Não nascemos (só) para sermos felizes. Perdoem-me o pragmatismo – provocatório, mas também racional – desta ideia. Falemos de ti. Certamente já tiveste momentos felizes, podes estar feliz agora ou apenas almejar atingir a felicidade futura. Pensemos juntos: de onde veio – ou virá – essa felicidade? De voltares as costas a um desafio profissional, de ignorares a pessoa com quem não querias falar ou de evitar um tratamento médico por negativismo cético? Ou, pelo contrário, de abraçares a complexidade de um projecto exigente, de tentares compreender a perspetiva do outro ou de recuperares a forma física depois de um período de resguardo? Talvez até venha, simplesmente, da viagem que tanto planeaste ou da refeição no restaurante Michelin com que sonhavas há meses. A resposta é igualmente simples e desconcertante: depende. De ti, do teu contexto, do teu grau de liberdade e da tua definição de felicidade em cada fase da vida.
Este foi um tema de acesa discussão familiar na minha reconfortante semana de praias algarvias. Num jantar à beira mar, o contraste geracional originou visões díspares: os mais velhos, apoiados num discernimento amadurecido, defendiam a superação pessoal, desafiando a cultura de “descarte” e cientes da imperfeição subjacente aos utópicos planos dos indivíduos; os mais novos, amantes da liberdade sem limites, desconfiados da durabilidade dos projectos de vida num mundo em mutação e mais abertos ao falhanço como forma de retomar o caminho certo.
É próprio das idades mais jovens associarmos a felicidade às coisas grandes – e enchê-las de métricas para nos convencermos de que fazem sentido: a experiência gastronómica com mais pratos, a viagem com mais milhas, a fotografia com mais “likes” ou o carro com mais acessórios. Julgamo-nos donos absolutos da nossa felicidade e negligenciamos as barreiras que se erguem entre nós e ela. E, quando a desejada posição profissional nos exige mais ou a relação ideal se revela mais complexa do que imaginávamos, desistimos. Trocamos e voltamos a tentar, até atingirmos de novo um pico de felicidade, seguindo a lógica de um gráfico de ondas. Rapidamente nos aborrecemos e questionamos tudo quando nos deparamos com largos períodos longe da crista das mesmas. Ninguém nos avisou que talvez também fossemos felizes no reencontro com um familiar, na aprendizagem de um feedback profissional negativo ou no simples passeio de bairro com o carrinho de bebé. A felicidade pode ser isto tudo e, felizmente, também o seu contrário. E é por isso que é tão complexa!
Todos, em princípio, queremos ser felizes. Também tu, certamente, já abandonaste projectos aliciantes, iniciaste relacionamentos tóxicos ou voltaste as costas a países onde outrora sonhaste construir a vida. Como defensor da liberdade individual, alegra-me que assim seja. Pergunto-te, no entanto: voltarias a fazer tudo igual com base no teu actual conceito de felicidade? Eu não. E é por isso que digo: talvez a maior felicidade seja mesmo descobrir o que é a nossa própria felicidade!