Chega a ser comovente a postura dos ateus quando questionam os crentes em Deus. Com a certeza de quem se vê como invencível, intocável e imbatível, levantam a cabeça, olham nos olhos dos crentes em Deus e certos de que se preparam para arrumar o adversário com um golpe fatal, atiram um “Deus existe? Mostra-me. Onde está a evidência empírica?”. O resultado habitual é o crente a sentir-se derrotado pela incapacidade de demonstração empírica da existência de Deus e o ateu realmente convencido de ter destruído novamente o seu adversário de debate, ao levar o crente em Deus a hesitar perante a necessidade de demonstração de evidência empírica de tal existência.
É deveras impressionante como de uma forma tão simples se vencem discussões com uma regularidade de ritual. E seria essa fórmula brilhante, não fosse o ateu estar a montar uma armadilha para ele mesmo.
O argumento é entendido por todos, mas nem todos parecem estar disponíveis para pensar e reflectir sobre ele. E é o seguinte: “Deus existe” é uma afirmação existencial. Para serem aceites, as afirmações existenciais requerem evidência empírica. Não sendo apresentada a evidência empírica, a afirmação existencial deve ser rejeitada. Ou como disse de forma eloquente Christopher Hitchens: “What can be asserted without evidence can be dismissed without evidence.”.
Alguns certamente já viram o que está em causa aqui.
Porque sim, há um problema.
É que o ateísmo é uma afirmação existencial. Assim sendo, pelos critérios dos próprios ateus, esta afirmação existencial precisa de evidência empírica para ser aceite. Afinal, o que pode ser afirmado sem evidência pode ser recusado sem evidência.
“Mas o ateísmo existe obviamente, basta ver os ateus! Os ateus existem. Se os ateus existem, o ateísmo existe”
Calma com essa certeza toda, meu caro ateu. Para quê tanta pressa?
Com todo o respeito, não. O que existem são as pessoas. E sim, existem muitas pessoas que professam a ideia ateísta. Existem ateus? Sim. Nesse sentido, podemos defender a existência do ateísmo enquanto comunidade que partilha dessa ideia. Mas a existência de muitas pessoas que partilham de uma ideia não demonstra a existência da ideia. As ideias não são visíveis, não têm massa, não emitem radiação detectável…
Isto faz com que o ateísmo, enquanto ideia, pertença ontologicamente à mesma categoria em que os ateus insistem que Deus não pode existir. Afinal, ambos escapam à verificação empírica.
Há aqui uma troca silenciosa que convém nomear. O ateu que responde “os ateus existem, logo o ateísmo existe” está a invocar a existência sociológica da crença — o facto verificável de haver pessoas que a partilham. Mas quando exige prova empírica de Deus, opera no plano da validade epistémica — se a posição é verdadeira ou racionalmente justificada. São planos distintos. E o próprio ateu sabe disso: também os criacionistas existem sociologicamente, e isso não prova o criacionismo.
Muitos ateus convenceram-se de uma distinção que sustentaria o seu posicionamento que consiste em distinguir entre entidades abstractas e entidades metafísicas extra-mundanas. No campo das entidades abstractas estariam, por exemplo, as ideias ou posições filosóficas; do outro lado estaria Deus. Esta distinção suporta o posicionamento ateísta, assumindo que as entidades abstractas existem de forma derivada, como expressão de comportamentos humanos observáveis. As entidades metafísicas extra-mundanas, por sua vez, versam sobre algo fora do universo físico, e apenas estas últimas necessitariam de demonstração empírica.
Estou certo de que muitos já encontraram o problema que aqui reside. É que mesmo sendo um posicionamento razoável, ele anula o argumento inicial.
Se as ideias existem numa categoria que não necessita de demonstração empírica, o critério deixou de ser universal. E não, a observação de comportamentos humanos não demonstra empiricamente a existência da ideia. Os comportamentos são observáveis, a ideia não.
Ao deixar de ser universal, o critério da posição inicial revela que a exigência de evidência empírica para afirmações existenciais não é uma lei epistemológica, mas sim uma preferência metodológica aplicada de forma selectiva.
Assim sendo, a questão passa a ser: por que razão se aplica a Deus e não a outras entidades da mesma natureza?
A resposta mais honesta seria assumir a conveniência.
Mas enganam-se os que pensam se tratar apenas de um problema de coerência.
A tese de que só é válido o que é empiricamente verificável, não é ela própria uma tese empiricamente verificável. O empirismo radical é auto-refutante. Façam o seguinte exercício: Que experiência sensorial, que dado observacional, confirma a proposição “só o empiricamente verificável é real”? Nenhuma. É metafísica. E pelos seus próprios critérios, não deveria ser feita.
Os ateus partem de uma premissa que não é validada pelo seu próprio critério de verdade. Assim, esta posição refuta-se a si mesma muito antes de chegar ao debate.
O ateísmo enquanto certeza, enquanto afirmação positiva da inexistência de Deus, tem ainda outro problema adicional, que apenas alguns ateus mais honestos reconhecem aceitando o custo. Para afirmar com certeza que Deus não existe em nenhum lugar, sob nenhuma forma, em nenhuma dimensão possível da realidade, seria necessário um conhecimento total e exaustivo de tudo o que é. Seria necessário o conhecimento total do passado, do presente e do futuro. Tanto quanto sei, nenhum humano tem esse conhecimento.
Quando falamos de ateísmo como certeza, falamos de uma fé. Uma fé invertida, mas ainda assim, fé. E esta fé exige o mesmo que os ateus criticam aos crentes em Deus: um salto além do que a evidência permite. Com uma importante diferença: os crentes em Deus admitem-no e os ateus torcem a narrativa para não admitir o salto.
Este artigo não se propõe a provar a existência de Deus, porque a existência de Deus é uma questão que não se resolve por artigo de opinião, nem por debate de YouTube, nem por navalha de Hitchens. O objectivo era mais modesto e fácil: demonstrar que o ateísmo não se sustenta pelos critérios que os próprios ateus querem impor ao debate.
Não acreditar em Deus é perfeitamente legítimo e nem está aqui em causa. O que coloquei em causa foi a crença ateísta, coberta pela certeza científica que o mercado cultural da modernidade recompensa.
O ateísmo nada conclui e nada prova. É uma identidade que, como qualquer outra identidade abstracta, não passa no seu próprio teste. O que tem a sua piada, porque o lugar onde o ateísmo claramente não existe é exactamente o lugar onde o ateu mais insiste em verificar as coisas: na evidência empírica.