A cidade de Lisboa está a atravessar um momento decisivo na forma como pensa e organiza o seu transporte público. Pela primeira vez (tanto quanto consegui saber), uma análise técnica baseada em dados abertos e processada com recurso a Inteligência Artificial realizada pela Vizinhos em Lisboa e partilhada com a administração da Carris permitiu observar, de forma objetiva e detalhada, como funciona a rede diurna da empresa pública. O trabalho, desenvolvido pela Vizinhos em Lisboa e que tive o prazer de coordenar, recorreu ao mapa oficial em PDF “Bus & Tram Map (Carris) by Day” e a dados GTFS públicos, avaliando 174 linhas e 2 344 paragens nos períodos de maior procura.
Os resultados não apontam falhas, mas oportunidades. Aquilo que vi foi uma rede extensa, com uma cobertura invejável no centro e uma capilaridade que poucas cidades europeias mantêm, mas que poderá beneficiar de maior coordenação entre linhas, de prioridade viária mais contínua e de pequenos ajustes de percurso que aumentem a eficiência e a previsibilidade. Em suma, Lisboa já tem uma boa base mas pode gerir ainda melhor o que existe com mais precisão e informação partilhada.
A análise identificou os eixos de maior intensidade sendo o caso de Marquês/Rossio/Almirante Reis, Ceuta/Alcântara/Santos/Cais do Sodré e Belém/Algés assim como zonas com grande potencial para a criação de novos corredores BUS e gestão semafórica automática coordenada, soluções que a própria Carris já começou a testar em alguns pontos da cidade. O modelo propõe que estas medidas sejam estendidas e ligadas entre si, criando um “anel verde BUS” que possa aumentar em 10 a 15% a velocidade média das carreiras, com benefícios directos para o passageiro e sem necessidade de aumentar a frota da empresa municipal para alcançar estes ganhos.
Noutras zonas observei que as análises da IA (ChatGPT 5.0 com código gerado em Pythpon) em zonas como Campo Grande/Alvalade/Areeiro/Alameda ou Benfica/Campolide/Sete Rios os dados sugerem a viabilidade de faixas BUS reversíveis nas horas de ponta e a coordenação de horários entre linhas que partilham o mesmo troço. Estes ajustes, de custo reduzido, podem trazer ganhos substanciais de regularidade e reduzir o chamado “comboio de autocarros”, fenómeno que é muitas vezes uma consequência natural da elevada procura e do tráfego urbano.
A proposta deste estudo por IA e que aqui comento é clara: não se trata de repensar a Carris de uma forma radical ou disruptiva, mas de aproveitar o seu potencial. O sistema de informação em tempo real da empresa pode integrar sensores GPS e sincronizar semáforos, tornando possível uma gestão dinâmica do trânsito e das prioridades de circulação. São tecnologias que a Carris tem ao alcance e que poderão consolidar Lisboa como referência de inovação em transporte público urbano.
Outro eixo de melhoria é a transparência de dados. A publicação regular de indicadores como tempos médios entre autocarros (headways), velocidades médias por corredor e tempos de percurso permitiria à cidade acompanhar a evolução do serviço e identificar boas práticas. O objetivo não é fiscalização, mas cooperação e aprendizagem contínua num modelo de gestão partilhada entre operador, autarquia e cidadãos, que reforça a confiança de quem depende diariamente da Carris. Com mais dados, este tipo de análises, poderiam ser mais amplos e ainda mais fiáveis.
A leitura da situação das carreiras por IA, sem dados de frequência, atrasos ou população: algo que já está a ser feito pela Vizinhos em Lisboa num estudo paralelo, reforça a ideia de que Lisboa pode modernizar o seu sistema sem rupturas, com base em medidas de gestão fina e concertação entre entidades.
Priorizar corredores-chave, coordenar linhas sobrepostas, encurtar percursos demasiado longos e reforçar a comunicação e a participação de utentes com a gestão das carreiras são passos realistas, de execução rápida, de baixo custo e com impacto que pode ser facilmente medido nas plataformas de dados abertos que já existem.
A Carris tem uma história de mais de um século ao serviço da cidade. É um património coletivo e uma peça essencial da vida urbana lisboeta. Este estudo e este texto de opinião não é uma crítica, mas um contributo positivo para ajudar a planear a próxima década de mobilidade urbana com base em evidência e colaboração.
Com diálogo entre a Carris, a Câmara Municipal e a sociedade civil, Lisboa pode transformar a sua rede de superfície num sistema exemplar de transporte público urbano, onde tecnologia, gestão e serviço público se encontrem ao serviço da cidade e de quem nela se move.