A evolução das democracias liberais, com o desgaste temporal de alguns dos seus pilares essenciais e a necessidade de repensá-los para responder aos desafios do presente e para preparar o futuro, exige líderes políticos responsáveis, com visão e com sentido de compromisso. Infelizmente, não são fáceis de encontrar.

Em Portugal, vivemos de casos políticos, separados por um interlúdio de discussão de alguns dos problemas nacionais, rapidamente concluído pela ausência de vontade de fazer reformas ou pela impossibilidade de concretizá-las, facilmente justificada pela falta de compromisso estratégico com o melhor interesse nacional. Os líderes políticos não têm visão, privilegiam o taticismo político. O bom senso e o compromisso ético necessários ao desempenho de altos cargos públicos são substituídos pela dificuldade em assumir o erro e pela tomada de decisão guiada pela popularidade. Mesmo perante o consenso na crítica e censura a um facto político, sobressai apenas a estratégia partidária e a tomada de decisões guiadas para minimizar o dano nos votos.

Se olharmos para fora, o mundo que conhecíamos desapareceu. A administração Trump desligou o farol de liberdade e democracia dos Estados Unidos da América, pretendendo substituir a “velha” democracia liberal por uma nova “diplomacia transacional”. Tudo isto executado com a puerilidade de quem acha que a responsabilidade e a liderança se resumem a vestir um fato e gravata.  Acredito que este será o estímulo certo para transformar uma Europa anémica num “novo continente” unido na missão de afirmar a democracia liberal, garantir a paz dos seus cidadãos e preservar a proteção social necessária ao resgate da pessoa humana em situação de especial vulnerabilidade.

Esta decadência de verdadeiros líderes políticos alimenta o “populismo do megafone”. Os seus defensores são habitualmente moralistas ungidos pelo divino que dividem o mundo entre a elite corrupta e o povo comum, que apresentam soluções rápidas e simples para problemas estruturais, que cavalgam o ódio e a espuma dos dias para captar votos de desilusão e protesto, que pretendem apenas descredibilizar as próprias instituições em que têm voz. Não nos deixemos enganar pela hipocrisia dos populistas. É fácil de compreender que haja descontentamento e desânimo com os líderes políticos, mas isso não justifica que nos deixemos enganar. Aliás, esse será efetivamente o pior caminho possível, em que um engodo sucede a uma desilusão. Todos queremos e merecemos melhor.

Onde estão as soluções? Não são fáceis de encontrar. Os problemas nacionais graves ao nível da saúde, habitação e economia não são compatíveis com soluções simples. A reorganização política global desafiará instituições históricas, alianças internacionais e velhos aliados. Para encontrarmos as soluções, precisamos de uma nova geração de líderes políticos nacionais, sem o peso das amarras da máquina do poder, que pretendam algo mais para além da gestão da crise política, que inspirem e que pretendam reformar. Precisamos de líderes políticos mundiais que reafirmem sinergias estratégicas, com o compromisso da partilha da responsabilidade da construção do bem comum. A todos se pede sabedoria, iniciativa e ação, não a mera reação aos problemas que surgem e que transportam consigo a miopia que foca os esforços apenas no dia-a-dia e dificulta a visão estratégica de um futuro melhor.

Perante o crepúsculo dos líderes políticos, a democracia liberal é demasiado preciosa para ser engolida por crises políticas oportunistas ou “bullies” vestidos de fato e gravata.