Amália Rodrigues

Memória de Charles Aznavour /premium

Autor

Agora onde estão os dois, talvez Charles Aznavour olhe para Amália como sempre olhou e já nem sequer se lembre da pouca fortuna daquele reencontro.

Sempre achei que ele não ficara convencido. As palavras que lhe disse tinham obviamente ficado aquém da sua desilusão e quantas vezes Charles Aznavour não me falou do seu espanto desconsolado durante aquele convívio? A devoção antiga por Amália Rodrigues (Ay mourrir pour toi…) que ele sempre considerara uma Diva entre as divas, para quem escrevera e com quem cantara, fizera-o acorrer aquele jantar com ela, com uma expectativa quase ansiosa. Essa inconfundível expectativa que nos move no reencontro com alguém que um dia nos maravilhou e, quem sabe, até tivéssemos amado por um breve ou longo instante, entre súbitas cumplicidades e promessas inconsequentes.

Não me foi difícil imaginar Aznavour a antecipar o doce sabor daquelas retrouvailles — há muito que não se viam — coleccionando imagens arrancadas à memória e rememoriando tudo o que tinha para lhe dizer, mas depois, a surpresa quase foi devastadora: ele queria saber, tinha de perceber, que se passara? Quem era aquela desconhecida?

Expliquei o que pude, evoquei a doença, a idade, o pânico de uma voz que de súbito desobedece, uma vida sobressaltada. Fi-lo sem porventura me aperceber de que evocava uma pungência, enquanto o cantor, sentado entre oito, dez pessoas, à mesa de um hotel de Lisboa, permanecia loquaz e taciturno. Valsando entre o fulgor e o génio incomparável da Amália que capturara para si e a realidade esmaecida que a vida e o tempo tinham feito desse fulgor e desse génio. Reparei que se falavam de vez em quando, ela um pouco balbuciante, ele com uma amabilidade constrangida, talvez já nada fizesse sentido, nem houvesse nada para dizer. Os escombros do que fora a partilha fugaz (ou não fugaz ?) de uma devoção rendida, jaziam agora em cima da toalha branca da mesa de um hotel lisboeta.

Nunca contei isto a ninguém. Não me lembro quando foi, algures numa noite banal dos anos noventa do século ido, lembro-me de não ter sido capaz de traduzir ao poeta-cantor aquela espécie de desamparada definição que eu ouvira uma vez à própria Amalia, quando ela se punha a deambular por si mesma: “Aconteceu-me o destino fazer de mim o que sou”.

Talvez foi isso, destino (e guardo cada palavra que Amália me disse a sete chaves, como se fossem as jóias insubstituíveis que são).

Nunca mais voltei a falar com Charles Aznavour, nem sequer a vê-lo, mas esta pastoral nocturna acabou fatalmente por contaminar as minhas lembranças – e tantas eram – das outras vezes em que o vi e ouvi. No Olympia de Paris, em Lisboa, noutros portos e cidades, em diversos dos seus camarins. Sempre que podia, a bem dizer.

Os intelectuais e os bens pensantes preferiam-lhe os Brel e porventura os Brassens, eu conheço poucos cantores que no mais profundo do seu ser e sentir, sintonizassem tão bem o verbo e a voz e fizessem com isso, de cada vez, uma obra prima.

Era capaz de levar dias a ouvi-lo, não me separava dos seus discos, recitava as suas letras, ainda sei de cor quase tudo o que cantou, embalou-me amores e desamores, Uma saudade intacta.

Agora onde estão os dois, talvez Charles Aznavour olhe para Amália como sempre olhou e já nem sequer se lembre da pouca fortuna daquele reencontro. A morte, que tem destas coisas, talvez lhe tenha reduzido a cinzas essa fatalidade e ampliado a singularidade e a voz da sua episodicamente amada diva. (Mas quem sou eu para dizer se foi episódica?)

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