Durante muito tempo vivi com a sensação de que a minha cabeça corria mais depressa do que a vida à minha volta. Acordava já num ritmo acelerado, com a sensação de que havia sempre algo para fazer, resolver, antecipar. A ansiedade não era constante, mas estava lá, silenciosa, como um fundo musical que eu já nem questionava. E, curiosamente, muitas das pessoas que mais tarde comecei a acompanhar em consulta descreviam exatamente o mesmo retrato. Era como se tivéssemos normalizado viver em piloto automático e desconectados do presente.

Foi assim que cheguei ao mindfulness. Não numa fase de grande calma, mas precisamente quando percebi que a minha mente estava acelerada demais para conseguir parar (com intenção). Com curiosidade, inscrevi-me num programa estruturado e, sem querer, já estava a estimular uma das competências que o mindfulness nos ensina – a curiosidade.

O mindfulness não prometia eliminar a ansiedade, nem transformar a minha mente numa sala branca cheia de quietude. Prometia algo mais simples, mas muito mais exigente: prestar atenção ao momento presente, tal como ele se apresentava, com gentileza e sem julgamento.

Quando comecei a praticar, foi desafiante. Percebi que raramente habitava o meu corpo em presença consciente. A mente insistia em viajar para ontem ou para amanhã. E tinha um crítico interno severo e muitas vezes – quase – implacável. Foi desconfortável perceber o quanto isso me tirava presença, foco e descanso. A prática mostrou-me que, antes de reagir, existe sempre um pequeno espaço. E que é nesse espaço, tão curto, que quase passa despercebido, que posso escolher como responder, em vez de funcionar em piloto automático.

Com o tempo, a minha relação com a ansiedade e com outras emoções sentidas como desconfortáveis começou a mudar. Não desapareceu, mas deixou de ditar o ritmo dos meus dias. Tornou-se um sinal de que algo precisa de atenção, e não uma ameaça constante. O pensamento acelerado foi dando lugar a mais consciência, presença e uma leveza que vem, não de evitar o que penso ou sinto, mas de finalmente conseguir olhar para isso sem entrar numa hipervigilância que desgastava.

O meu caso não é isolado. Vejo esta mudança a acontecer com as pessoas que acompanho em consulta. Chegam frequentemente ansiosas, exaustas, cansada de pensar demasiado, com dificuldade em desligar, mesmo quando o corpo está parado. Vivem em contra-relógio ou num modo de urgência permanente, como se houvesse sempre uma tarefa por cumprir. E é precisamente aqui que o mindfulness tem mostrado um impacto real e transformador.

Quando começam a praticar, mesmo em pequenas doses – cinco minutos ao acordar, três minutos antes de dormir, um momento de respiração antes de responder a uma mensagem, um olhar atento às sensações do corpo durante uma pausa – alguma coisa muda. Não são transformações cinematográficas. São mudanças subtis, mas essa subtileza é profundamente significativa.

Pessoas que sempre viveram reativas começam a notar sinais internos antes de explodir. Pessoas que se sentiam dominadas pela ansiedade passam a reconhecer o que estão a sentir com maior clareza. Pessoas que encaravam os pensamentos negativos como factos começam a perceber que os pensamentos não são uma verdade absoluta e que podemos distanciar-nos deles.

O mindfulness pode ser feito de forma formal (através de meditação) e/ou informal, em atividades do dia-a-dia como escovar os dentes, tomar um duche ou caminhar. Não é uma solução mágica. Não substitui o acompanhamento psicológico, quando é necessário. Não apaga pensamentos nem garante quietude mental permanente. Porém, oferece algo que considero fundamental: a possibilidade de ampliarmos a autoconsciência e retomarmos contacto com o presente. Num mundo que vive acelerado, onde a distração é a regra e a disponibilidade permanente é quase obrigatória, esta reconexão connosco próprios e com o aqui e agora torna-se uma forma de recuperar saúde mental.

A evidência científica mostra os benefícios inequívocos do mindfulness. Este treino do “músculo da atenção” reflete-se também numa melhor regulação emocional. É comum ouvir relatos de pessoas que, ao aprenderem a observar os pensamentos sem julgamento, se tornam menos críticas consigo próprias e mais compassivas no modo como lidam com os erros inerentes à vida. Também a consciência corporal ganha um novo significado e é possível reconhecer tensões que antes passavam despercebidas – e, com isso, prevenir dores, fadiga e até melhorar o sono.

Curiosamente, esta mudança interior acaba por se refletir nas relações: quando alguém se sente mais centrado, comunica melhor, escuta mais e reage menos, a vida relacional beneficia de uma calma e de uma disponibilidade que antes estavam bloqueadas por constantes estados de alerta.

O mindfulness fez – e continua a fazer – uma diferença profunda na minha vida pessoal e profissional. Existe (ainda) o mito de que o psicólogo é imune ao sofrimento, às dúvidas ou aos desafios da vida. Esta ideia não só é irrealista como pode ser prejudicial. Atravessar zonas de vulnerabilidade é inerente à condição humana, e isso não diminui, em momento algum, a competência profissional. Pelo contrário, acredito que pode aprofundar a capacidade de compreensão, empatia e presença no encontro clínico.

Helena Paixão é psicóloga clínica há 15 anos. Trabalhou na Unidade de Cuidados Continuados Integrados da Santa Casa da Misericórdia de Portel (Évora) e em clínicas privadas. É CEO e fundadora da Clínica Helena Paixão – Psicologia, Mindfulness e Desenvolvimento Pessoal.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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