Bem vindos a 10 de setembro de 2035. O relógio marcava 07h00 da manhã quando o Joaquim, diretor de marketing, despertou em sobressalto. Teria alguém comprado pão fresco? O pensamento desvaneceu-se rápido: estava atrasado para incorporar um novo membro na sua equipa. Saiu disparado no seu carro rumo à monotonia diária dos 40 minutos de trânsito compensados por um respeitável lugar de garagem.
No mesmo dia, Catarina, a manager que reportava a Joaquim, decidiu passar pelo local de trabalho às 08h00, não sem antes se enfurecer com a filha mais nova. A produção matinal de TikToks enquanto simulava ouvir uma aula em formato de podcast online forçou mais um pequeno drama familiar. Chegada ao escritório, encomendou um pujante pequeno-almoço para o novo reportee. Ligou o portátil, redigiu uma mensagem de boas-vindas e deixou um enigmático esquema no quadro simbolizando um desafio da sua equipa em 2034. Dirigiu-se então ao ginásio de forma relaxada, para estar de volta ao escritório pelas 09h30 e liderar o processo de integração.
Pedro, prestes a iniciar o terceiro estágio do ano, acordou nervoso e expectante. Não satisfeito com o rigor e a estrutura hierarquizada da sua anterior empresa, procurava, mais do que um trabalho que lhe pagasse as contas mensais, uma comunidade onde pudesse expressar e potenciar a sua criatividade e autenticidade. Entrou num veículo elétrico que disponibilizava uma boleia partilhada ao estilo ridesharing, sempre ancorado ao seu assistente virtual, que, usando IA, lhe sugeria o melhor discurso de apresentação à equipa. A primeira impressão era importante na organização em que almejava criar um impacto no mundo.
Depois de imprimir a estratégia trianual da empresa num maciço bloco A4 para partilhar com o Pedro, Joaquim sentou-se na pequena sala de reuniões do segundo andar, recordando amargamente as recentes más decisões na contratação. Pedro, que aproveitara os primeiros momentos da nova realidade para uma curta meditação na sala de wellness, dirigiu-se para junto do diretor. Os três, juntamente com Joana, uma analista chegada em 2033, representavam agora a esperança renovada da organização em aumentar a base de clientes, fortalecer a sua retenção, otimizar estratégias de pricing e apoiar a expansão das linhas de produto.
Na iminência de iniciar o seu mnemónico discurso corporativo, que tão bem tinha servido durante quinze anos, Joaquim foi surpreendido pela intervenção de Pedro. Este levantou-se e dirigiu-se ao quadro para estruturar a sua solução para o desafio deixado por Catarina, sempre recorrendo ao chatbot por si criado na universidade e às pesquisas que tinha feito na preparação das entrevistas. Joana, entusiasmada por quebrar a rotina do seu reporte semanal de projetos, decidiu desafiar Pedro com alguns dados reais que complexificaram qualquer solução simplista. Catarina estava agora dividida entre a responsabilidade da preparação das reuniões daquela tarde e a estimulante discussão protagonizada pelos membros mais juniores. Alocou, perante a incerteza, meia hora adicional à sessão, forçando a participação de Joaquim, que olhava perplexo para Pedro e Catarina. Da partilha surgiram várias ideias inovadoras que talvez pudessem ser implementadas. Tudo dependendo em larga escala da predisposição do diretor para investir na modernização dos processos de negócio fomentando a inovação no seio da equipa. O tempo terminou quando Ricardo, responsável dos recursos humanos, entrou de rompante pela sala para acertar os últimos detalhes contratuais com o Pedro.
Este foi apenas um episódio ilustrativo da transformação cultural, processual e tecnológica pela qual o departamento de marketing da empresa passaria ao longo dos anos: um ‘Gen Xer’, uma ‘Millennial’ e dois ‘Gen Zs’. Idades, mentalidades e formas de estar diferentes na vida e, por consequência, no trabalho. Todos com qualidades e oportunidades de melhoria intrinsecamente ligadas às transformações do mundo laboral pelas quais foram passando. E, de tão vincadas essas características – principalmente nas camadas mais jovens –, parece-me prudente que as organizações repensem as suas estruturas, processos e formas de comunicação. A velocidade e a escala das mudanças laborais assim o obriga, sob pena das equipas caírem num rodopio constante de conflito e tensão, prejudicando a sua capacidade competitiva.
E com isto vêm as oportunidades. Antevejo a criação de uma função de harmonização e integração entre equipas e até sub-equipas, seja ela assumida por recursos humanos, pela equipa de ‘special projects’ ou até por um moderno ‘workplace manager’. Sem ninguém que assuma este papel, como impedimos a explosão deste cocktail Molotov?
Nota: este texto resulta de uma projeção da população em 2035 de acordo com o gráfico abaixo. Todos os nomes são fictícios e a empresa inexistente.