Há crianças a correr entre prédios bombardeados, a tropeçar em cadáveres. Há bebés a nascer em abrigos subterrâneos. E o Ocidente?
Discute filtros. Discute se deve dizer “guerra” ou “conflito armado” — como se trocar palavras mudasse o cheiro a sangue.
Estou farto. Farto do teatro da empatia. Farto do scroll eterno da indiferença. Farto de ver a tragédia transformada em estética.
Não me venham com o “não podemos fazer nada”. Podemos. Começa por não virar a cara. Começa por chamar as coisas pelos nomes. Começa por dizer: isto é desumano. Isto é criminoso. Isto está a acontecer agora.
E podia ser eu. Essa frase devia queimar-nos na pele. Podia ser eu. Podia ser eu a fugir com um irmão ao colo. Podia ser a minha mãe a gritar sozinha no meio de escombros. Podia ser a minha escola a desaparecer num segundo.
Mas não é. Tive sorte. E não vou desperdiçar essa sorte em silêncio.
Porque a pior cobardia do nosso tempo não é a violência. É a normalização da violência.
Assistimos a tudo com cara de paisagem: mais uma guerra, mais um genocídio, mais uma criança sem rosto a morrer com dignidade zero — e o mundo suspira, partilha, comenta, e… esquece. Vinte e quatro horas depois, já passou. Fala-se da nova série, da nova trend, da nova polémica idiota.
Isto não é distração. É anestesia. E eu não quero viver anestesiado.
Eu não quero ser só mais um rapaz que olhou e passou. Que fez de conta que não era com ele. Que se indignou só quando deu jeito. Que falou só quando era seguro. Que teve paz — mas foi inútil.
Há um milhão de formas de ser cúmplice. O silêncio é a mais confortável delas todas.
E não me interessa ser “politicamente equilibrado” quando há miúdos da minha idade a serem enterrados em valas comuns. Quando há mães a vender os próprios sapatos para comprar uma garrafa de água. Quando há raparigas a trocarem o corpo por um visto.
Se isto não te revolta, não precisas de mais notícias. Precisas de alma.
Podem dizer que sou novo. Que isto é idealismo. Que o mundo “sempre foi assim”.
Pois que seja. Mas recuso aceitar. Porque se o mundo sempre foi assim, está na hora de deixarmos de ser “sempre os mesmos”. E se não pudermos mudar tudo — então que mudemos alguma coisa. Nem que seja o olhar. Nem que seja o silêncio.