Num tempo em que o termo “elite” é frequentemente confundido com privilégio imerecido, é urgente restaurar o seu verdadeiro significado. Não se fala aqui em quem nasceu num berço de ouro ou subiu com base numa influência familiar, mas sim de quem, com esforço, inteligência e dedicação, construiu uma reputação sólida no seu campo e agora decide pôr essa experiência ao serviço da causa pública, pessoas que provaram o seu valor antes da política, e não por causa dela. Um país que não protege os seus melhores, e não lhes dá palco, está condenado à mediocridade.
Numa altura em que o descrédito da política alastra e os cidadãos se afastam do debate público, urge reabilitar essa ideia: a de que precisamos das melhores cabeças e das pessoas mais capazes para liderar, e que a política deve ser um terreno fértil para elas, não uma máquina de triturar mérito em nome de fidelidades partidárias.
Durante demasiado tempo, a política foi sequestrada por lógicas de obediência e fidelidade. Os partidos, embora fundamentais na democracia, deixaram-se dominar por dinâmicas internas que desvalorizam o mérito em favor da lealdade. Em muitos casos, ascende quem melhor joga o jogo interno, não quem mais tem a oferecer ao país. Esta realidade afasta cidadãos valiosos, experientes, com reputação sólida noutras áreas, que não estão dispostos a abdicar da sua autonomia e identidade por uma carreira política. E, contudo, são precisamente essas pessoas que mais falta fazem.
Felizmente, há sinais de mudança. Nos últimos anos, vimos surgir figuras que, vindas da sociedade civil, decidiram colocar a sua experiência ao serviço da política, muitas vezes com sucesso. Rui Moreira, Carlos Moedas, António Bagão Félix ou João Cotrim de Figueiredo são apenas alguns exemplos de pessoas que construíram percursos credíveis fora da política e que, quando decidiram entrar nela, trouxeram um olhar fresco, capacidade de gestão, pragmatismo e, sobretudo, independência de espírito. São pessoas que sabem o que é liderar equipas, resolver problemas, prestar contas, equilibrar orçamentos ou inovar, competências tão necessárias na administração pública.
Mas esta tendência precisa de ser aprofundada e protegida. Quando alguém com provas dadas decide entrar na política, esse gesto deve ser visto como um serviço, não como uma ambição pessoal. E deve ser acolhido com exigência, sim, mas também com respeito e incentivo. Um país que repele os seus melhores para manter a fidelidade dos seus medianos não terá futuro. A política não pode continuar a ser um jogo fechado entre iniciados.
Neste contexto, não é irrelevante observar casos locais que espelham este espírito renovador.
Por exemplo, em Cascais, João Maria Jonet, que conhecemos pela independência de espírito das suas posições e por ser possuidor de um discurso jovem e evoluído, candidata-se como independente à câmara municipal, prometendo uma abordagem política diferente.
Já em Beja, o candidato Nuno Ferro representa o perfil de alguém que construiu carreira fora dos corredores partidários, acumulando experiência profissional relevante e credibilidade institucional, antes de se propor contribuir para o desenvolvimento da sua terra.
Não se tratam de nomes impostos por diretórios partidários, mas de cidadãos com conhecimento, rede e vontade de fazer diferente. São apenas exemplos, entre outros que felizmente vão surgindo, do tipo de renovação que faz falta, independentemente das confissões ideológicas de cada um.
Importa, portanto, criar condições para atrair mais gente assim. Pessoas com vocação cívica, com sentido de missão, que não vejam a política como um emprego, mas sim como um período temporário de serviço público. Para isso, o sistema político deve tornar-se mais aberto, mais transparente, mais meritocrático. Devemos repensar a forma como se acede a cargos políticos, como se valoriza a competência e como se limita o carreirismo estéril. Precisamos de resgatar a política como espaço de responsabilidade, e não de sobrevivência.
Valorizar as elites, neste sentido, não é antidemocrático, é uma condição para uma democracia mais qualificada. A promoção de lideranças experientes, íntegras e ligadas à vida real pode ser o melhor antídoto contra o populismo e a desconfiança. Pessoas com provas dadas não prometem o impossível, não agem por impulso nem vivem reféns da propaganda, sendo pelo compromisso, e não pelo mero cálculo político.
Precisamos, por isso, de restaurar a ponte entre mérito e política. Para que os melhores, e não apenas os mais fiéis, possam liderar a mudança de que o país precisa. Porque quando a política repele os competentes, entrega-se aos oportunistas. E disso, já tivemos o suficiente.