Dia Internacional da Mulher — mais um ano para celebrar conquistas. Mas também mais um marco para sinalizar os avanços que ainda falta fazer na afirmação da sua dignidade, presença e liderança no espaço público, designadamente no cinema, na publicidade e nos media.

Na sétima arte assinalam-se regressões significativas ao continuarem a realizar-se filmes como o que estreou em Dezembro em Portugal (em Agosto de 2024 no festival de Veneza) que coloca uma mulher de gatas (não, não é uma figura de estilo), em pose canina, diante de um homem a quem obedece encarnando, submissa, todos os clichés e fantasias sexuais que ele lhe ordena. Foi ela que pediu. Mas não é por ser ela a desejar expor-se a estes jogos eróticos que a excitam que se ultrapassa a evidente e desmesurada ênfase na sexualização da protagonista. Alguma crítica tentou densificar o argumento do filme Babygirl alegando que é ela a CEO da empresa e ele um jovem estagiário; que é uma abordagem, diferente, de uma relação complexa de poder e de sexo; que aqui, quem tem poder o poder é a figura feminina. Pode refutar-se que para passar essa mensagem não era necessário uma sexualização tão intensa da personagem principal. O que o grande écran explora, nestas cenas, é uma relação desequilibrada em que um homem dita as regras de relacionamento a uma mulher submissa, sedenta de sexo sadomasoquista. Nicole Kidman ganhou o prémio Volpi de melhor actriz, no festival de Veneza. Mas nem a actriz nem o argumento conquistaram o júri que seleccionou as obras e os actores que entraram na lista dos candidatos aos óscares.

Babygirl é, manifestamente, um thriller erótico. Durante a rodagem saíram notícias, confirmadas posteriormente por declarações da actriz, sobre o seu mal-estar na gravação das cenas eróticas afirmando que estava cansada de fingir tantos orgasmos e solicitando várias vezes à equipa técnica que se retirasse do plateau para ela poder descansar. Quando uma actriz de pedestal e com fortuna aceita ser a figura principal de uma obra destas realizada também por uma mulher – a holandesa actriz e produtora Halina Reijn – compreende-se melhor que, tocando precisamente neste ponto sensível, Nicole Kidman tenha dito numa entrevista que não teria aceitado participar no filme se ele não fosse realizado por uma mulher! Pois… É que haverá, de certeza, homens realizadores mais feministas do que a realizadora do filme que se teriam coibido – mesmo que decorresse de um acto de auto censura – de imprimir na figura feminina tantos clichés e estereótipos.

Babygirl repete um padrão que começou com o filme As Cinquenta Sombras de Grey — estreado em 2015 no festival internacional de Berlim — onde o homem tem o controlo absoluto da figura feminina na relação. A dinâmica de poder entre os dois é desequilibrada, com Christian ditando as regras do relacionamento. O primeiro filme da trilogia  (2015) também  foi dirigido por uma mulher, Sam Taylor-Johnson…

A história: uma estudante universitária, submissa, é dominada por um jovem e rico empresário numa relação sadomasoquista em que há violência física e psicológica. O bilionário prepotente inicia-a no mundo do BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo).

Neste filme há uma evidente objetificação da mulher. Anastasia é frequentemente retratada como um objeto de desejo, com cenas que focam a sua sexualidade de maneira voyeurista e perpetuam o estereótipo da mulher como uma figura passiva, emocionalmente frágil e dependente perante comportamentos tóxicos. O filme tem a agravante de romantizar estes comportamentos controladores e abusivos.

Também em relação a esta obra alguma crítica encontrou conteúdo e substância no argumento alegando que a actriz feminina é a encarnação na tela de uma vítima de circunstâncias sociais e económicas, que a levam a envolver-se num relacionamentos abusivo e explorador exemplo da ausência de autonomia que muitas mulheres enfrentam em situações de especial vulnerabilidade. Lamentavelmente menosprezaram-se os caminhos de empoderamento feminino e alianças que deveriam ser as alternativas a destacar nestas situações precárias. como apontam, vários documentos internacionais.

Para avançar na representação feminina, é essencial que filmes retratem mulheres como personagens multifacetadas, com autonomia, complexidade e capacidade de transformar suas próprias vidas. A Plataforma de Ação de Pequim (1995) reconhece que os media podem perpetuar formas de violência simbólica contra as mulheres, como a objetificação e a sexualização excessiva e recomenda a adoção de códigos de conduta e regulamentações que promovam uma representação equilibrada e não estereotipada das mulheres.

Não faltam documentos internacionais a apontar estas directrizes, mas nada passará do papel se não forem as mulheres a ter consciência da sua dignidade e a preservá-la.

