O Education at a Glance 2026 levanta novamente o pano a um dos maiores desafios da educação: precisamos de mais pessoas a escolher a docência. E sem vez de falarmos dos problemas, falássemos do impacto que um professor pode ter?

Não nos entendam mal. A falta de estabilidade, a burocracia, a evolução da carreira e as condições de trabalho são problemas reais que têm de estar no centro da discussão. Mas também precisamos de contar a outra parte da história: ser professor é uma das profissões com maior capacidade de impacto que alguém pode escolher.

Num momento em que a sociedade procura cada vez mais trabalhos com propósito, porque é que estamos a ter dificuldade em atrair pessoas para uma profissão que existe precisamente para transformar vidas?

A falta de professores é frequentemente apresentada como um problema de recrutamento e retenção. E é. Mas é também um problema de valorização.

Precisamos de pensar como tornar a profissão docente uma escolha que as pessoas querem fazer.

Ser professor é poder ser a primeira pessoa a reconhecer um talento escondido, a mostrar a uma família o potencial do seu filho ou a ajudar um aluno a imaginar um futuro que, até então, parecia impossível.

No entanto, os sinais que estamos a dar a quem está neste momento a decidir o seu futuro, contam uma história diferente.

O Education at a Glance 2026 mostra que apenas 39% dos professores portugueses do 3º ciclo estão satisfeitos com as suas condições de emprego, enquanto que na OCDE são 68%.

Quando falamos de condições de trabalho há muito mais a ter em conta do que o salário. Falamos do ambiente profissional, das oportunidades de desenvolvimento, da colaboração com colegas, da relação com as famílias e da valorização por parte da sociedade.

Querem imaginar como poderia ser o dia de um professor?

Imaginemos uma sala de aula com alunos, um professor que acredita neles e lhes diz “eu sei que tu és capaz e estou aqui para te ajudar”. Quando o professor é o primeiro a acreditar que é possível, essa crença vai contagiar todos à sua volta.

No final da aula, esse professor reúne-se com um colega que observou a sua aula e recebe feedback. Falam sobre aquilo que correu bem e sobre aquilo que pode ser melhorado. O professor sente que tem espaço para falar sobre um desafio específico com um aluno. Esta conversa é uma oportunidade de aprendizagem, ao refletir sobre a sua prática diária.

O professor sai dessa conversa com novas estratégias, novas ideias e, sobretudo, com a sensação de que não está sozinho perante a complexidade da sua missão.

Ao longo do dia, continua a preparar as próximas aulas, tendo em conta as necessidades específicas de cada turma e de cada aluno. Mais tarde, reúne-se com Encarregados de Educação para construir uma parceria que permita potenciar as competências dos alunos e aproximar a comunidade da escola.

Isto não é uma utopia, é dar aos professores as condições necessárias para fazerem o que fazem melhor: educar.

Um professor precisa de formação, sim. É indispensável. Mas igualmente importante é o acompanhamento que recebe. Um professor acompanhado é um professor com mais ferramentas para responder aos desafios da profissão, mais confiança para experimentar novas abordagens e mais capacidade para responder às necessidades dos alunos.

A colaboração entre professores é também uma forma de valorização. Quando uma escola tem espaços onde os profissionais podem aprender uns com os outros, está a reconhecer que ensinar é uma profissão que exige conhecimento, reflexão e evolução permanente.

O mesmo acontece na relação com as famílias. Professores e famílias não educam sozinhos. Quando existe uma relação de confiança entre escola e comunidade, o aluno passa a estar no centro de um compromisso conjunto.

Se queremos atrair mais pessoas para a Educação, não podemos falar apenas dos problemas da profissão. Temos de falar daquilo que ela pode oferecer: impacto, propósito e a possibilidade de contribuir diretamente para o futuro de outras pessoas.

E temos de falar sobretudo sobre as condições necessárias para que os professores se possam focar no mais importante: as pessoas que têm à sua frente todos os dias na sala de aula.

Todos os que leem este artigo conseguem pensar num professor que foi significativo nas suas vidas. Há poucas profissões sobre as quais podemos dizer o mesmo.

Por isso, enquanto sociedade, precisamos de garantir que os professores sabem a diferença real que fazem na vida dos seus alunos, na vida de cada um de nós.