A 21 de Setembro de 1761, no Rossio, o Estado português mandou estrangular um jesuíta de setenta e dois anos e queimar-lhe o corpo em praça pública. A sentença determinava que fosse reduzido a pó e cinza, para que dele não houvesse memória alguma. Houve. Gabriel Malagrida foi o último homem executado pelo Santo Ofício em Portugal, por vontade de um ministro cujo irmão dirigia o tribunal que o condenou. Voltaire, que não tinha propriamente a Igreja por confidente, retratou o caso melhor do que qualquer historiador depois dele: “ao excesso de horror juntou-se o excesso de ridículo”. Pombal quis apagar um homem. Cento e catorze anos depois, Camilo Castelo Branco traduziu e prefaciou a biografia do jesuíta, escrita contra o próprio marquês, o que é aproximadamente o contrário de uma vitória.
Duzentos e sessenta e cinco anos depois, o mesmo dia anda entregue à paz mundial. Em 1981, caiu na terceira terça-feira de Setembro, para coincidir com a abertura da Assembleia Geral. Em 2001, a ONU fixou-o a 21 e transformou-o num apelo ao cessar-fogo universal. Os homens que tinham outros planos, aparentemente, não tinham recebido a circular. Quatro dias depois, dois aviões entraram Manhattan adentro, e a década seguinte tratou de exportar paz com um zelo particular, sobretudo para o Médio Oriente, que anda a ser “pacificado” há vinte e cinco anos sem sinais de estar pacificado o suficiente. É uma das virtudes dos dias internacionais: vagos e sem valor, raramente obrigam alguém a coisa alguma.
E como de dias se trata, podemos recordar que o 21 de Setembro já tinha uma longa folha de serviço, para além de Malagrida, e muito antes de ser entregue à paz. Em 1745, em Prestonpans, o exército jacobita de Carlos Eduardo Stuart desfez em meia hora as tropas do governo, porque se discutia quem tinha direito à Coroa. Em 1792, em Paris, a Convenção aboliu a monarquia francesa. Três episódios, uma mesma disputa: conquistar o poder, legitimá-lo e fazer com que seja reconhecido. É essa disputa, mais do que qualquer outra, que os calendários sempre trataram de ordenar.
O cristianismo foi o primeiro a responder-lhe através do calendário: cresceu de baixo para cima, comunidade a comunidade, mais depressa do que qualquer hierarquia central conseguia ditar, e já no Cronógrafo de 354 havia listas de mártires, cada uma maior do que a anterior. Nome, história e uma morte que era, acima de tudo, uma entrega: aceitar a tortura, a humilhação e uma morte muitas vezes lenta e dolorosa em vez de renegar a fé. Era uma pedagogia exigente, que obrigava a olhar para uma pessoa concreta, a reconhecer nela uma vida orientada para algo maior do que ela própria e a tentar seguir-lhe o exemplo, não apenas a decorar-lhe a existência.
O catolicismo foi assim durante séculos: uma instituição que crescera pouco a pouco, sedimentada pelo uso, não por decreto. A Revolução Francesa procurava fazer precisamente o contrário: retirar Deus do centro da vida pública e colocar no seu lugar o homem, a Razão e a República. Não por acaso, em 1793 muitas das igrejas francesas foram desacralizadas e transformadas em Templos da Razão, com novos altares e novos ritos. E, provavelmente por isso, acabou por copiar o instrumento que tinha sido útil ao poder que acabava de derrubar. No dia seguinte à abolição da monarquia, que a Convenção decretara precisamente a 21 de Setembro, proclamou a República, e esse dia passou a contar como Ano I. Varreu os santos e entregou cada data a uma planta ou a uma alfaia agrícola: houve o dia da cebola e, a 28 de Dezembro, celebrou-se mesmo o dia do estrume. A experiência durou doze anos, até Napoleão a revogar em 1806. Conseguira mudar o nome dos dias, mas não conseguira fazer uma sociedade viver dentro deles.
À medida que a Europa se foi reorganizando em Estados nacionais e os impérios começaram a perder territórios e colónias, o calendário ganhou uma função mais modesta, porém mais duradoura do que a experiência revolucionária: fabricar pertença. Repetidas ano após ano, os ritos e as datas fazem aquilo que a lei, por si só, nunca consegue: dar ao povo a sensação de pertencer à mesma comunidade. Portugal não foi excepção. O 10 de Junho entrou no calendário em 1880, para o tricentenário da morte de Camões. Salazar acrescentou-lhe a raça em 1944, a democracia trocou a raça pelas comunidades, e a data nunca precisou de se mexer: já não se tratava tanto de ensinar como viver, mas de articular quem éramos.
Depois de 1945 apareceu um terceiro modelo, mais ardiloso do que parece. Já não se tratava de fabricar lealdade a Deus ou a uma pátria, mas de fabricar, devagar e sem alarido, um tipo novo de gente: cidadãos do mundo. É o gradualismo fabiano: planta-se a ideia muito antes de ela parecer óbvia, e deixa-se o tempo fazer o resto. A própria ONU proclama o objectivo: os dias internacionais existem, explica o seu site, para educar o público, mobilizar vontade política e celebrar as conquistas da humanidade. Há hoje mais de duzentos, a ponto de Junho ter mais efemérides do que dias. Há o Dia Mundial do Futebol, desde 2024. E há o Dia Internacional do Markhor, uma cabra selvagem das montanhas entre o Afeganistão e o Turquemenistão, cara que se farta: uma única licença de caça ao markhor chegou a ser leiloada por trezentos e setenta mil dólares. Não sabia que havia outros povos fãs de chanfana.
Ora, a diferença entre os três modelos não está no que recordam, mas no que pedem em troca. O religioso pedia imitação e, nalguns casos, a própria vida, como os mártires bem sabiam. O nacional pedia lealdade: uma bandeira, uma língua, um lugar a que se pertence mesmo quando tudo corre mal. O internacional pede um homem sem fronteiras, fé na humanidade e uma sucessão de causas a que aderir. É, essencialmente, um projecto de aparências: faltando uma causa suficientemente profunda para atrair o homem e levá-lo a sacrificar alguma coisa por ela, ficam palavras bonitas, ficam as campanhas, ficam os dias internacionais. Fica mais um Dia do Estrume.
Por tudo isto, proclamar a paz universal do 38.º piso de uma torre em Manhattan, com vista para o East River e nenhuma para a discordância, parte do mesmo erróneo princípio que levou a Convenção a decretar o Ano I: o de que uma sociedade se molda por aquilo que lhe é proclamado. A Convenção precisou de doze anos para descobrir que não resultava. A ONU leva oitenta e ainda não reparou. Hoje sobra-lhe o que se vê: edifícios, bandeiras, tradutores, resoluções e dias internacionais. Bernard Shaw, que era fabiano e sabia do que falava, já tinha arrumado o assunto: quem sabe, faz. Quem não sabe, ensina. Faltou-lhe uma terceira categoria: a de quem não sabe fazer nem ensinar e, por isso, tem uma carreira à espera na ONU.
Malagrida não teve a sorte do markhor. Não precisou de um dia internacional. Aliás, não teve um dia: teve um marquês vingativo, uma fogueira e um tradutor teimoso. E teve Clemente XIII, que, mal soube da morte, mandou imprimir um retrato do jesuíta com a inscrição soli invisus Daemoni, e a imagem correu pela Europa sem que ninguém tivesse decretado coisa alguma. Duzentos e sessenta e cinco anos depois, ainda falamos dele. O Markhor, a Batata, o Yoga e a Sanidade Animal que tentem.