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Muito se tem visto sobre o novo estilo de estar “do contra”, o negacionismo. Existe um negacionismo adaptativo, próprio da psicologia humana, que poderá explicar parte dos comportamentos daqueles que recusam um determinado tipo de aparência da prova. E há negacionistas históricos, desde Galileo a Einstein, que recusaram aceitar explicações simples e incompatíveis com a análise das evidências. São chamados “visionários”. Há também negacionistas, geralmente denominados de “ateus”, que não aceitam Deus, nem a religião. Existem racionalistas que negam a possibilidade da ressuscitação ou da vida para além da morte, ainda menos aceitam as dicotomias de céu ou inferno, com maior ou menor estância de purgatório. Também serão negacionistas. Em tempos idos, em nome da fé vigente, estes negacionistas, exploradores de explicações alternativas, foram queimados vivos. Agora, há sítios onde podem ser apedrejados até à morte. Negacionistas foram os que recusaram aceitar a inferioridade dos Judeus e todos os que não viram as virtudes do paraíso soviético. Ainda há quem negue a lógica da evolução dos seres vivos, a ancestralidade biológica humana e a quase esfericidade da Terra. Dentro de tantas formas de negar, desde Semmelweis que só queria que lavassem as mãos e em quem ninguém acreditava até aos “Flat Folk”, vai uma distância gigantesca que é o resultado de epistemologias diferentes e necessariamente incompatíveis.

O negacionismo de que se fala é um afirmativismo. Afirmam o contrário, baseados numa qualquer crença ou suposta informação que outros não veem. Interpretam a realidade em torno de construções delirantes, assim achamos nós, e recusam fazer o que o senso comum aconselharia.  Mesmo que irracional, este negacionismo pode ser tão respeitável como acreditar no impossível, à luz do que se julga saber, ou defender um qualquer tipo de religião, estruturada num sistema de interpretação histórica e numa narrativa de factos não comprováveis, independentemente da bondade moral dos seus princípios. Na verdade, conhecendo-se um pouco do que já foi investigado antropologicamente, nada há de misterioso na necessidade humana de fabular sobre o que não entende.

Mas o respeito que devemos ter para os que não acreditam, não querem acreditar ou apenas sentem-se bem a paranoicamente desconfiar, não nos deve deixar tolerar a má-criação, a intolerância, a falta de cumprimento dos princípios que devem gerir uma sociedade evoluída, participativa e democrática. É por isso que não podemos pactuar com insultos dirigidos a pessoas, seja ao Senhor Presidente da Assembleia da República ou qualquer outro cidadão, não se pode aceitar a desobediência às forças de segurança que educadamente tentam fazer com que as leis se cumpram, nem aplaudir cantores de grandoladas que interrompiam discursos (esses “negacionistas” já eram bons no entender de alguns analistas da época), ou regozijar com manifestações antiglobalização que acabam em monumentais cenas de pancadaria com carros queimados e montras partidas.

Dito isto, aceitando quem, geralmente por falta de informação ou capacidade de análise, possa recusar os benefícios das medidas de proteção da COVID-19, não consigo olhar para a questão do negacionismo, em versão sanitária, sem regressar a um tema que me é grato. Com a COVID-19 passámos a ter defensores do bem comum e da saúde como nunca antes houve. A perceção do risco, o medo, em especial quando o risco é agora e aqui, é muito formativa.

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Em dezembro de 2012, como já fazia há muitos anos e seguramente por ter tido a sorte de crescer no meio das “gentes” da medicina preventiva, disse que “se nós, cada um dos cidadãos, não fizermos qualquer coisa para reduzir o potencial de um dia sermos doentes, por mais impostos que possamos cobrar aos cidadãos, o SNS será, mais tarde ou mais cedo, insustentável” e continuei afirmando, “numa altura em que temos uma elevadíssima carga fiscal que nos é imposta pela necessidade de manter os serviços públicos, é importante que a sustentabilidade do SNS comece a ser encarada como obrigação de cada um de nós”. Na resposta, chamaram-me de tudo. Houve um palerma que me considerou lobotomizado num artigo de opinião que um semanário não se importou de publicar, insultando até a minhas capacidades de médico, ouvi um ex-secretário de estado, também médico, dizer que eu deveria estar “bêbado” e as associações de utentes reagiram com repúdio denodado à minha proposta de que os cidadãos fizessem alguma coisa para adoecerem menos e, por essa via, libertassem recursos e onerassem menos o SNS.

