Perante a falência de pilares e valores fundamentais das democracias constitucionais, do Estado de Direito, do Estado Social e do bom senso na sociedade, a resposta deve ser ainda mais Política, em todos os sentidos da palavra. Tal como escreve Tony Blair no seu livro “On Leadership”: ”Politics is part philosophy, part performance and part praticality. The last is more mundane but it is the one wich finally makes the difference.”
A ascensão de partidos e figuras políticas antissistema, com discursos violentos e fraudulentos perante os factos e as estatísticas, com uma simplificação exagerada dos problemas e das soluções aos mesmos, é o resultado de uma cultura promovida pelo neoliberalismo como ideologia económica e como sistema cultural. Valorizamos em excesso a neutralidade, os “especialistas”, as “soluções concretas”, isto leva-nos a pensar a política e o funcionamento do sistema democrático como uma Ciência Exata, e não como um conjunto interligado de Ciências Sociais e de vontades racionais (e também emocionais) dos eleitores e dos eleitos.
Essa cultura e visão das sociedades democráticas trouxe consequências graves para a comunicação social, para os sistemas educacionais e para o interior dos partidos políticos a favor de sistemas políticos constitucionais, parlamentares e pluripartidários. É normal com o caminhar da História e com a alteração da realidade que os partidos renovem a sua ideologia, a sua forma de passar a mensagem e os seus objetivos políticos. Mas isto não pode significar a capitulação dos seus valores fundamentais, não pode transformar os partidos e as sociedades em máquinas neutras, apolitizadas e sem vontade de transformar a realidade material dos países e dos sistemas políticos em que se inserem. Vou me focar expressamente na matriz Social-Democrata, ou seja, na Social-Democracia nórdica, no Socialismo Democrático, consequentes da critica de Bernstein ao marxismo, sendo este um núcleo de valores fundamentais na qual eu me insiro.
Mas antes de falar da Social-Democracia, algumas considerações sobre outras ideologias políticas e sobre os partidos que as representam. É importante para salvar a democracia, para tornar saudável o debate democrático e a instrução dos cidadãos em relação ao sistema político onde se inserem e onde são parte ativa que: Os conservadores se saibam distanciar e distinguir dos reacionários e dos fascistas, porque não são a mesma coisa. Quer do ponto de vista da origem dos partidos e a sua atuação, como de valores fundamentais. Que o centro-direita, os neoliberais, os social-liberais e os liberais clássicos se distanciem do anarcocapitalismo e da direta radical populista. Vemos infelizmente vários governos europeus de centro-direita, liberais, a incorporar as agendas e soluções da extrema-direita e da direita radical, sendo que está estratégia é muito perigosa, lembrando que os eleitores entre votar na “copia” ou no original, podem escolher votar no original. Em Portugal temos o tema da segurança ou a alegada falta dela, onde existe uma diferença abismal entre as perceções e a realidade, entre os discursos inflamados e os números, e um governo de um partido fundador do sistema democrático deve estar à altura desses valores, nunca sucumbir a uma retórica violenta, que é “copia” dos discursos da direita radical.
A responsabilidade pelo cidadão comum, pelo eleitor que não faz parte de uma elite académica ou económica não saber distinguir firmemente estas posições concretas é dos partidos fundadores da democracia portuguesa, dos vários governos e grupos parlamentares. Tivemos medo da educação política, da literacia económica e filosófica nas escolas e universidades, do pensamento critico, e agora pagamos um preço critico, a ascensão do populismo e da demagogia ao poder. Não pode haver doutrinação na educação, não pode haver enviesamento exacerbado naquilo que é ensinado, mas também não pode haver uma neutralidade sonsa e irreal, que é o que temos neste momento. As Ciências Sociais não são exatas, o conhecimento também é ideológico. O que é necessário é haver um equilíbrio nos conhecimentos transmitidos, haver definições concretas de base e deixar que os pensamentos críticos dos alunos cheguem as suas conclusões a partir disso. Os jovens portugueses precisam de saber o que é o Estado, o que é uma Junta de Freguesia, o que é a União Europeia, o que são eleições legislativas, o que são impostos progressivos e muitos outros conceitos básicos para uma vida ativa de um cidadão num sistema democrático.
Perante a desconfiança na política, é preciso mais política, desde cedo na vida das pessoas. Mais informação, mais oportunidade de participação, mais coerência ideológica e de projeto dos partidos, mais assumir de posições dos professores, pensadores, estudantes e trabalhadores. A introdução do direito de voto aos 16 anos, acompanhando alguns países europeus, é uma discussão que Portugal precisa de ter. Não pode ser feita sem programas de literacia, sem reforma dos programas educativos e do papel dos jovens na gestão publica do país, mas é necessária. Sobre a Social Democracia, usando um desabafo de Mitterrand: “Porque, estamos aqui? Porque somos socialistas. Está tudo dito! Não vou ensinar-vos definições. Isso pressupõe pelo menos, qualquer que seja a opção de cada um, a explicação da sociedade em torno das formas de libertação, a primeira das quais – e que preside a todas as outras – é obviamente a libertação da exploração do homem pelo homem nas estruturas económicas, e a presunção de que esta libertação se deve desenvolver pela libertação cultural.”
Os Sociais Democratas, quer sejam os líderes, os militantes de base ou apenas os eleitores regulares precisam de se relembrar o porquê de estarem aqui, os verdadeiros pilares do seu pensamento programático, no fundo, aquilo que a Social Democracia pode trazer as sociedades em 2025, respondendo a uma tendência de crescimento do capitalismo desregulado das grandes tecnológicas, um certo “tecnofeudalismo” e a emergência de tentativas de influencia de oligarcas nas decisões politicas e nos meios de comunicação. O Musk não se encontra desfasado dos venturas da vida, existe uma corelação entre a ascensão do populismo, a emergência da extrema direita com a transformação do capitalismo para formas mais violentas e oligárquicas e com a manipulação da verdade e dos factos através das redes sociais e do financiamento dos meios de comunicação. A batalha do progressismo é conseguir apoiar algumas verdadeiras reformas revolucionarias: Democratizar a informação, mitigar as desigualdades e trazer justiça social a uma economia cada vez mais global e desregulada, lidar com os conflitos armados sem cair no erro passado dos Sociais-Democratas alemães de corroborar uma corrida armamentista, defender o humanismo perante o ímpeto das sociedades fechadas e discriminatórias, mas principalmente, a reforma que a esquerda democrática precisa é a de voltar a definir-se efetivamente na esquerda do espectro politico, no discurso ideológico e nas ações concretas. É preciso tirar o socialismo da gaveta, sem dogmas, mas com coerência programática e ideológica. A melhor forma de defender o Estado Social europeu é aprofundá-lo de forma transversal nas classes sociais, a melhor forma de defender a política é não tendo medo dela, é assumi-la como parte natural das sociedades e do ser humano.