A bem dizer não há dogmas católicos. Há dogmas, ponto final. Todos nós, católicos e não católicos, admitimos determinadas verdades, e não outras. Isto para dizer que, no seu sentido mais residual, “dogma” quer apenas dizer “ verdade”, é só ir ao dicionário…
E todos temos muitos dogmas, opiniões, crenças, muitos delas aceites sem qualquer pestanejar. É assim porque sim, defendemos, e siga a marinha! Mas se queremos ser awake, sermos conscientes ( como o wokismo pretende), essa postura não chega, pelo que trago à colação duas figuras marcantes do século passado, que este ano se celebram por razões de monta, e que se ligam à problemática dos dogmas na religião católica. São eles Newman e Flannery, para os que já os conhecem. Para os que não os conhecem fica esta minha opinião articulada, assim tentarei.
Há que reconhecer que há verdades que valem mais que outras, não porque sim, mas porque são verdades que têm vida, crescem e fazem um mundo melhor. Não a embandeirar em arco um optimismo fixe ou cool, mas porque incluem aquilo sem o qual nenhum gozo é gozo.
A propósito e a bem dizer, também, nesta vida não se goza verdadeiramente, lemos no final de um dos 32 contos de Flannery O’Oconnor, eminente escritora norte americana.
Esta católica da Georgia disse num dos seu ensaios – coligidos num volume intitulado, Mistério e Costumes, Mistery and Manners – que não se via como uma escritora católica, mas como uma católica que escrevia. E que para essa escrita contava com os Dogmas. Ou seja, em vez de serem entraves ao seu pensamento, os dogmas da Igreja Católica são chaves que permitem ler a realidade porque é da sua natureza iluminar.
A literatura com ela ganhou os píncaros da compreensão do humano, com descrições grotescas, por vezes violentas, ao ponto de ser posta de lado, a começar pelo católicos que duma literatura católica esperam apenas mensagens ou valores e vidas edificantes, e não fúrias e sons de vidas falhadas. Os contos acabam quase muito mal…
Ao lado de nomes como o do prémio Nobel William Faulkner, ela é um marco no universo da literatura universal, por tudo aquilo que deixou escrito de forma brilhante e concisa naquelas short stories, os contos, e mais dois romances, num dos quais, Sangue sábio, Wise Blood, se baseou o filme de John Huston, Sangue Selvagem (1979).
A religião católica teve nela alguém que um dia disse que daria a sua vida por ela – mas que por ela não daria um banho, isto a propósito da sua ida ao Santuário de Lourdes, altura em que passou por Lisboa. Não foi a Fátima porque – lê-se numa das inúmeras cartas que escreveu, coligidas num volume O hábito de ser, The habit of being – as visitas aos Santuários marianos nunca lhe aumentaram a devoção.
Podemos desconhecer Flannery, ou Newman, e tantos outros, mas não vamos dizer que não conhecemos a História. Na verdade o Cristianismo é bem conhecido, não é um passageiro acidental da história – Christianity has been long enough in the world to justify us dealing with it as a fact in the world history, escreveu um dia o agora doutor da Igreja, o santo cardeal John Henry Newman.
O que não é suficientemente sabido é que a verdade revelada uma vez por todas foi-o com a promessa de se vir a explicitar no tempo, garantindo assim a beleza da aventura humana – nisto se baseia a teoria do desenvolvimento da doutrina, ou do dogma.
Numa carta privada Newman escreve que a maior parte do sistema teológico espiritual – que está implicitamente contido nos escritos e nos actos dos Apóstolos – foi desenvolvido ao longo dos tempos de acordo com as circunstâncias.
Reconhecer o carácter vital do dogma é uma pérola preciosa que o Papa Leão XIV resolveu trazer à vista declarando, há dias, doutor da Igreja um homem de virtude inquestionável que, em 1845, se converteu do Anglicanismo a uma fé mais plena, não apenas teologicamente, mas espiritualmente – o que se lê com deleite nas confissões da sua autobiografia intitulada Apologia Pro Vita Sua.
A Igreja Católica, do alto da sua história milenar tem vindo a declarar certas verdades fundamentais pertinentes à sua natureza e à vida dos homens. E tem vindo a fazê-lo de forma desenvolvida, isto é , aprofundando-as no tempo. O mesmo é dizer que o dogma, a doutrina, é passível de evolução. Quem o diz não sou eu, mas Newman, no seu ensaio Desenvolvimento do Dogma cristão. E sublinho o “católica”, porque para os mais distraídos Newman é ainda um pastor anglicano. Ignora-se que de tão bem investigar, o agora Cardeal Newman se converteu ao catolicismo e foi declarado santo pelo Papa Francisco a 13 de Outubro de 2019.
Desengane-se pois quem pensa que os homossexuais não podem ser elevados ao altar! Mas não vim hoje aqui falar da homossexualidade dos cardeais. Quis mostrar, sim, que os dogmas católicos são melhores que os outros. Já o fiz aqui, há um ano, por ocasião do dia da Assunção de Nossa Senhora, todos os anos uma celebração a 15 de Agosto, de grande força no nosso país, e aí à porta…
O que hoje acrescento é que a Igreja Católica, ao admitir a necessidade do tempo e da história para explicitar o implícito, está a reconhecer valor da aventura da interpretação humana, a convocar todos os homens para esse trabalho que exige tempo, talento e dedicação, De uma forma ou de outra todos poderemos contribuir para o desenvolvimento do dogma, em palavras e actos. Tal como o homem e a mulher que hoje evocámos, e que, se Deus quiser, vão dar muito que falar, ainda este ano de 2025…