Dos jornais: “Esta semana foi conhecido o relatório da ANA, concessionária do aeroporto de Lisboa, que consultou vários interlocutores com interesse na infra-estrutura, os chamados stakeholders. E nesse documento ficámos a saber que houve quem sugerisse que os terrenos do aeroporto da Portela podiam ser vendidos e a sua receita ser utilizada para ajudar na construção do novo aeroporto, no Campo de Tiro em Alcochete…”

Nos fins do Séc. XX fui chamado para, integrando uma vasta equipa de engenharia e para a minha disciplina de electrotecnia, fazer o levantamento de todos os aeroportos portugueses para a futura (na altura) privatização da ANA e, também,  ajudar a criar um masterplan ainda muito básico para o que se pensava seria o Aeroporto da Ota.

Entregámo-nos com gosto a estas tarefas e andámos por todo o País e Ilhas a ver aeroportos. Ninguém me ligou nenhuma, eu era (e sou…) uma peça insignificante, até que chegou a vez de fazermos a visita à Portela. Aí vários trutas do consórcio me vieram dar conselhos e explicar o que devia dizer.

Por breves minutos espantado com a atenção que me era dada, mas já avisado que vários interesses na Portela se chocavam (tanto no sentido poedeiro, como no adversarial), tentei informar-me um pouco mais. Na verdade, não consegui saber grande coisa, mas percebi que quase 500 hectares (5% da área de Lisboa aproximadamente) se fossem transformados em área edificandi, podia representar muito dinheiro. Vagamente foi-me informado que a propriedade do espaço seria disputada pelo Estado (diferentes Ministérios), pela Câmara de Lisboa, pelos proprietários originais que tinham sido expropriados para construção de um aeroporto. Existiam também reivindicações adicionais de quem ali está instalado há muitos anos invocando uso campeão…

Depois deu-se a guerra contra Ota, e o Governo decidiu abandoná-la e mudar para Alcochete tendo pedido ao LNEC um estudo de viabilidade que deveria ser presente num mês, mais ou menos!

Qual não foi o meu espanto quando vejo os desenhos feitos para o aeroporto de Ota – e que estavam em fase de masterplan como acima digo – espetados em cima do Campo de Tiro de Alcochete, exibido nas TV com a maior seriedade do mundo! Alcochete estava decidido e lançado!

Esclareçam-me. Só na Europa, e por exemplo, o Aeroporto de Hamburgo mantém-se onde está e foi fundado em 1911; o Aeroporto de Bremen em 1913; o Aeroporto de Roma-Ciampino em 1916; o Aeroporto de Brighton (Reino Unido) em 1910; o Aeroporto de Schiphol (Países Baixos) opera desde 1920. O Aeroporto de Le Bourget (onde aterrou Lindbergh após o seu voo transatlântico!) continua em funcionamento.

Ou seja: pelo impacto brutal que o lançamento no mercado e na cidade de uma área gigante, todos estes Países acharam por bem manter os aeroportos, dispersando o seu tráfego, mas não acabando com eles.

Existe o caso do Aeroporto de Berlim – Tempelhof – que foi fechado, sobretudo porque tinha deixado de gerar receitas. Mas a Alemanha transformou-o no maior parque da cidade com 380 hectares, maior que o Central Park de Nova Iorque.

Não sou ninguém. Mas tenho a estranha convicção que existem muitos pato-bravos a afiar os dentes imaginando que têm na Portela carne de lombo, sendo talvez esta uma razão de fundo porque, na ausência de coragem política, se vai arrastando a decisão.

Existindo tecnicamente a convicção que o tráfego aéreo que demanda a Portela está no limite, mas tendo este aeroporto uma localização privilegiadíssima em relação à cidade de Lisboa, porque não mantê-lo e criar um segundo aeroporto que não terá assim de ser um gigante custosíssimo?

Espera-se do poder político que seja capaz de pesar entre os interesses do País, dos cidadãos e só depois dos económicos. Para isso o poder político não pode pensar como os patos-bravos.