Mais uma vez, como nas presidenciais de 1986 entre Mário Soares e Freitas do Amaral, apesar da função presidencial não ser executiva e governativa, são precisamente as eleições presidenciais que definem o futuro não só ideológico como cultural do espaço político português.

Infelizmente 2026 releva um perigo que não se verificava em 1986, o perigo de elegermos um Presidente que não acredita na democracia, não respeita as funções presidenciais e de forma ainda mais evidente, um Presidente que não quer representar todos os portugueses, mas sim dividir para reinar e semear o ódio. Felizmente temos um democrata na segunda volta. Alguém humano e ponderado, um português que percebeu os tempos e não hesitou: “Sinto o Estado a abrir muitas fendas, sinto a sociedade a deslaçar. A nossa democracia tem uma espessura muita fina e é necessário olhar para além do dia-a-dia e esse deve ser o papel do próximo Presidente da República.”

António José Seguro é experiente, mas não cheio de vícios, é de um partido, mas não sofre de partidarite, é sério, mas não é distante. Reúne características certas para o nosso tempo. Se o seu acreditar no bom-senso dos portugueses for uma realidade, será o próximo Presidente da Républica.

As eleições em que Soares venceu relevaram que os candidatos podiam discordar profundamente e ter bases de apoio até antagónicas, mas acreditavam em algo basilar: O sistema democrático. Ambas as candidaturas defendiam e acreditavam (à sua maneira), na democracia liberal, na separação de poderes, no parlamentarismo. Ambos os candidatos concordavam sobre as regras do jogo, sobre o que vale ou não vale para fazer vencer a sua ideia. Ambos procuraram, de acordo com a sua mundividência e análise do país, representar a sociedade portuguesa.

Um deles acreditavam profundamente na constituição, resultado consolidado da construção democrática, outro tinha dignidade suficiente para respeitar a vontade maioritária dos cidadãos perante a eleição da constituinte.

A Direita portuguesa precisa de se posicionar uma vez por todas ao lado do respeito democrático, do humanismo e da seriedade que os cidadãos e a cultura política portuguesa precisa. Seja ela mais liberal ou centrista economicamente, mais progressista ou conservadora socialmente, precisa de se afirmar pela sua agenda e programa, sem se deixar arrastar para a lama e agenda da Extrema-Direita. Isso seria honrar o seu passado e o seu papel na construção da nossa democracia. Não pode ser conivente com alguém como o senhor Ventura.

Já a Esquerda precisa de passar de herdeira para construtora. Necessita de falar mais do que pode vir a fazer do que aquilo que já fez. Entender os tempos e devolver esperança na melhoria das condições de vida de uma alargada maioria da sociedade portuguesa. Aprender a criar pontes e diálogo em vez de se refugiar no sectarismo da superioridade moral e do intelectualismo sem noção da realidade.

Há espaço para várias esquerdas, à espaço para que elas discordem, mas precisa de haver espaço e disponibilidade para união. Este é um desses momentos, ou a esquerda se mobiliza em torno de um futuro seguro, ou será conivente com quem quer destruir tudo o que acredita.

Seguro soube-se apresentar sem antagonismos e crispação, sem afastar eleitores da direita séria e humanista, valores humanistas e progressistas. Soube mostrar que ainda é possível fazer política pela positiva e não pelo ataque, pelo diálogo racional e não pelos algoritmos. Soube agregar jovens e modernidade (teve cerca de 30% do voto jovem), sem perder a sua essência e carácter.

Dia 8 de Fevereiro a escolha é entre democracia e ódio, entre futuro ou regresso ao passado bafiento.