Os perfumes, a lingerie e as bebidas

Na publicidade  um estudo da Geena Davis Institute on Gender in Media (2019) revelou que mulheres são duas vezes mais propensas a ser retratadas de forma sexualizada em anúncios publicitários do que os homens. E há sectores em que predomina essa a hiperssexualização, como os da lingerie e roupa íntima e o dos perfumes e cosmética. Frequentemente os modelos mulheres são apresentadas como objectos de desejo, em poses sugestivas e reveladoras, sugerindo que o produto tornará a consumidora mais atraente ou desejável.

Na publicidade de bebidas alcoólicas o consumo de determinadas marcas surge também como facilitador do sucesso junto do público feminino. Nalguns anúncios, as mulheres aparecem em trajes ou em situações que sugerem disponibilidade sexual, associando o consumo do produto ao sucesso com o sexo oposto.

A Cartilha da Publicidade sem Estereótipos (ONU Mulheres, 2017) sinaliza como maus procedimentos, entre outros: a hiperssexualização, que consiste na sobreexposição do corpo feminino ou masculino com uma sensualidade exagerada; a objectificação que acontece quando as personagens têm uma função meramente decorativa na narrativa ou são comparadas com um produto/objecto; a submissão quando a personagem é obrigada pelo contexto e não é o sujeito da situação. O mesmo documento assinala que Há um longo caminho a percorrer antes que as mulheres de todo o mundo sintam que aquilo que vêem nas telas, revistas, jornais, redes sociais e outdoors realmente reflecte a complexa realidade de suas vidas e para os homens não é diferente. Além do problema da sexualização das mulheres nos media há também outro aspecto muito importante que é o facto de elas continuarem a ser apresentadas demasiado confinadas ao espaço doméstico, reduzidas ao papel de mães e educadoras o que é uma visão reducionista da realidade, enquanto os homens são frequentemente associados a papéis de autoridade e competência. Navegando na internet descobri um excelente trabalho de mestrado, Retratos do feminino: representações da mulher na publicidade televisiva em Portugal  (autoria de Miguel, Inês Diogo dos Prazeres, orientação de Ramalho, Joana, IADE, Abril 2021). A amostra representativa é a publicidade difundida nas televisões em prime time, de Março a Maio de 2020, durante o período do primeiro confinamento e o objectivo é analisar as representações de género nesses anúncios televisivos.

As principais acções observadas são trabalhar, cuidar, liderar e divertir-se. De um modo geral, os anúncios mostram cenários interiores, em conformidade com o contexto de confinamento. Porém enquanto os ambientes interiores das mulheres são a casa (cozinha e sala) os ambientes interiores dos homens são o local de trabalho. Isto revela uma representação errada da realidade. O Homem, mesmo na sociedade portuguesa, está a entrar cada vez mais no espaço doméstico, como cuidador e a mulher a progredir no espaço público e em situações de liderança.

A Publicidade não reflecte a realidade

A publicidade não traduz, assim, a realidade mas sim um estereótipo dos papéis masculino e feminino. A situação mais flagrante e até hilariante é o homem surgir maioritariamente nestes anúncios a exercer a profissão de médico, que é o estatuto social mais prestigiado no contexto de qualquer crise sanitária quando é público que actualmente há em Portugal mais mulheres a exercer medicina do que homens (30 922 mulheres versus 24 510 homens – INE, PORDATA, 2020). Ou seja, os conteúdos publicitários analisados contribuem para a perpetuação do estereótipo masculino dos homens num papel social activo enquanto especialistas e tomadores de decisões importantes para o futuro da sociedade e das mulheres a desempenhar socialmente papéis mais passivos.

Estas conclusões são reforçadas com a análise da voz off (consiste na narrativa do anúncio) que é predominantemente masculina. Dos anúncios visualizados 16,7% têm voz off feminina e 70% voz off masculina. Desta análise quantitativa infere-se a análise qualitativa: sem qualquer dúvida concluiu-se que o género das marcas analisadas é predominantemente masculino.

Reality Shows e grandes motores

Se, daqui a uma ano, no próximo Dia Internacional da Mulher, não houver mais  mulheres contratadas para distribuir brindes e folhetos informativos em vários eventos públicos, usando frequentemente roupas justas e reveladoras como chamariz do público;

Se, daqui a um ano, não houver mulheres a posar em anúncios e feiras internacionais de automóveis, metáforas de grandes motores, associadas a objectos de desejo;

Se daqui a um ano não houver mais a difusão de reality shows em que se fomentam e destacam, como chamariz de audiências conflitos e situações que reforçam estereótipos de género, como rivalidades femininas baseadas em ciúmes ou competição por atenção masculina,

Então, será motivo para celebrar as pequenas mudanças que possa ter havido na indústria do entretenimento e da publicidade, erradicando uma cultura de assédio, que percepciona a mulher como objecto de desejo.

Mas nada disso será possível sem a  vontade activa, unida e persistente das mulheres.