Lisboa, Outono de 1943. George Kennan, jovem chargé d’affaires americano que dois anos mais tarde escreveria o telegrama longo e desenharia a doutrina do containment, sentava-se nos gabinetes do Terreiro do Paço a negociar com Salazar a cedência de facilidades militares nos Açores. Em Novembro de 1944 assinou-se o primeiro acordo bilateral substantivo. Em Setembro de 1951, com Portugal já entre os doze fundadores da NATO desde 1949, formalizou-se o acordo das Lajes. É o documento ao abrigo do qual, entre Fevereiro e Abril de 2026, os bombardeiros americanos reabasteceram nas Lajes a caminho do Irão. O tratado é de 1951. Foi negociado por Salazar.
Oitenta e dois anos. Três regimes políticos. Uma revolução, uma democracia, uma adesão à União Europeia. E o único instrumento operacional da relação luso-americana que sobreviveu intacto foi o documento assinado pelo regime que veio antes. Os sucessores democráticos negociaram a revisão de 1995 sem trocar nada de muito substancial. Os sucessores dos últimos trinta anos não negociaram mais. Em 2026, Portugal limita-se a confirmar autorizações tácitas e a citar artigos do Acordo Técnico em conferência de imprensa.
A primeira geração democrática entendeu que precisava de continuar o trabalho bilateral com outra legitimidade. Carter veio a Lisboa em 1980 ver Eanes e Sá Carneiro. Eanes foi a Washington em 1983, recebido por Reagan, num momento em que Kissinger falara de Portugal como possível Cuba europeia. Pinto Balsemão foi recebido por Reagan na Casa Branca em Dezembro de 1982. Soares foi à Casa Branca várias vezes: como primeiro-ministro, recebido por Reagan em Março de 1984, como Presidente da República, em Maio de 1987, Junho de 1989 e Janeiro de 1992. Cavaco foi igualmente recebido em ambas as qualidades, tendo tido em 1990 encontros bilaterais substantivos com Bush pai sobre Angola, a reunificação alemã e a presença militar americana nos Açores. Chefe de Estado em Washington em intervalos regulares, primeiro-ministro a fazer trabalho operacional, embaixador residente com peso político. A adesão à Comunidade Europeia em 1986 tinha criado a ilusão de que a política externa portuguesa seria automaticamente reforçada pela europeia. Era cómodo para um país pequeno que acabava de sair de uma ditadura e entrava num clube rico. A primeira geração democrática percebeu que pertencer e ter peso não são a mesma coisa. Durou vinte anos.
Durão Barroso, em Março de 2003, recebeu Bush, Blair e Aznar nas Lajes. A imagem foi de cimeira atlântica decidida em solo português. A realidade foi outra. Aznar era o protagonista ibérico do alinhamento com Washington e quis a fotografia. Portugal entrou como anfitrião, não como interlocutor. Barroso foi para Bruxelas no ano seguinte. Foi a última vez que um primeiro-ministro português esteve numa sala com um presidente americano a discutir assuntos substanciais. No final do dia, a ilusão de 1986 venceu.
Podemos argumentar que Portugal deixou de actuar directamente mas multiplicou influência por via multilateral: Guterres preside às Nações Unidas desde 2017, Costa preside ao Conselho Europeu desde 2024. Mas a presidência de Costa em Bruxelas não é canal português, é canal europeu. Foi explicitamente excluído por Trump da cimeira de 18 de Agosto de 2025 sobre a Ucrânia, em que estiveram Macron, Merz, Starmer, Meloni, Stubb, Rutte e Von der Leyen. E se Costa alguma vez falar em Washington, falará por vinte e sete países, e o interesse específico português dissolve-se na média ponderada de Bratislava, Tallinn e Riga. Guterres em Nova Iorque representa a ONU, ou seja, ninguém em particular. Nenhum dos dois pode levantar o telefone para Washington em nome de Lisboa. Essa função é bilateral por natureza, e foi abandonada. Mearsheimer formulou-o assim em The False Promise of International Institutions: as organizações multilaterais não substituem o poder dos Estados que as compõem, reflectem-no.
