O título acima é um diálogo entre mim e um grande amigo, filósofo com provas dadas e já nos seus quase noventas, a quem no dia do funeral de uma amiga comum, que morrera muito jovem, levei a casa depois da cerimónia, numa Basílica da Estrela a abarrotar. A descer a escada para o carro, num silêncio sepulcral – coisa nada habitual entre nós, porque se eu falo muito e tenho sentido de humor, ele excede-me em todas as linhas – sem saber o que dizer, ainda para mais ao lado de um grande pensador que pesa as palavras (as suas e as nossas), deixei cair, a implorar uma explicação: “Morreu…” E ele diz apenas: “Pois é, vamos todos, uns atrás dos outros!”. Mas isto, como aqui vou testemunhar, não chega nem a mim, nem ao viúvo e aos filhos, nem a ninguém! O que eu queria é que ela estivesse viva. Será isso possível? A literatura dá sinais de que sim – por exemplo o grande Tolstoi, “a morte é uma porta”-, mas poderemos ir ainda mais longe, a factos?
Este assunto veio hoje aqui à baila porque a semana passada fui a uma cremação precisamente no sítio da cremação da minha querida amiga, o cemitério do alto de S.João, onde a conversa do título desta opinião me veio outra vez à cabeça. Morremos todos, vamos todos, sim, mas para onde?
No funeral da minha mãe, um de nós, após as palavras finais do meu saudoso padre João, e mesmo já nos dolorosos minutos finais, com a cova a receber o caixão disse: “ela já não está aqui!” Sem fé teve esta fé…
Atrás dela, três meses depois, foi a vez do meu pai, estava eu a viver nos Estados Unidos, aterrei e fui acompanhá-lo nos seus momentos finais, no Amadora Sintra, mesmo a tempo, pois ainda consegui dizer-lhe que tudo iria correr bem, que ele não tivesse medo. Ele de certeza que ouviu porque as máquinas, que lhe prolongaram a vida até eu chegar, apitavam por todo o lado. Rezei o terço todo e depois saí. Cá fora encontrei um padre e pedi que lhe desse a santa unção . Nem um minuto passado, ele regressa da sala e atira-me esta : “Se eu soubesse que era para isto não tinha lá ido!” Mas a unção já estava no papo…
Depois, atrás dele, foi a vez da Gabriela, minha colega de faculdade que morreu num acidente de carro no caminho para ver um concerto na Gulbenkian, com um bilhete dado por mim porque nesse dia era sábado eu não podia ir porque dava catequese, e os pais com o desgosto insuportável, meteram-se no espiritismo para poder falar com a filha. Não era a minha hora, não morri naquele cruzamento da saída de Queluz para a IC 19…
E volto à Estrela, à morte de alguém tão jovem e tão grande para mim, com quem, entre as coisas boas que vivemos, tive o meu único acidente de carro. Iamos morrendo. Ela morreu três anos depois com um cancro. Eu ainda estou por aqui e não fiquei naquele dia num cruzamento da Braamcamp…
Estas mortes todas juntas, e um problema de saúde há dez anos, fez-me procurar com mais intensidade e seriedade aquilo que sempre procurei desde que decidi estudar Filosofia, mas até então de forma teórica. Estas mortes não me fizerem baixar os braços, mas baixaram-me a crista. Realizei que a morte não é, como eu considerava, uma coisa lá mais para a frente mas uma dimensão real da minha existência a ter em consideração já, com urgência clamorosa.
Porque não hei-de eu ser como as crianças, que não se conformam com os eufemismos da morte: “partiu”, uma “perda”, “já não está entre nós”; ou os wihsfull thinkings “foi mas ficou no coração, ou no Panteão”. A criança não se fica e atira de olhos arregalados e queixo caído: “mas partiu porquê?, “com quem?”, e “como?” “onde está agora?” .
Perguntas na linha da pergunta da mãe do escritor e jornalista espanhol Javier Cercas, que Paulo Portas fez questão de trazer a Lisboa, em Setembro passado. Ela, católica convicta de casamento feliz, queria saber se quando morresse iria encontrar o seu marido. O filho que teve convite para acompanhar o papa Francisco à Mongólia, disse-o e diz repetidamente, que o aceitou para fazer a pergunta da sua mãe ao Papa. Mas eu perguntei-lhe se pergunta que levava na mala para a Mongólia, se ao fim e ao acabo ela não seria também a sua pergunta. Deu-me um redondo e convicto “não”, mas o livro que li – todinho, do princípio ao fim -, e que para mim só teve interesse nas últimas três páginas, vem a revelar precisamente o contrário. Também ele tem em si um desejo de vida para além da morte. Detesto ter de morrer, confessa. Por isso pergunta nessas últimas páginas: e se o impossível fosse real?
As minhas raízes judaico cristãs estão num Deus que em Cristo, no baptismo, me libertou da morte, um Deus que chega sempre primeiro, como notou Santo Agostinho: “Não Me procurarias se não me tivesses já encontrado!”.
Nas circunstâncias mais diversas da minha história pessoal eu cheguei sempre depois, mas sempre agraciada por algo que não fui eu a dar-me. E assim continua hoje a minha aventura, uma resposta livre e inteligente a essa graça.
A fé não me cai do céu aos trambolhões, neste caso tenho a confirmação do sucessor de Pedro, a resposta que o papa Francisco deu à pergunta da mãe de Javier, que ele nos revela no livro O louco de Deus no fim do Mundo.