainda não é universal, porque nem todas as pessoas têm possibilidades financeiras ou acesso fácil a recintos desportivos – jardins, ginásios, clubes, parques, etc. – e porque se continua a marginalizar o exercício físico, como se tratasse de uma atividade secundária na vida da cidade e na agenda ocupada dos cidadãos. Num momento de crescente isolamento, cansaço, individualismo e esgotamento, o desporto deverá ocupar um lugar cada vez mais determinante na vida de Lisboa, e, neste momento, não pertence a todos, porque parece apenas virado para as zonas mais nobres e visitadas na cidade, para os jovens com necessidades especiais e para os mais velhos. No fundo, apenas para minorias. Como disse, não é mau. É fundamental que chegue a elas. Mas é muito pouco. E quem se contenta com pouco não merece liderar uma cidade como Lisboa. Ou se constrói de base uma verdadeira cidade desportiva ou não se vai a lado nenhum. E atirar areia para os olhos dos cidadãos já é costume antigo que nada resolve.

Em 2021, em Lisboa, não existe um vereador do Desporto. Como é possível que numa cidade, nomeada com a pompa e circunstância do costume Capital Europeia do Desporto, não exista um vereador? Ninguém percebe. As burocracias continuam lentas e morosas. Tudo é um sarilho e uma complicação. Não se incentiva, não se oferecem benefícios reais a quem deseja criar, inventar, construir projetos relacionados com a atividade física e com o desporto. Se um corajoso ingénuo decidir abrir uma academia desportiva, com quem fala? Como o pode fazer? Liga diretamente a Fernando Medina, a pessoa que, no site da Câmara, aparece como responsável do desporto? Não se percebe e nada faz sentido.

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Neste mesmo ano de 2021, mais de 170 mil jovens ficaram sem acesso a modalidades desportivas e a falta de apoios foi gritante. A capital, com o alto patrocínio do Governo, contribuiu para espezinhar a atividade física e o desporto. Fecharam-se os olhos, cancelou-se e pronto. Além de que não foram dadas condições para um regresso seguro e antecipado para evitar fatalidades, como o abandono precoce dos jovens ou a falta de cultura desportiva. A Capital Europeia do Desporto, durante a pandemia, esqueceu-se do desporto e humilhou-o como gente grande. Curioso.

É preciso cimentar a cultura desportiva e os eventos mais visíveis – como as Olissipíadas, o Desporto Mexe Comigo ou o Lisboa Running Center – não são suficientes para aculturar a cidade e os cidadãos, a não ser que queiramos continuar pequenos ou medíocres. Lisboa pode ser uma cidade do talento e não é. Não se criam condições para que ele brote e cresça. É necessária uma maior entreajuda e colaboração entre a autarquia, as escolas, as associações públicas e os privados, com a criação de parcerias que promovam a identificação, a prospeção e a formação de talentos. Podem-se fazer mais competições entre câmaras, bairros e juntas de freguesias, aulas ao ar livre, hubs de inovação; pode-se relacionar o Desporto e a Cultura, tornando os dias desportivos das famílias verdadeiros eventos familiares; pode-se aproveitar as zonas mortas dos bairros para criar pequenos recintos desportivos quando eles não existem nas imediações; pode-se promover uma maior relação entre todas as instituições da cidade – sem ilhas ideológicas. Pode-se fazer tanta coisa que não se faz para enraizar dedicadamente o desporto em Lisboa. A Câmara, além da rua, detém poucas instalações e equipamentos desportivos. Nem todas as escolas públicas são capazes de ter o espaço que dê aos alunos, nas atividades extracurriculares e nas aulas de Educação Física, as condições suficientes para uma educação desportiva diversificada e completa. Nem todos os bairros têm instalações desportivas. As empresas não têm benefícios se motivarem os seus empregados a praticarem desporto. Os privados aparecem como lugares de elites. Os clubes e as instituições privadas, que vivem sozinhos e isolados, têm espaços (por vezes degradados) mas não têm dinheiro, ou têm dinheiro mas pouco espaço. Com acordos, com apoios da Câmara, com uma verdadeira relação pensada entre todos, a matéria-prima poderá ser aproveitada de maneira a que o acesso ao desporto na cidade de Lisboa seja mais fácil, mais barato e mais estável e duradouro. Falta, em Lisboa, uma política autárquica que promova como deve ser a atividade física e o desporto.

É preciso fazer muito melhor. Não basta clamar em forma de slogan os títulos e as nomeações que a cidade vai acumulando para parecer que está tudo bem quando não está. Eu vivo perto do rio e sempre fiz desporto. Para mim é fácil. E para os outros milhares de cidadãos que vivem e trabalham em zonas onde o acesso ao desporto é limitado, que não podem estar num ginásio ou inscrever os filhos num clube de uma qualquer modalidade?

É para todos que a cidade deve olhar.

Francisco Guimarães tem 23 anos. É treinador de futebol desde os 15 anos em clubes como o Estoril Praia ou o Delhi United, da Índia. É comentador de futebol na Sport TV, embaixador para a integridade no desporto e foi cronista no jornal Record. É especializado em psicologia do desporto e está a concluir a sua formação como treinador, tal como uma licenciatura em Artes e Humanidades na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. É membro dos Global Shapers desde 2020.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.