Chego a Paris e inadvertidamente sou envolvida, no Boulevard Saint- Germain,  por uma das várias manifestações agendadas para este sábado ( 17 de outubro). Afasto- me para o passeio e observo uma composição heterogénea: jovens adolescentes, de cara descoberta, aparentemente do ensino secundário. Outros mais velhos. E outros,  cuja idade não consigo descortinar, a não ser pela agilidade dos movimentos, pois estão todos vestidos de preto e com o rosto tapado com máscara e gorro.

Mais tarde   fico a saber que são os denominados black blocs: não são um partido nem uma organização, constituem uma táctica de acção colectiva- confrontar a polícia e atacar símbolos estatais e propriedade. Isto é o que se consegue descortinar pois haverá também grupos autónomos da extrema esquerda não identificados. Repentinamente um dos manifestantes mascarado salta para um local mais elevado e começa a disparar artefactos com  faíscas para a cauda da manifestação onde está uma viatura policial ligeira. Imediatamente um grupo significativo de jovens sai da manifestação, sobe para o passeio, a demarcar- se desta atitude  ou a recear as consequências. Mais à frente, numa rua transversal, presencio uma pacífica concentração de estudantes em frente ao edifício Sciences Po  (Instituto de Ciências Políticas de Paris).

Assinalo o testemunho da existência do protesto dos estudantes, exercido de forma cívica e responsável. E assisto ao momento de viragem. Algumas horas depois estas manifestações legítimas  são engolidas, na Place de la  République, apagadas, absorvidas por uma horda  irresponsável, violenta, radical que saqueia lojas, agride pessoas, destrói  património público e privado, confronta as forças de segurança,  pega  fogo a caixotes do lixo,  automóveis e tudo o que vê à frente. É uma noite de vergonha para a República, cuja estátua, Marianne, é grafitada e enfaixada com a bandeira dos coletes amarelos.

O fenómeno já foi analisado e bem explicado por sociólogos e estudiosos de ciência política (ex: Sidney Tarrow, Mancur Olson): existe um movimento inicial, neste caso o protesto estudantil que é capturado e desvirtuado por dinâmicas radicais  de violência e vandalismo e também por forças políticas organizadas. Quando um movimento de rua  ganha visibilidade abre uma janela de oportunidade política a outros actores com agendas mais agressivas e organizadas. Os partidos e forças políticas tradicionais apoderam- se destas forças de rua espontâneas, estruturalmente vulneráveis  por não terem uma liderança formal e usam-nas como combustível para as suas próprias causas eleitorais ou ideológicas. Acresce o vandalismo de quem não tem causas a não ser saquear e roubar. O movimento original é infiltrado, perde identidade e é esvaziado de conteúdo. Muitas vezes há um aproveitamento populista – a esquerda radical constrói uma cadeia de equivalências, juntando insatisfações várias e díspares, neste caso descontentamento estudantil, precários e coletes amarelos sob uma única bandeira antigovernamental.

As eleições em França são já em abril (17 de abril a primeira volta). Nas sondagens gerais o partido  La France Insoumise (LFI), liderado por Jean-Luc Mélenchon, destaca-se nas intenções de voto à esquerda. A estratégia do LFI passa pela mobilização das classes populares e dos jovens e um programa de rutura social, económica e ecológica bem vincado face ao bloco centrista e face à  extrema direita do Rassemblement Nacional (RN) de Marine Le Pen. Sobre os recentes acontecimentos Mélenchon acusa o governo de ter agido demasiado tarde para prevenir o vandalismo, actuando só quando ele deflagra e desta forma poder justificar uma intervenção policial extremamente violenta.

Le Pen acusa a France Insoumise de ser responsável pela origem dos  distúrbios (o que é peremptoriamente negado por Mélenchon) e imputa também responsabilidades aos imigrantes (o que não está provado). O perfil dos intervenientes nestas manifestações,  traçado pelas autoridades francesas com base nos detidos é a predominância de cidadãos nacionais, sem qualquer motivação religiosa, motivados por uma insatisfação geral em relação às condições de vida, conotados com uma extrema esquerda radical, a maioria sem afiliação política, estudantes,  sindicalistas  e ainda franjas de rua violentas (casseurs) sem motivacões políticas ou ideológicas cujo móbil é pilhar e vandalizar para recolherem benefícios da desordem urbana.

Interpelo  informalmente uma jovem simpatizante do partido La France Insoumise que confessa sentir-se muito frustrada com a violência policial. Acha que houve uma estratégia das autoridades de intervir tardiamente para que o clima de insegurança beneficie, nas próximas eleições, a extrema direita. E acusa o governo de ter adquirido recentemente a uma grande empresa, no Brasil, granadas e outros equipamentos extremamente  violentos, de cariz militar que usa para dispersar as manifestações  e que já mutilaram um jovem que recentemente  perdeu uma mão e o braço nas manifestações estudantis . Já anteriormente, no auge das manifestações dos coletes amarelos houve várias mutilações oculares provocadas pelo uso muito próximo de munições de borracha. Várias organizações de direitos humanos acusam a França de contrariar diretrizes de instituições  internacionais ao usar equipamento militar de forma desproporcional para dispersar multidões civis. Nesta manifestação de 17 de outubro foi usado, também, gás lacrimogéneo, designadamente na Place de la République. A única esperança que esta jovem activista revela é que os jovens das periferias que normalmente não votam, estejam agora mais politizados e passem a votar.

Não estive na Praça da Republica na noite destes acontecimentos. Tal como muitas outras pessoas sou surpreendida pelo encerramento, ao fim da tarde, de várias estações de metro o que me obriga a fazer e percorrer um puzzle de ligações alternativas e andar muitos metros a pé para chegar ao meu alojamento. Ao todo são 25 as estações encerradas   ao longo deste dia por questões de segurança. Mas vou ao local no dia seguinte. Sou surpreendida com uma orquestra a tocar Viva la Vida enquanto dezenas de cidadãos empunham pás, vassouras e sacos e colaboram  voluntariamente  com o departamento de higiene municipal na  limpeza dos detritos e vestígios do vandalismo da noite anterior.

Não presencio mas acompanho no canal de notícias BFMTV os relatos e imagens de cordões humanos formados  em várias cidades francesas como manifestação solidária com os comerciantes vítimas dos actos de vandalismo. E todos os dias, desde a minha estadia em Paris ( faz quase uma semana) sou surpreendida com ofertas de DVDs, CDs e livros em bom estado  deixados nos parapeitos de algumas janelas..Este é o povo francês. Genuíno na partilha do que não precisa mas pode ser útil aos outros. Praticam uma cultura urbana focada na economia circular e no reaproveitamento. Diz- se que são muito convencidos. Talvez. Eu nunca sinto isso nas minhas inúmeras deslocações a  Paris. E comungo da desolação colectiva ao ver os Campos Elísios barricados: as montras estão outra vez entaipadas a preparar- se para o que aí vem. Já são muitas as manifestações agendadas e ainda faltam seis meses para as eleições.