“Liberalismo, A ideia que mudou o mundo”,
de Carlos Guimarães Pinto,

“O Apelo da Tribo”,
de Mario Vargas Llosa.

Há livros que se lêem como quem regressa a casa depois de anos de ausência, os móveis exactamente onde os deixámos, o cheiro do armário onde a mãe guardava os lençóis ainda vivos a cheirar a lavado no fundo das narinas, e a cozinha com aquela luz de fim de tarde que já não existe, e há livros que se lêem como quem percorre o hospital onde está internado o irmão mais velho, o que nunca chorou, o que não nos dizia que gostava de nós, mas ficava a pé connosco quando tínhamos febre, agora deitado com a pele de papel, os olhos voltados para dentro e o soro a gotejar devagar como se quisesse dar tempo à memória para acabar de rebobinar.

O livro do Vargas Llosa é isso. Um corredor com cheiro a desinfectante. Um homem idoso a tentar contar aos filhos porque é que fez as escolhas que fez. A explicar-lhes que foi comunista como quem é crente, que acreditou porque queria acreditar, porque o mundo era injusto e ele tinha vinte anos e lia Sartre com os olhos do Peru e do exílio, com a raiva calada de quem não teve país. E que, depois, um dia, percebeu. Como se percebe que o pai afinal também mentia. Que o sonho de justiça era um pesadelo de silêncio. Que os que vinham libertar os pobres usavam os mesmos porretes dos que os oprimiam antes. O Apelo da Tribo é isso: um acerto de contas com a juventude. Um pedido de desculpa que se disfarça de ensaio. Cada pensador invocado, Adam Smith, José Ortega y Gasset, Friedrich Hayek, Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin e Jean-François Revel, é uma espécie de vela acesa por um defunto com que se quer fazer as pazes.

Mas tudo isso, embora belamente escrito, soa longe. Distante. Como um velho muito bem vestido que nos conta, com uma voz pausada, as desilusões de Paris nos anos 70, enquanto segura um copo de vinho branco e olha para o mar com saudades de uma esquerda que nunca existiu.

Carlos Guimarães Pinto também homenageia, também refere, também cita, mas não tem saudades nenhumas. Nem de Paris, nem da esquerda, nem sequer do país. Tem raiva. Raiva mansa. Raiva fria. Daquela que se cultiva devagar em quem teve de pagar impostos a mais, preencher formulários absurdos, esperar horas para tratar da vida, ouvir ministros com voz de criança dizerem que o Estado é a casa de todos quando a casa está ocupada pelos amigos do costume. O seu livro não é uma evocação. É um grito contido. Uma tentativa de dizer “basta” com um ar civilizado. Escreve como quem tenta salvar um afogado puxando-o pelo colarinho do casaco: com firmeza, sem cerimónias, e a rezar para que não o puxem também para o fundo.

Há quem diga que o liberalismo é uma filosofia. Vargas Llosa mostra que sim. Cita. Elabora. Rende homenagem. O liberalismo, no seu livro, é um corpo de pensamento com genealogia, com sala de estar, com retratos de família nas paredes. Um universo habitado por homens que se sentaram em bibliotecas, beberam chá e discutiram os limites do poder com a gravidade de quem pensa para a História.

Mas Guimarães Pinto sabe que em Portugal não há chá. Há bicas mal tiradas. Há pastéis de nata a 1,80 €. Há senhas. Há filas. Há “não está cá o chefe, volte amanhã”. E o liberalismo, aqui, não é uma escola de pensamento. É um grito de socorro. Um pedido de alívio. Um bilhete escrito à pressa e deixado debaixo da porta: “por favor, deixem-me viver”. Não há Hayek, nem Popper, nem Aron. Há contribuintes. Há recibos. Há fregueses. O seu liberalismo não tem biblioteca, tem balcão de finanças.

E essa é a grande diferença. Vargas Llosa olha para o liberalismo como quem olha para uma tapeçaria antiga, explicando os bordados, apontando as costuras, dizendo “vejam aqui como é bela esta ideia”. Guimarães Pinto olha para o liberalismo como quem olha para uma bóia num mar de lama. Não há tempo para estética. O país afunda-se. O Estado come tudo. A economia não cresce. Os salários são baixos. A escola ensina pouco. E todos parecem satisfeitos, desde que o vizinho esteja ainda pior.

Vargas Llosa escreve para a posteridade. Guimarães Pinto escreve para terça-feira. Um escreve como quem deixa um legado. O outro como quem escreve um recado na mesa do café para quem vier depois dele.

Mas talvez, por isso mesmo, o segundo seja mais importante agora.

Porque estamos num país onde os livros já não são lidos, onde a política é uma novela com intervalos de insulto, onde os partidos são agências de emprego e os cidadãos são clientes com número de contribuinte. E num país assim, o que se precisa não é de erudição, nem de bibliografia. É de alguém que diga, com clareza, que isto não está bem. Que não é preciso um plano quinquenal para deixar as pessoas em paz. Que a liberdade não se defende com “slogans”, mas com limites, aos políticos, aos burocratas, ao Leviatã anafado que nos promete tudo e não nos dá nada.

Vargas Llosa quis salvar o pensamento liberal da irrelevância. Guimarães Pinto quis salvar Portugal da indigência. Vargas Llosa escreve com saudade. Guimarães Pinto escreve com urgência. Um invoca os mortos. O outro tenta impedir que enterrem os vivos.

E por isso, neste tempo, com este país, com estes governos, com estas oposições, com estas televisões, com esta preguiça, com esta resignação, com este fado, com esta saudade, com esta amargura, talvez seja melhor lermos o segundo.

Pelo menos para não termos de dizer, daqui a uns anos, que não houve quem avisasse.