Em 1981, no Japão, Taiichi Ohno, considerado o principal responsável pela criação do Sistema Toyota de Produção, reparou num padrão da fábrica. Havia as equipas “estrela”, que batiam todas as metas de produção, e as equipas “lentas”, que paravam a linha constantemente.

A intuição mandava premiar, com bónus, os mais rápidos. Ohno fez o contrário.

Ele percebeu que os “campeões” estavam a cortar caminho. Passavam por cima de defeitos, empurravam o lixo para a frente e focavam-se unicamente no bónus, não na qualidade. Já os “lentos” eram os únicos a ter a coragem para parar a linha, assumir a falha e corrigir o processo na origem. O meio é tão, ou mais importante que o fim.

Durante trinta anos, a Europa foi a equipa “estrela”. Fizemos o mais fácil. O mais barato. O mais rápido. Guardámos os dados em servidores alheios. Construímos a nossa economia digital sobre plataformas americanas e a nossa indústria sobre energia barata russa e manufatura chinesa, ou seja, subcontratamos a nossa segurança aos EUA, a nossa energia à Rússia e compramos “coisas” aos chineses. Acreditámos que o comércio evitava a guerra. Parecia eficiente. Os números batiam certo. O “bónus” da paz perpétua parecia garantido. Parecia eficiente, até deixar de ser.

O que a Europa enfrenta hoje é a fatura de ter ignorado o processo mais básico de um Estado, a sua sobrevivência. Hoje sabemos que a Defesa é o preço da Liberdade.

De repente, a UE acordou para uma realidade dura, os “valores europeus”, a democracia, a liberdade, os direitos humanos, não se defendem sozinhos com discursos bonitos. Precisam de um escudo.

A soberania não é um conceito abstrato, é a capacidade de dizer “não” a quem nos quer mal. E sem uma indústria de Defesa robusta, sem autonomia militar e tecnológica, a Europa que continua a ser um gigante económico é também um anão político.

Durante anos achámos que investir em tanques ou em caças e navios de guerra era “feio” e até pouco ético. Hoje percebemos o inverso, não é ético deixar a nossa liberdade dependente da boa vontade de terceiros. A defesa é o sistema imunitário da nossa soberania. Sem ela, qualquer vírus autoritário derruba-nos e qualquer louco nos condiciona.

O CEO que só olha para o trimestre

Esta cegueira de olhar apenas para a meta final e ignorar a robustez do processo não é exclusiva da nossa Europa. Atinge em cheio as empresas. Quantos gestores conhecemos que são a “equipa estrela”? Aqueles que cortam na manutenção, espremem os fornecedores e reduzem a equipa para apresentar um lucro recorde no trimestre?

Recebem o bónus e são aplaudidos.

Mas o que fizeram foi criar “dívida oculta”. Quando a crise bate à porta, a empresa não tem cultura, não tem lealdade, não tem estrutura. O lucro de curto prazo matou a viabilidade de longo prazo.

A Política Portuguesa e o empurrar com a barriga

E em Portugal? A analogia assenta como uma luva em São Bento.

Há décadas que a política nacional funciona como a equipa que quer mostrar serviço rápido. Inaugura-se a obra, anuncia-se a medida, apresenta-se o PowerPoint. Foca-se tudo no ciclo eleitoral, o “bónus” político.

Entretanto, ignoram-se os processos estruturais: a reforma da justiça que nunca acontece, a digitalização real do Estado, a ferrovia. Somos óptimos a “bater a meta” do anúncio mediático, mas péssimos a “parar a linha” para resolver os problemas de fundo que condicionam o país.

A Família só sente o que faz sentido

Mas talvez a analogia mais dolorosa seja a que acontece dentro de portas.

Também nas famílias caímos na armadilha de sermos a “equipa estrela”. Somos a família que corre. Que preenche a agenda dos filhos com mil atividades. Que tem a casa perfeita, as férias certas para o Instagram e o SUV elétrico e os gadgets de última geração.

Focamo-nos no acessório. No “ter família”. Mas ignoramos o processo. Ignoramos o “ser família”. Na corrida para bater as metas do sucesso social, deixamos passar os defeitos, a falta de conversa ao jantar, o silêncio dos adolescentes, a desconexão emocional entre o casal. Damos o tablet para calar o choro, a dita forma rápida, em vez de darmos atenção, a forma lenta.

Estamos cheios de coisas, mas vazios de conexão. E quando a “linha para”, seja numa separação ou numa crise depressiva, percebemos que tínhamos o cenário montado, mas não tínhamos alicerces.

Parar para corrigir

A lição de Taiichi Ohno é brutalmente simples, se só recompensarmos o resultado visível, vamos incentivar a que se ignorem os processos invisíveis que nos sustentam.

A Europa decidiu, finalmente, ser a equipa “lenta”. Decidiu parar a linha para reinvestir na sua defesa e na sua autonomia. Decidiu que os seus valores valem o custo de os proteger.

A pergunta não é se a Europa consegue. O talento e o dinheiro existem.

A pergunta é se consegue fazê-lo a tempo.

Porque a história, ao contrário da fábrica da Toyota, não perdoa quem chega atrasado.