A liberdade de expressão é um direito fundamental, mas a credibilidade da palavra pública é uma responsabilidade. Quanto maior for a influência de quem fala, maior deve ser o cuidado com o rigor do que afirma. Vivemos num tempo em que a opinião circula mais depressa do que o conhecimento e em que, demasiadas vezes, a narrativa se sobrepõe aos próprios factos.

Numa democracia, todos têm direito à sua opinião. Mas a opinião que pretende influenciar o debate público deve ser sustentada numa base de conhecimento sólido, experiência, evidência e contexto, sobretudo quando divulgada publicamente. Quando temas complexos são reduzidos a slogans, quando se confundem perceções com factos ou quando soluções simplistas são apresentadas como respostas evidentes para problemas difíceis, o debate público empobrece.

Como recordava Daniel Patrick Moynihan, senador democrata e académico norte-americano, «todos têm direito à sua própria opinião, mas não aos seus próprios factos».

A saúde é um dos domínios onde essa exigência é particularmente elevada. Estamos a falar de decisões que influenciam a vida das pessoas, a sustentabilidade das instituições e a confiança dos cidadãos nos serviços públicos. Não basta emitir opiniões sobre saúde; é preciso fundamentar a discussão de forma concreta e sustentar as conclusões com base em factos.

Não faltam exemplos de reflexões públicas, alguns recentes, que tratam os médicos especialistas em Medicina Geral e Familiar, comummente designados como médicos de família, como se fossem uma designação organizacional, uma marca administrativa ou um conceito passível de ser substituído através de uma simples decisão de gestão.

Importa, por isso, regressar aos factos. O médico de família não é uma marca. Nem uma função administrativa. Nem uma designação arbitrária. É um médico especialista, resultado de um longo percurso de formação universitária, seguido de um internato médico altamente diferenciado, sujeito a avaliação contínua e construído sobre competências próprias reconhecidas internacionalmente.

Quando um cidadão procura o seu médico de família não está apenas a recorrer a um profissional disponível numa unidade de saúde. Está a beneficiar da intervenção de um especialista treinado para lidar com a complexidade clínica, gerir a incerteza diagnóstica, acompanhar pessoas com múltiplas doenças, promover a prevenção e coordenar os cuidados ao longo das diferentes etapas da vida. É precisamente essa diferenciação que permite responder de forma mais eficaz às necessidades concretas de cada pessoa.

A força dos sistemas de saúde mais eficientes do mundo assenta na capacidade de reunir profissionais com formações e competências distintas em torno de um objetivo comum: prestar melhores cuidados às pessoas. A evidência internacional demonstra que os melhores resultados em saúde surgem quando médicos e outros profissionais trabalham de forma articulada, cada um exercendo plenamente o seu campo de diferenciação técnica e científica. A qualidade não nasce da diluição das competências; nasce da sua integração inteligente ao serviço do doente.

Ao longo do tempo, as sociedades modernas construíram mecanismos rigorosos para garantir essa competência. Criaram universidades, ordens profissionais, sistemas de acreditação, internatos, certificações e avaliações periódicas. Fizeram-no porque compreenderam que a diferenciação profissional não é um privilégio corporativo; é uma garantia para os cidadãos e a base da relação de confiança que estabelecem com o seu médico.

Se ninguém questiona a necessidade de um piloto qualificado para comandar um avião ou de um engenheiro especializado para projetar uma ponte, por que razão haveríamos de olhar para a diferenciação médica como se se tratasse apenas de uma etiqueta administrativa?

É legítimo discutir modelos organizacionais, é desejável debater reformas, é saudável questionar instituições. Nada disso está fora dos limites do debate democrático. Mas transformar conjeturas em evidência, ou opiniões pessoais em certezas técnicas, não enriquece a democracia, enfraquece-a. É um exercício de demagogia e superficialidade intelectual.

O problema não está na discussão das soluções; está na ligeireza com que se ignora o conhecimento acumulado sobre os problemas.

A questão, porém, ultrapassa largamente a Medicina Geral e Familiar. Diz respeito à forma como discutimos políticas públicas e ao dever de rigor que deve acompanhar quem participa nesse debate.

Os desafios da saúde não começam nem terminam nos modelos organizacionais. O envelhecimento da população, a crescente carga de doença crónica, a escassez internacional de profissionais, a dificuldade em reter talento e as insuficiências da rede de cuidados continuados mostram que estamos perante problemas complexos e multifatoriais. Por isso mesmo, as soluções exigem conhecimento, contexto e humildade intelectual. E os políticos têm uma responsabilidade acrescida nesta matéria. Quem exerce funções públicas, quem participou na governação ou quem aspira a influenciar decisões coletivas tem o dever de reconhecer os limites do seu conhecimento. A melhor política não nasce da convicção isolada; nasce da capacidade de escutar quem dedica uma vida a conhecer a realidade que se pretende transformar.

Um dos maiores erros das políticas públicas resulta da crença de que problemas complexos podem ser resolvidos através de respostas simples, importando modelos sem o necessário ajustamento ao contexto e transformando slogans em aparentes verdades técnicas. A saúde oferece inúmeros exemplos dessa tentação. Mas a realidade insiste em demonstrar que reformas duradouras dependem menos de certezas instantâneas e mais de evidência, capacidade de escuta e aprendizagem contínua.

Num momento em que o espaço público é cada vez mais ocupado por opiniões instantâneas, precisamos de recuperar uma ideia fundamental: a responsabilidade não começa quando governamos. Começa quando pensamos, quando falamos, quando escrevemos.

Porque a liberdade de opinião é um direito, mas a responsabilidade pelo que se diz é um dever. Numa sociedade baseada no conhecimento, esse dever é ainda maior para quem pretende influenciar decisões coletivas. A democracia precisa de pluralismo de ideias, mas não pode dispensar o respeito pelos factos. Afinal, a opinião pode ser livre; o rigor, esse, deveria ser inegociável.