São quatro da manhã de 3 de setembro de 2025. Desloco-me para a fila da AIMA, nos Anjos, na tentativa de conseguir uma senha que me permita questionar os erros existentes no portal das renovações, erros esses que impedem milhares de emigrantes de submeter o pedido de renovação do visto. À chegada encontro cerca de 50 pessoas, muitas delas pernoitaram em cima de cartões no chão para garantir um lugar.

Só pelas dez da manhã, e com muita sorte, consigo a última senha do dia. Atrás de mim, dezenas de emigrantes, que esperaram horas, são informados de que já não há senhas e de que devem regressar no dia seguinte, ainda mais cedo. Fui atendido por volta das 14h, após dez horas de espera. Expus então os problemas do portal: desde o início de julho que tentamos renovar o visto do administrador da nossa empresa sem sucesso, porque a plataforma apresenta sempre a mesma mensagem — “A sua situação de dívida com a Segurança Social e a Autoridade Tributária está em revisão. Uma vez validada, poderá fazer os pedidos. Por favor volte mais tarde.”

Mostrei as certidões das Finanças e da Segurança Social, ambas a confirmar que a situação está regularizada, e expliquei que o visto de residência expirara a 29 de agosto. Sublinho que o administrador precisa do título renovado para viajar para o Médio Oriente e não comprometer o futuro da empresa. A resposta que recebo é que se trata de um erro da plataforma e que devo reportar para o email renovação.ar@aima.gov.pt. Assim o fiz.

Depois de centenas de emails enviados, mais de um mês depois, chega uma resposta: afinal aquele endereço pertence à estrutura de missão e nada tem a ver com o portal das renovações. Dez horas de espera por uma informação errada.

Voltamos a um balcão da AIMA, desta vez em Braga. Novamente horas na fila. A colaboradora explica-nos que recebem dezenas de queixas idênticas sobre erros da plataforma, que já reportaram superiormente, mas sem retorno. Pedimos contacto de um responsável hierárquico ou da própria administração da AIMA. Resposta: não dispõem dessa informação.

Tentamos o Contact Center da AIMA durante meses. Horas de espera, uma guitarra como música de fundo, mas ninguém atende. Enviamos centenas de emails para o endereço geral. Finalmente, a 16 de outubro, chega resposta: um texto padronizado, sem qualquer referência concreta ao nosso caso.

Entretanto, em grupos de Facebook de emigrantes multiplicam-se relatos idênticos: falhas técnicas, mensagens absurdas, situações suspensas. A exposição submetida em julho através do formulário do portal nunca obteve resposta. Ao tentar de novo, surge um novo erro: “O seu pedido não foi submetido por existirem os seguintes problemas: Este número de cartão/título de residência já foi associado a um agendamento presencial na AIMA.IP.” Ora, nunca recebemos qualquer notificação de agendamento. Outros emigrantes confirmam o mesmo problema. Só pode tratar-se de mais um erro informático, até porque o portal, devido à primeira falha, nunca chegou a permitir a submissão do pedido.

Hoje, é impossível contactar a AIMA. Pior: a instituição insiste, através da comunicação social, que a plataforma não tem erros. Entretanto, a 15 de outubro expirou o decreto-lei que reconhecia a validade dos documentos vencidos, e o governo não o renovou. Resultado: milhares de pessoas encontram-se agora em situação ilegal, sem forma de renovar o título de residência, impedidas de contactar a AIMA e em risco de deportação.

Perante a impossibilidade de chegar à administração da AIMA, enviámos uma exposição por carta registada ao Ministro da Presidência. Até hoje, sem resposta.

Contactámos dois dos maiores escritórios de advogados do país para nos assessorarem. A resposta foi clara: a AIMA não está a responder nem sequer aos advogados e tem, neste momento, 133 mil processos contra si no Tribunal Administrativo de Lisboa

Quando assumirá a AIMA a sua responsabilidade? Quando reconhecerá publicamente as falhas do portal das renovações e comunicará as medidas em curso? Entretanto, os imigrantes que, tal como o nosso administrador, escolheram Portugal para trabalhar ou investir permanecem há meses com a vida em suspenso por causa de erros informáticos, sem que haja o mínimo sinal de responsabilização por parte da administração da AIMA.