A publicação recente da National Security Strategy dos Estados Unidos confirma aquilo que muitos analistas já intuíram: para Washington, a Europa deixou de ser o centro de gravidade da política externa norte‑americana. A atenção desloca-se, inevitavelmente, para o Indo‑Pacífico, para a competição tecnológica com a China e para a gestão de equilíbrios energéticos no hemisfério ocidental. Para muitos decisores americanos, a Europa de hoje é vista como um continente envelhecido, economicamente estagnado, incapaz de inovar e permanentemente paralisado pelas suas próprias estruturas de governação. Um número crescente de relatórios e think tanks norte‑americanos descreve a UE como uma “regulatory superpower”, mas não no sentido positivo, antes como um bloco que cria normas mais depressa do que cria riqueza e que gasta mais tempo a debater vírgulas legislativas do que a projetar poder.
É neste contexto que se deve interpretar o reacender da confrontação entre Washington e Caracas. O que está a acontecer na Venezuela é, muito provavelmente, uma cedência tática da Rússia, que tem vindo a reduzir o apoio político e operacional ao regime venezuelano. E esta cedência dificilmente é gratuita. Moscovo percebeu que, em troca, poderá ganhar espaço noutros tabuleiros — nomeadamente na Ucrânia. Com isto, os Estados Unidos garantem estabilidade energética no hemisfério ocidental (a Venezuela é uma potência petrolífera), com o tabuleiro global a ser redesenhado sem que a Europa se sente sequer à mesa. Alguém dizia no passado em Portugal que em política o que parece é, e neste caso tudo parece confluir para a “traição” à Ucrânia a que Macron recentemente aludiu.
Este reposicionamento tem ainda outra leitura inevitável, Taiwan, porque a China não vai querer ficar de certeza à margem deste redesenhar de zonas de influência. A lógica da realpolitik é fria e direta: as garantias de segurança não são eternas, são avaliadas permanentemente.
Enquanto isto, a Europa não se limita a estar imóvel, está aprisionada na sua própria teia administrativa. Bruxelas transformou-se num monstro burocrático que consome energia política, mas produz pouco poder estratégico. A Comissão, o Conselho, o Parlamento e as múltiplas agências criaram um ecossistema de regulação que se tornou sinónimo de produção de diretivas, pareceres, relatórios e mecanismos sobrepostos. Entretanto, as indústrias asfixiam, as empresas tecnológicas migram e a inovação desloca-se para outros continentes. Até a defesa europeia permanece fragmentada em 27 sistemas distintos que mal interagem entre si.
Durante anos, acreditou-se que uma Europa a duas velocidades resolveria o problema. Pois não resolveu. A teoria prometia eficiência, mas a prática produziu uma divergência institucionalizada. O veto transformou-se numa arma de chantagem diplomática e a UE passou a ser um espaço onde o bloqueio é mais frequente do que o compromisso. O problema não é estrutural, é estratégico. Falta liderança. Falta coragem política. Falta clareza sobre o papel da Europa no século XXI.
Uma verdadeira refundação da União Europeia exige, por isso, mais do que ajustes técnicos. Implica recentrar prioridades na segurança e na competitividade, substituindo o fetichismo regulatório por capacidade de execução. Exige a criação de um executivo europeu com poderes reais, capaz de planear e implementar políticas de defesa, energia, indústria e tecnologia em escala continental. Requer a eliminação do veto em matérias estruturais e a redução drástica da máquina burocrática que hoje bloqueia mais do que habilita. E implica, inevitavelmente, aceitar que alguns países poderão preferir não integrar este projeto, o que poderá significar uma Europa mais pequena, mas capaz.
Estamos num dos momentos mais críticos da história europeia desde 1957. Os EUA reposicionam-se. A Rússia testa limites. A China avança. E a Europa, esta regulamenta. Se a UE não se reinventar rapidamente como potência geopolítica, tecnológica e militar, tornar-se-á irrelevante num mundo que não espera por quem fica para trás. A refundação da União Europeia não é mais uma ambição, é já uma necessidade existencial, sem a qual vamos ver o mundo europeu em que vivemos implodir a breve trecho.