E há um grupo concertado de negacionistas, agregados em torno de corporações como aquelas que fabricam, distribuem e vendem tabaco, álcool e outros produtos de reconhecida nocividade que vão passando incólumes e até são protegidos pelos poderes instituídos. Negam conscientemente e de forma reiterada, mentindo, as maleficências que causam – neste caso as tabaqueiras superam largamente as empresas do álcool – sempre na posição de vítimas de difamação ou tentando colocar-se como agentes da solução do problema que criam. O problema tem números e é a morte anual de milhões de pessoas, muitas mais do que aquelas que a COVID-19 já matou.

Com a COVID-19 e a iluminada governação socialista, autodenominada de esquerda, pedir responsabilidade aos cidadãos já é legítimo. Ainda bem, fico contente e nem me sinto vingado. É um bom exemplo de como o negacionismo não resiste às necessidades, mais do que às evidências. Como disse o nosso Primeiro-Ministro, António Costa, a solução da pandemia também passa pela forma como nos comportamos.

Mas não é só na questão da vacinação, das máscaras e de lavar as mãos, nem só da COVID-19. No outono e inverno que se avizinham temos de continuar a manter uma postura de grande responsabilidade para com a nossa higiene individual e coletiva, não desistir de usar máscaras, nem permitir que os estabelecimentos de uso público deixem de ter dispensadores de álcool na entrada. Tal como devemos aproveitar a campanha de vacinação para a gripe sazonal. Se houve coisa que correu bem com a pandemia de SARS-CoV-2 foi a atenuação de efeitos de outros vírus respiratórios e essa diminuição de incidência infeciosa salvou vidas e libertou recursos.

Contudo, mais do que nunca, é fundamental que os serviços de saúde recuperem a capacidade de cuidar da hipertensão e da diabetes, das doenças comuns que nos fazem perder anos com saúde. Que os mecanismos de medicina preventiva trabalhem ainda melhor do que trabalhavam antes da pandemia e tudo façam para que haja menos doentes e se morra menos de cancro, por consumo de tabaco e por acidentes de viação. Não deixemos que as lições da COVID-19 se percam. Não se esqueçam do que foi a pandemia. Aprendamos com os erros que todos cometemos, em todo o mundo. Relembremos algumas lições.

  1. A manutenção da saúde é um desígnio global, de todo o mundo. Tem de haver saúde em todas as políticas. É a saúde que deve mover a política ambiental.
  2. A eliminação da pobreza deve ser o primeiro objetivo da política de saúde.
  3. A ignorância é o primeiro inimigo da saúde pública.
  4. A prevenção das doenças e a promoção da saúde são o caminho orientador da sustentabilidade de um sistema de saúde.
  5. A informação se for mal transmitida ou não compreensível pela maioria, mesmo se for correta, destrói mais depressa do que constrói.
  6. O sistema político e de governação da saúde tem de ser resistente à desconfiança.
  7. Não há doenças menos importantes. Há doenças mais ou menos graves, mais ou menos prevalentes, o que é diferente.
  8. A saúde mental é tão importante como a saúde física. Não há saúde sem saúde mental.
  9. A preparação é a base de uma resposta consequente.
  10. Nem tudo o que parece ser útil, é verdadeiramente efetivo ou necessário. A pressa na avaliação determina perda de capacidade de análise e precipitação nas decisões. Gera desperdício.
  11. A coesão social e política de um Estado é indispensável para responder às necessidades de saúde de uma população, não apenas em situações de emergência.
  12. A cooperação internacional é essencial para o bem-estar das populações.

É este o meu Credo. Por favor, não o reneguem. É o meu “negacionismo” de tudo o que me quiserem dizer que contrarie os 12 pressupostos enunciados. A minha recusa em aceitar uma realidade alternativa radica em poder apresentar exemplos que sustentam cada um dos 12 pontos. Se me demonstrarem o contrário, poderei mudar de ideias. Até lá…