O “apagão” de 28 de Abril permanecerá, pelo menos durante algum tempo, na nossa memória individual e colectiva. Sentimos na pele que sem electricidade a nossa comunidade fica, literalmente, em suspenso.
Alguns de nós aproveitaram o momento para invocar a nostalgia de um tempo mais simples, pausado e em contacto com a Natureza.
Mas, quer queiramos quer não, há muito que a nossa sociedade foi profundamente alterada, mecanizada e urbanizada.
As rodas do desenvolvimento industrial começaram literalmente a rodar graças à máquina a vapor alimentada pelo carvão. Seguiu-se a descoberta do petróleo como nova fonte de energia e novos materiais.
Com a corrida ao “ouro negro” formaram-se novas alianças, enriquecimento e oportunidades, mas também novos conflitos, empobrecimento e desigualdades.
Será que aprendemos com a história?
A julgar pelo livro “A Guerra dos Metais Raros”, de Guillaume Pitron, a resposta é francamente negativa.
A obra descreve o lado negro da transição energética e digital que depende dos chamados metais raros.
Desde os nossos telemóveis até aos carros eléctricos, passando pelos nossos computadores, todos estes objectos e meios necessitam de baterias, que por sua vez carecem de elementos como grafite, cobalto, platinóides, tungsténio e outros .
Mas para termos acesso a estes elementos precisamos de uma extensa exploração mineira, que tem consideráveis custos ambientais e económicos.
Acresce a esta complexidade o novo xadrez geopolítico que se está a desenhar liderado actualmente pela China, que é um dos maiores produtores e transformadores destes metais.
Para percebermos como o jogo de forças está a criar novas tensões recordemos a exigência de Trump sobre Zelensky com o chamado acordo das terras raras.
O alerta do jornalista Pitron não pode significar um recuo no objectivo de diminuir a emissão de gases com efeito de estufa que contribui para o aquecimento global. Não podemos ignorar que 2024 foi o ano mais quente no nosso planeta.
Mas as ditas soluções “verdes” têm um reverso da medalha que, paradoxalmente, pode também causar dano à nossa “casa comum”.
Estes riscos nem sempre são perceptíveis pelo grande público através de gráficos, tabelas ou livros.
Para sentirmos a urgência da mudança precisamos de nos ligar emocionalmente aos percursos de vida daqueles que vivem à margem, como salientava o Papa Francisco, e que são explorados pela máquina industrial sedenta de novas fontes de energia.
A sétima arte está repleta de bons filmes que nos ligam a estas histórias concretas. Destaco, por ser mais recente, o filme Assassinos da Lua das Flores de Martin Scorsese. Baseado na obra literária de não ficção homónima de David Grann, a película retrata a brutalidade dos assassinatos de Oklahoma na década de 1920 contra a tribo indígena Osage, após a descoberta de petróleo em terras tribais.
Citando o realizador mexicano Alejandro Iñárritu “ O cinema é um espelho através do qual muitas vezes nos vemos a nós próprios.”