A situação de declínio “torna-se ainda mais preocupante” tendo em conta que há poucos dias [se ] determinou a diminuição do estatuto de proteção do lobo, “colocando em causa décadas de esforços de conservação”
Catarina Grilo, diretora da ANP|WWF

Recentemente, a Associação Natureza Portugal (ANP), que trabalha com a internacional World Wide Fund for Nature (WWF), comentou os resultados do censo nacional (2019-2021) do lobo-ibérico, conforme noticiado pelo Observador.

Primeiro a trajetória:

“O censo mostrou que a área de presença do lobo em Portugal reduziu 20% e o número de alcateias detetadas decresceu 8% para as 58 em duas décadas, encontrando-se principalmente a norte do rio Douro.” O que causa “profunda preocupação” com o declínio do lobo-ibérico em Portugal, que atribuiu aos “escassos e pouco ambiciosos” esforços dos últimos governos para travar a situação.

Estão os lobos a aumentar extraordinariamente por toda a Europa e apenas em Portugal em trajetória inversa? Ou é preciso alguma cautela ao interpretar os dados do último censo (como aliás qualquer censo deste tipo)?

Vejamos:

  • A área lobeira recuou 23%, mas: a grande maioria do recuo foi em área não confirmada (aliás 50% da área calculada há 20 anos estava nesta situação), adicionalmente, a maioria desta área de perda teve o maior esforço de prospeção há 20 anos, e agora neste teve, em sentido contrário, o menor esforço de prospeção;
  • A população (estimada) recuou 13%, mas: ao passo que em 2002/03 a estimativa derivou da literatura, agora a estimativa foi feita a partir de dados reais de estudos nacionais (notem ainda que as diferenças no cálculo de dispersantes, por si só, explica mais de metade (7%) do recuo total);
  • As alcateias recuam 8%, mas: o número de alcateias confirmadas, na verdade, até aumenta de 51 para 56…

Isto é: não há qualquer base sólida nestes resultados para presumir uma tendência mais negativa que não seja uma população, no mínimo, estabilizada nas últimas 3 décadas (desde o censo da última década do século passado).

Depois a política:

Ainda que a população lupina estivesse em recuo, que culpa teria um governo que está há menos de um ano em funções? A culpa de alinhar com a União Europeia (motivada pela morte do Pónei de Úrsula Von der Leyen dizia a mesma associação nas redes sociais, assumindo que a Presidente da Comissão tem mais poder que os antigos faraós do Egipto) na “diminuição do estatuto de proteção do lobo, colocando em causa décadas de esforços de conservação”, dizem…

Mas dizem mal.

Primeiro porque, naturalmente, se uma qualquer espécie melhora bastante, esse estatuto baixa e isso é um bom sinal para a conservação (por exemplo o facto do lince ter baixado no grau de ameaça ilustra o sucesso recente da espécie; se o castor era raríssimo e agora é comum em muitos países, não se espera que se mantivesse como criticamente em perigo, certo?) – talvez não para quem a carreira dependa da ameaça da espécie X… Depois, porque a grande recuperação do Lobo na Europa se deve basicamente ao abandono rural que deixou vastos espaços entregues à natureza e que esta espécie tem aproveitado para se expandir, mesmo quando caçado e/ou controlado.

Todavia isso – matar lobos – não pode ser aceite pelo animalismo. Não é conservação, uma vez que esta se foca nos número da população, não num qualquer individuo. Ou seja, se se matarem num dado local 20 lobos por ano mas a espécie está em crescimento, os resultados para a conservação são ótimos. Já para o animalismo a espécie até pode estar em decréscimo, matar um lobo é que nem pensar.

De resto, que diferença faz a Portugal se na Hungria se matam 100 lobos ou nenhum? Nada. O que pode fazer alguma diferença – não faz, porque está muito longe – é se a população húngara cresce e até “exporta” lobos para fora, ou se diminui.

Mais ainda, no caso português, foi desde logo anunciado que o quadro legal não mudava, pelo que, quanto a isso, podemos ficar descansados, apesar de ser sob esse mesmo quadro que a população tem evoluído nas últimas décadas, numa evolução que não tem agradado.

A ideia generalizada que o lobo vive os dias do fim está, portanto, errada, não batendo a bota com o que é a tendência geral. Por cá, é fácil perceber a existência dos mesmos “motores” que têm melhorado a situação do lobo por todo o continente: o abandono rural e a recuperação da natureza. O crescimento do lobo é disso um sintoma, tal como a proliferação de invasoras ou o problema dos incêndios florestais. Como lidar com estas terras que por séculos foram forçadas a produzir comida para uma população humana faminta e que hoje não têm finalidades definidas é uma questão que nos deve levar a pensar como minimizar problemas e aproveitar oportunidades. Ignorar tudo isto e culpar espantalhos – estradas, eólicas, caça, povoamentos de exóticas, etc. que nuns lados são culpados pela falta de lobos enquanto noutros eles crescem apesar de tudo isso – é rejeitar a realidade e… instrumentalizar os lobos para fazer política. Ao ponto de se sugerir que este censo foi deliberadamente mantido em segredo.