“Nem tudo o que parece é”. A frase, tirada do filme A Princesa Cisne, de Richard Rich, ecoa desde a infância.

Um ensinamento que levamos desde tenra idade, cultivado pelos filmes da Disney, mas que apenas percebemos ou interiorizamos décadas mais tarde. E quanto mais o tempo passa, mais nos apercebemos de que, de facto, a realidade raramente corresponde ao que apenas os nossos olhos alcançam.

O meu avô era uma rara exceção a esta regra: o que parecia e o que se via eram reflexo um do outro. Para mim, foi um exemplo mudo – daqueles que nos ensinam sem palavras, só com a presença – e que fica para toda a vida.

Não tive um pai, mas rezam as doutrinas da psicologia infantil que a criança transfere a figura masculina para alguém próximo. Eu transferi para o meu avô, que era mais do que uma figura paterna. Era e é, um exemplo a seguir.

O meu avô, ao contrário das universidades da vida, ensinou-me pelo exemplo, pelas suas ações e pela minha atenta, mas inconsciente observação. Nunca com dissertações ou demasiadas palavras, sempre com gestos. Daí o “mudo”. Não será assim que todos deveríamos aprender?

A minha observação de como o meu avô geria o seu negócio, a forma como lidava com quem para ele trabalhava e com todos à sua volta, era exemplar. Nunca me apercebi de status, de hierarquias sociais, de nenhuma diferença nesta escadaria de posicionamentos que nos é impressa à medida que a nossa mente e o nosso corpo vão, invariavelmente, evoluindo — não necessariamente em qualidade, mas em anos de vida.

Foi, em muito tenra idade, que aprendi que, para sermos respeitados, temos que respeitar tudo e todos por igual, pois todos fazemos parte da engrenagem que faz crescer qualquer organização, e a própria sociedade. O tratamento deve ser empático, constante e previsível, tanto para o empregado de limpeza como para o CEO, sem exceção.

Aprendi que o sucesso vem dessa engrenagem que alicerça o motor, que trabalha bem por ter escolhido e cuidado de todas as suas peças com dedicação, respeito e paixão por ver a máquina a funcionar no seu apogeu. Até num jogo de xadrez, uma movimentação da peça aparentemente mais insignificante pode deitar o jogo a perder. As peças nada mais são do que uma metáfora para pessoas, e a máquina ou o jogo, uma alegoria para a vida.

Recordo-me como se fosse hoje do dia em que o meu avô nos levou ao Algarve para escolher um apartamento. Tinha-o adquirido em fase de construção e levou-nos — a mim, à minha irmã, à minha mãe e, claro, à minha avó — para o vermos já com o brio de “a estrear”, e escolher aquele em que os nossos corpos e olhos se confortassem mais. Para uns, talvez soasse a vaidade, uma montra de luxo – para mim, foi partilha em estado puro. Este gesto demonstrou que nada é importante se não for partilhado.  Nada sabe ao mesmo ao mesmo sem as nossas pessoas.  A família — a de sangue ou a que escolhemos — é o nosso mais precioso pilar. Nada tem o mesmo gosto sem ela.

Também me recordo das noites em que aprendíamos matemática de uma forma muito peculiar: a contar dinheiro vivo. Como o Tio Patinhas, numa versão infantil, ou como os Peaky Blinders, numa adaptação livre e um tanto teatral da realidade, mas atual. O responsável por cada uma das peças do motor deslocava-se à nossa casa de férias para entregar ao meu avô, em simples envelopes, a quantia faturada do dia. Nessas noites, em que o meu avô era o Rei, a minha irmã, a Rainha, e eu, a Princesa, aprendi que devemos e podemos confiar nas pessoas que para nós trabalham, mas nunca cegamente. Pois, como vimos no início, raramente o que parece é.

Auditar o trabalho de todas as peças, independentemente das ligações de confiança e emocionais, é crucial no trabalho de um CEO.

O meu avô adorava viver. Tinha paixão pela vida, e a vida apaixonou-se por ele também. Será este um dos segredos de um Negócio bem-sucedido e de uma vida feliz? A vida apaixonar-se por nós?

Até aos dias de hoje, continuo sem compreender completamente porque não chorei quando ele partiu. Culpava-me brutalmente por isso e questionava-me muito. Hoje, penso que a razão se deve a ter-me habituado muito cedo à perda e ao abandono. A perda era-me tão familiar que, se a chorasse, a tornaria real e mais dolorosa.

Nos meus sonhos, ele continua vivo, cheio de saúde, numa esplanada em Paris a fumar um cigarro. Ou num sono eterno intercalado por uns dias connosco, para depois voltar a morrer. Talvez já não seja ele que apareça nos meus sonhos, mas sim o legado imaterial que ele me deixou e que me visita, quando necessito.

Eu era uma criança quando me apercebi de que, para além de CEO, o meu avô era um banco — e que controlava muito através da dependência financeira. Não porque o quisesse fazer, mas porque assim o era. Nem sempre sermos as melhores pessoas nos afasta das piores circunstâncias. Há purezas que só o silêncio reconhece – e que muitos tentam, invariavelmente, corromper.

Seria ele a cola que unia a família, pelos seus valores e bondade, ou pela vida abastada que o dinheiro providenciava? A mim, uniu-me a ele eternamente pelo “ser”. Talvez as grandes famílias, assim como as grandes empresas, precisem de uma pessoa única que as consiga colar da maneira correta a um propósito de vida.

Acredito que existe uma bondade imatura nas crianças, tão doce que se torna impossível de ser eterna. A Natureza ensina-nos isso: todas as frutas têm apenas uma pequena janela temporal para serem doces. Aceito, portanto, que a grande maioria das pessoas é corrompida em adulta, ou até antes de o ser, e que os interesses supérfluos ultrapassam, em larga escala, o amor na sua forma mais simples: querer cuidar respeitando.

Ser adulto é quase sempre, ser corrompível. E é isso que distingue um verdadeiro CEO: foi a criança que não se deixou corromper.