Portugal apostou no contrário. E hoje não tem instrumento de reserva nenhum. Não tem agenda própria, não tem objectivos declarados, não tem autonomia operacional. O caso dos vistos E1 e E2 ilustram-no bem. Os Estados Unidos atribuem-nos a parceiros bilaterais para investidores e comerciantes, e existem desde o século XIX. O Reino Unido tem-nos desde 1815, a Espanha desde 1903. A Libéria tem-nos desde 1939, o Togo desde 1967, a Moldávia desde 1994 até a Albânia desde 1998. Portugal obteve-os em Dezembro de 2022, enxertados numa lei orçamental de defesa americana, depois de três tentativas legislativas no Congresso. Foi o último país da Europa. E não foi por iniciativa diplomática portuguesa. Mas por iniciativa de congressistas americanos com bases eleitorais luso-americanas. Cicilline em Rhode Island, Costa e Khanna na Califórnia, Keating em Massachusetts. Durante anos pressionaram Washington para obter o que nenhum governo português, em quase um século, tinha pensado pedir. O caso dos vistos nunca esteve na agenda nacional. Durante anos, a política externa portuguesa foi feita em Rhode Island, na Califórnia e em Massachusetts.
Depois disto, sobrou a coreografia. Marcelo foi à Casa Branca em Junho de 2018. A visita durou um dia e meio. O registo é a historieta do vinho da Madeira que os pais fundadores americanos beberam para celebrar a independência. Houve um brinde. Marcelo voltou várias vezes aos Estados Unidos. Não a fazer política externa, mas sim turismo institucional. O primeiro-ministro já nem vai. Costa, em oito anos como chefe de governo, não fez uma única visita oficial bilateral à Casa Branca. Montenegro foi a Washington em Julho de 2024 como um dos trinta e dois chefes de governo presentes na cimeira da NATO. Sentou-se ao jantar. Cumprimentou o anfitrião na fila protocolar. Voltou no dia seguinte.
Foi nesse estado de atrofia da politica externa que chegou Fevereiro de 2026. Dezenas de aviões americanos passaram pela base das Lajes: reabastecedores, caças, cargueiros. Iam apoiar a guerra de Israel contra o Irão, na qual os Estados Unidos se tinham deixado arrastar de bom grado. Portugal não foi consultado sobre a operação. Paulo Rangel apareceu em Bruxelas, a 23 de Fevereiro, a explicar que o uso da base estava dentro do acordo, que as autorizações eram tácitas, que se cumpriam as regras de sempre, decretadas há “décadas e décadas e décadas, desde 1951, julgo eu”. Não houve renegociação, não houve exigência de contrapartida, não houve pedido de consulta prévia. Cumpriu-se o tratado. Em Maio, Marco Rubio agradeceu publicamente. Citou Portugal como o aliado que disse sim antes de saber qual era a pergunta. O gabinete emitiu comunicado a desmentir Rubio. É a forma mais portuguesa de admitir tudo: explicar à pressa que afinal não foi exactamente assim, que houve um pedido, que o pedido chegou tarde, que a autorização foi dada na mesma. Há ministros que erram por excesso de iniciativa. O actual titular da pasta consegue ser corrigido em Bruxelas, agradecido em Washington e desmentido em Lisboa, é obra.
Ter política externa não é ter embaixada, ministério e protocolo. É ter agenda, instrumentos e capacidade de dizer sim ou não. O Reino Unido, no mesmo período, mostrou o que isso significa. Starmer recusou pedidos americanos de utilização de bases para o ataque ao Irão, alegando risco de violação do direito internacional. Foi publicamente insultado por Trump, comparado desfavoravelmente a Churchill. Os britânicos jogaram. Disseram não. Pagaram o preço. E quando o canal governamental ficou impossibilitado de operar, puseram Carlos III no Capitólio: vinte minutos de discurso, ovações bipartidárias, a NATO defendida, a Ucrânia apoiada, o Supremo americano invocado. Mensagem do Foreign Office entregue por uma figura institucional que sobrevive a ciclos eleitorais. A escala britânica é diferente da portuguesa, evidentemente. O método, esse, é o que qualquer Estado soberano deveria ter: agenda própria, capacidade de decisão, instrumento de reserva quando o canal principal congela.
Salazar negociou com Kennan os Açores em 1944 e fez deles o instrumento da política externa portuguesa durante meio século. Balsemão negociou com Reagan em 1982. Cavaco negociou com Bush em 1990. A democracia herdou o instrumento, manteve-o vinte anos, e desde então gere-o por inércia. Marcelo, esse, entre selfies, brindou com vinho da Madeira em 2018. Costa não foi. Montenegro foi a jantar. Rangel atrapalha-se em desmentidos. Os ingleses, em paralelo, mandaram Carlos III ao Capitólio com a agenda do Foreign Office. Portugal continua, de jure, a ter Presidente, primeiro-ministro, ministro dos Negócios Estrangeiros e embaixador em Washington. De facto, externalizou a sua agenda externa para Bruxelas. O Estado existe. A política externa, não.