Existe um novo distúrbio na sociedade e eu sofro disso. Chama-se ansiedade climática ou eco-ansiedade. Passo demasiado tempo preocupado com o futuro por causa das alterações climáticas e as consequências para a sociedade. Sinto-me impotente porque para reduzir as minhas emissões de CO2 de forma drástica, teria que mudar de emprego. Ajudo a derreter toneladas de gelo todos os meses nos glaciares, já que andar 500 metros de carro equivale a 1 Kg de gelo derretido.

Sempre que compro alguma coisa que me dá prazer penso no seu impacto ambiental e o sentimento de culpa toma conta. Não gosto de deixar comida no prato para não contribuir para o desperdício alimentar. E não consigo deixar de pensar no desperdício de comida na restauração sempre que vou ao restaurante. Mesmo quando cozinho em casa, tendo a reparar na quantidade de plástico e papel desperdiçado ao desempacotar os alimentos. Faço um esforço para reciclar tudo. Até os recipientes de iogurte, apesar de saber que em Portugal não se reciclam…não é “economicamente viável”.

Vejo o Greenwashing a ganhar terreno, nas máquinas de café dispensando copinhos de papel que não dão para reciclar porque têm uma película de plástico. Nos hipermercados que acabam com os sacos de plástico e aconselham os de papel, apesar dos sacos de papel terem maior impacto ambiental. Tudo para que pessoas menos informadas fiquem menos ansiosas com essas escolhas: “já contribui”, pensam elas, caminhando em direção ao abismo.

Mas o que me cria mais ansiedade e revolta são mesmo os políticos. À direita temos os negacionistas das alterações climáticas de origem antropogénica, quando sabemos que 100% das alterações provocadas nos últimos 200 anos são culpa nossa. À esquerda temos os moralistas, que assumem que somos culpados pelas alterações climáticas mas negam as soluções para resolver o problema.  A direita infeta o debate sobre as alterações climáticas, enquadrando o tema como “um ataque ao capitalismo” e ao nosso estilo de vida. A esquerda tende a misturar políticas de combate às alterações climáticas com políticas identitárias e de combate à desigualdade social. Ambas estas posições desvirtuam o problema. Criam ruído. Adiam soluções. Ambos apenas se preocupam com sinalizações de virtude, com minudências. Hoje as beatas do cigarro, amanhã as palhinhas de plástico.

Honestamente não tenho grande esperança que os negacionistas das alterações climáticas mudem de posição. São reféns da ideologia, do tribalismo político e resistentes a factos. Não adianta, pelo menos até a realidade lhes bater à porta. Mas ainda tenho alguma esperança que as mentes ponderadas mudem de opinião sobre algumas soluções tecnológicas como a energia nuclear e os transgénicos. E é sobre isso que vou deixar alguns pontos de reflexão.

Energia Nuclear

Não é possível resolver o problema das alterações climáticas sem recurso a energia nuclear. Podem dar as voltas que quiserem, esse é o único caminho. Ainda no rescaldo da série da HBO, Chernobyl, convém referir que mesmo contabilizando os desastres nucleares de Chernobyl e Fukoshima, a energia nuclear continua a ser uma das formas de produção de energia mais seguras (eventualmente a mais segura) e com potencial para salvar milhões de vidas. Não só isso, é a forma de produção de energia que produz menos CO2, que é a nossa principal preocupação neste momento. Em comparação com a energia solar e eólica, as centrais nucleares têm um menor espaço de implantação e necessitam de menos recursos. Segundo um artigo publicado na Nature Geoscience, em 2013, a energia solar e eólica necessitam de 16-148 vezes mais betão, 57-661 vezes mais aço, 43-819 vezes mais alumínio, 16-2286 vezes mais cobre e 4000-73600 vezes mais vidro para produzir a mesma quantidade de energia que uma central nuclear. Isto tem custos ambientais.

Há quem ainda pense que as energias renováveis nos vão salvar. Não vão. A única forma de descarbonizar a economia é recorrendo à energia nuclear. Isto porque a energia solar e eólica sofre de intermitência na produção de energia, que precisa de ser compensada. Essa compensação pode ser feita por energia hidroelétrica, por centrais a gás natural ou a carvão, por baterias ou energia nuclear. A energia hidroelétrica tem uma capacidade de expansão limitada e vai ser menos confiável no futuro por causa dos maiores períodos de seca. Que se agrava pelo facto da água ser utilizada de forma intensiva noutros setores fundamentais, como a agricultura. As baterias não têm, hoje, a densidade energética necessária para dar resposta às nossas necessidades de consumo. O preço para instalação de baterias, por forma a compensar a intermitência das energias renováveis é simplesmente proibitivo. As centrais de carvão e a gás natural obviamente que não resolvem o problema, se o objetivo é descarbonizar a economia. E, infelizmente, é este último caminho que está a ser seguido.

