No passado dia 12 de Janeiro, ocorreu o cinquentenário do falecimento de Agatha Christie. É no seu primeiro romance, O misterioso caso de Styles, publicado em 1920, que se estreia Hercule Poirot, o meticuloso detective belga que, com a ajuda do inseparável Capitão Hastings, consegue sempre resolver os mais difíceis casos policiais.

É impressionante a obra desta autora britânica que, embora nascida Miller, usou, como escritora, o apelido do seu primeiro marido, o Coronel Archibald Christie, mesmo depois de se divorciarem e de ela casar novamente, desta feita com Sir Max Mallowan. Foi Dama do Império Britânico e escreveu, entre outros textos, 66 romances policiais, 15 volumes de contos, 6 outras novelas, para além de uma obra de teatro, A Ratoeira, que esteve em cena, em Londres, de 1952 até 2020.

Depois de ler os livros de Enid Blyton – primeiro, o infantil Noddy, seguido pelas aventuras juvenis de Os sete e, depois, de Os cinco – muito disfrutei com os policiais de Agatha Christie, ou a Gata Triste, como dizia um meu irmão mais novo, então incapaz de dizer correctamente o seu nome. Procurava adivinhar o desfecho dos casos, mas sem cair na armadilha de seguir o raciocínio irremediavelmente errado do Capitão Hastings, que cumpria a missão de nos distrair da verdadeira solução, que, como é óbvio, só Poirot lograva descobrir, num golpe de génio teatral, sobretudo quando convocava os intervenientes para uma sessão final, na qual desvendava o crime de forma surpreendente.

Enid Blyton já nos tinha ensinado que o chá se toma às cinco em ponto, acompanhado de scones, mas, com Agatha Christie, o requinte atingiu um novo patamar, pois, mesmo numa casa senhorial ensombrada por um crime, o jantar era servido, pontualmente, por criados fardados, comparecendo as damas com vestidos de noite e os cavalheiros com os smokings da praxe. O café era tomado depois, na biblioteca, onde os homens se juntavam para fumar, enquanto as senhoras se retiravam para uma sala cuja lareira já estava acesa. Recriava-se, assim, o refinado ambiente de uma sociedade remotamente vitoriana.

Talvez hoje já não olhasse de forma tão indulgente para essa sociedade fútil, porque as pessoas que viviam instaladas nesse conforto, quase luxuoso, pareciam insensíveis ao sofrimento e penúria dos seus semelhantes. Por outro lado, nos bastidores de uma aparência perfeita, que alguns, por pudor, diriam apenas decente, ocultavam-se não poucos dramas, como infidelidades conjugais, suicídios, vícios ocultos e, até, crimes. A sociedade vitoriana foi, talvez, o expoente máximo dessa hipocrisia social: o importante não era ser, mas parecer, e, por isso, só o escândalo era socialmente vergonhoso.

E Poirot? Curiosamente, o herói de Agatha Christie é belga e, por vezes, bastante irritante, sobretudo quando manifesta a sua obsessão pela ordem e pelo método. Hercule, um inveterado solteirão, a quem não se conhecem paixões amorosas, exerce como detective privado, mas não é indiferente à felicidade dos seres com quem se cruza. Por isso, por vezes os dramáticos mistérios policiais que resolve, com extraordinária argúcia, terminam com o happy end que uma novela romântica não desdenharia. Bons tempos esses em que os maus eram os criminosos e os bons eram mesmo bons.

Embora Agatha Christie, dada a típica reserva inglesa, seja muito discreta no que respeita à religião católica de Hercule Poirot, no famoso Crime no Expresso do Oriente revela as perplexidades da consciência do detective. Nesse caso, Poirot descobre que a vítima do crime é um assassino norte-americano que, apesar de ter sequestrado e morto a pequenina filha de um célebre aviador, tinha permanecido impune. Também percebe que o crime foi, portanto, um ajuste de contas, em que participaram muitos dos que estavam relacionados com essa criança e que, desse modo, pretenderam fazer justiça pelas suas próprias mãos. Para Poirot, o dilema moral é claro: se revelasse às autoridades a verdade, os familiares e amigos da vítima seriam incriminados pela sua participação nessa execução; se o não fizesse e aceitasse a versão oficial – a de que um intruso, aproveitando uma paragem do comboio, nele tinha entrado, assassinado o gangster e depois fugido – nenhum dos ‘justiceiros’ seria incriminado. Mas, o detective belga podia ser cúmplice dos vingadores, sabendo que a ninguém se permite uma tal retaliação?! Perplexo ante a situação, Poirot reza o terço e opta por aceitar a versão oficial, para não incriminar os verdadeiros executantes do crime, cuja boa-fé era patente, não obstante o heterodoxo modo de fazer justiça. Deste modo, talvez Agatha Christie quisesse insinuar que a aplicação do direito não exclui a misericórdia, nem a caridade e que, por isso, algumas vezes, por via de excepção, pode ser justo não se cingir ao que é meramente legal.

A literatura policial não é, em termos culturais, de pouca monta, porque transmite cultura e ensina a pensar com lógica, ou seja, como diria Poirot, com ordem e método. É significativo que outro detective, da autoria de G. K. Chesterton, o Padre Brown, igualmente católico, desmascare um criminoso disfarçado de sacerdote, porque este não crê na razão, sem a qual não há ciência. A teologia é ciência e, portanto, um céptico não pode ser, na acertada lógica do Padre Brown, um presbítero católico.

Todos os romances policiais obedecem a um princípio fundamental: o de que a cada crime corresponde, necessariamente, um criminoso. Refugiar-se no acaso relevaria irracionalidade, ou preconceito. É a certeza de que nada acontece sem uma causa que está na origem do romance policial, mas também da ciência e da teologia. São Tomás de Aquino e Einstein chegaram à existência de Deus, como muitos outros teólogos e cientistas, seguindo, afinal, o mesmo método de Hercule Poirot, ou do Padre Brown. A negação da existência de Deus ofende, mais do que a fé, a razão e, por isso, como afirma São Paulo, é inexcusável (Rm 1, 18-20).

Apesar da criminalidade, mesmo fictícia, ser obviamente desagradável, Agatha Christie introduzia sempre nos seus romances policiais uma nota de bom humor. Também na sua vida, pois, ao casar pela segunda vez, fê-lo com um arqueólogo, cuja profissão é a ideal para quem é cônjuge de uma pessoa já entrada em anos. Com efeito, como dizia com graça, quanto mais idade ela tinha, maior era o interesse do marido!