“E os resíduos nucleares?” É a pergunta que se segue… Saberão as pessoas que todos os resíduos nucleares produzidos na América, durante décadas, caberiam dentro de um Hipermercado? E porque não fazem uma análise aos resíduos da queima de carvão e gás natural e as suas consequências ambientais? Saberão as pessoas que existem centrais nucleares que consomem resíduos nucleares, diminuindo a semivida do que resta de milhares de anos para centenas de anos? E que existem várias soluções tecnológicas para lidar com os resíduos, como a vitrificação, tornando os resíduos muito mais seguros? Talvez se não fosse o medo da palavra “nuclear”, estas tecnologias já estariam disseminadas.

Enquanto a energia nuclear não estiver seriamente em cima da mesa, todos os esforços são maquilhagem. A Alemanha é o exemplo disso, com investimentos colossais em energias renováveis, mas pela sua postura anti-nuclear e fecho precoce das suas centrais viu as suas emissões de dióxido de carbono reduzirem de forma marginal. Por outro lado, a França sempre investiu em energia nuclear e é dos países com menores emissões de CO2 associado à produção de eletricidade e com a fatura mais barata para o consumidor final. Os resultados estão à vista. A hipocrisia também.

Transgénicos

Se a posição anti-nuclear ainda é compreensível pelo medo de um possível acidente (apesar das novas centrais terem sistemas passivos que torna isso praticamente impossível), o medo dos transgénicos é ainda mais irracional. Não existe nenhuma morte registada por ingestão de transgénicos. Não está descrita nenhuma consequência para a saúde. Não só são seguros, como poderão ser ainda mais saudáveis que os alimentos convencionais, já que tendem a ter menos micotoxinas e, eventualmente, a diminuir o risco futuro de ter cancro.

E em termos ambientais, as suas vantagens estão mais do que estabelecidas. Um artigo publicado em 2013, atualizado em 2015 e novamente em 2018, conclui que a utilização de transgénicos leva a uma redução brutal na utilização de pesticidas, de libertação de gases efeito estufa e de terra necessária para produção alimentar. O equivalente a tirar 16 milhões de carros da estrada. Dado que a utilização de transgénicos é limitada a alguns países, imagine o impacto ambiental da sua generalização. Poderia também levar a mais investimento na área da biotecnologia, trazendo para o mercado outras soluções interessantes e com impactos ambientais positivos, como por exemplo plantas que fazem maior captação de CO2.

Ser anti-transgénicos é também ser pró-pobreza, miséria e fome. É que graças aos transgénicos é possível aumentar a produtividade das colheitas e o rendimento económico dos agricultores de uma forma substancial, na ordem dos 68%. Em termos absolutos, o ganhos concedidos pelos transgénicos ultrapassaram os 180 mil milhões de dólares, sendo que metade desses ganhos foram nos países em desenvolvimento.

Numa altura em que vemos a fome mundial a aumentar, é sempre bom saber que os “ecotontos” que vivem em países desenvolvidos financiam campanhas de desinformação sobre transgénicos em África. Trabalham furiosamente contra a sua implementação. Parece que os ambientalistas gostam de pobreza e é na pobreza que procuram a solução dos nossos problemas.

Mas o problema não é só em África. Por cá temos o lobby da agricultura biológica, a promover o medo sobre os alimentos transgénicos. Promovem o medo de alimentos onde habitualmente foi introduzido um único gene ao mesmo tempo que cultivam plantas criadas através de mutagénese, com milhares de mutações desconhecidas…e não percebem a incoerência. E os políticos cedem a esta visão naturalista, completamente alienada da ciência e da realidade dos factos. Aliás, muitos políticos, ignorantes, acham que o combate à agricultura intensiva é a solução…que a agricultura biológica nos ajudará a resolver o problema. Mas isso só é solução se o objetivo for salvar a Humanidade com recurso à fome e miséria. Não é possível alimentar a população, preservar a biodiversidade e criar áreas de reserva natural recorrendo à agricultura biológica. Simplesmente não é.

Não. Não estamos preocupados com as alterações climáticas. Se a preocupação de quem nos governa fosse real, haveria um esforço de todos os quadrantes para estudar e implementar as soluções tecnológicas ao nosso dispor, sem ideologias e tribalismos políticos à mistura. E quem está deste lado, quem segue minimamente o que está a acontecer, apenas pode desesperar. Ou ter esperança que, quando a realidade for demasiado grave para ser ignorada, os ideólogos finalmente abandonem a sua ideologia e façam o que já deviam estar a fazer neste momento.