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Mas será que tanta readaptação fará desta década a mais potencializadora do uso da tecnologia? Será que este boom veio abrir novos caminhos e criar novas necessidades ou será apenas um estímulo para as marcas se sentirem (ainda mais) próximas dos seus clientes? Eis a questão!

Há duas décadas atrás, a tecnologia era vista como que complicada e um bicho de sete cabeças. Hoje, é precisamente o contrário. Tornou-se banalizada e uma ferramenta indispensável para descomplicar. É certo e sabido que, como consumidores que somos, estamos cansados de sermos bombardeados com tanta informação diária. Se falarmos no digital, somos atraídos por informação que nos induz constantemente à compra: banners, pop ups, cookies. Ao ouvirmos a nossa playlist no Spotify, relembram-nos constantemente as vantagens da subscrição. Já no espaço físico, quando vamos ao supermercado, há ilhas de produtos, há aromas que promovem o impulso da compra, há promotores que nos oferecem degustações e há todo um conjunto de sinalética feita propositadamente para chamar a nossa atenção. Tudo isto com um simples objetivo: vender ao proporcionar uma verdadeira experiência ao consumidor.

Percebemos que ao longo dos últimos 10 anos, as marcas seguem as ondas, as modas, as tendências e, através do acesso a estudos muito concretos, analisam as necessidades da sociedade e lançam produtos e/ou serviços que vão de encontro àquilo que queremos enquanto consumidores ativos que somos. E, na verdade, isto é marketing. Nesta nova era, criou-se um paradigma entre o produto e o seu benefício. Assistimos agora à importância que os consumidores dão à história que é contada sobre o produto mais do que ao benefício do próprio. E isto não é novo. Já em 1990, o célebre autor Seth Godin dizia: “Marketing is no longer about the stuff you make, but about the stories you tell.”

Mas de facto, o que é que acelerou? Acelerou tudo. Acelerou a forma de pensar, a forma de estar, a forma de nos relacionarmos uns com os outros, os modelos de apresentação, tudo se tornou mais próximo e simultaneamente mais distante. Privilegiamos mais a rapidez de resposta, estamos mais suscetíveis à mudança e preparados para novos cenários. Estamos mais conscientes de que as marcas têm como foco a relação com o cliente e que estão seguramente mais ágeis na forma como chegam até nós, mais inovadoras no modo como o fazem e mais comprometidas com aquilo que é o objetivo comum da marca em satisfazer as necessidades que criaram, ou não, no cliente.

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E o que é que veio para ficar? Antes de tudo isto, éramos muito mais relutantes à “mudança” e à readaptação, por isso, é importante estarmos cientes de que o momento que atravessamos agora acelerou e contribuiu para aquilo que será a economia de consumo dos próximos anos. Para já, num contexto geral, assistimos a profundas transformações.

Muitas empresas trocaram permanentemente o espaço físico pelo virtual, dando assim lugar à nova tendência de teletrabalho. O home office trouxe benefícios em termos de produtividade e medidas de proteção relacionadas com a saúde e a segurança, mas certamente que num futuro próximo a opção será o escritório híbrido em que existirá uma combinação do virtual com o presencial associado à experiência do trabalhador. Por isso, o futuro sorri para os espaços de coworking! Esta nova visão traz também consigo o interesse pela descentralização da população para fora dos grandes centros urbanos, o investimento em formação digital, assim como a flexibilidade inerente a esta nova forma de trabalho pouco tradicional.

Já o e-commerce, segundo o DNS.pt, teve o maior aumento dos últimos 18 anos e um crescimento de mercado em Portugal que ronda os 60% face a 2019. Este aumento está logicamente associado à pandemia que convidou a que novos utilizadores, até mesmo os mais céticos, se tornassem amantes desta forma de comprar. Crê-se que os próximos passos serão na lógica da integração de novos canais de venda – como as redes sociais, como forma de promover os seus produtos e captar clientes.

A casa ganhou o maior destaque de sempre com a tendência do “encapsulamento”. Passamos a viver e a privilegiar mais o nosso espaço porque, na verdade, temos mais tempo para o gozar. Apostamos nas pinturas, na decoração e na jardinagem, voltamos à cozinha para fazer o pão e organizarmos aquilo que há muito não tínhamos tempo para organizar. É aqui que entra também o streaming que, forçado ou não, trouxe consigo novos hábitos de entretenimento em massa, fazendo crescer durante este período as vendas da tecnologia em cerca de 50%, levando consequentemente ao aumento dos preços – a famosa lei da oferta e da procura.

Já o “Eu” assumiu especial enfoque durante a pandemia, quer na categoria de autocuidado e bem-estar quer na produção de conteúdo próprio. O consumo consciente e responsável está agora no centro das atenções, muito alinhado com objetivos da ONU para o desenvolvimento sustentável.

Podemos dizer que caminhamos, cada vez mais, de mãos dadas com a tecnologia e com a inovação, mas paradoxalmente estamos também mais sensíveis à socialização. Privilegiamos a conectividade e o compartilhamento, mas também a proximidade com a família, os amigos e a slow food. Privilegiamos a acessibilidade e a imersão tecnológica, mas também a preocupação com causas sociais e humanitárias.

A lição que devemos tirar de tudo isto é que juntos fazemos a diferença e somos inevitavelmente mais fortes. Já de si, somos um povo que se adapta, que reage e que não cruza os braços, mas mais do que nunca podemos e devemos criar um mundo melhor, verdadeiramente melhor, considerando o consumidor como parte integrante da estratégia e assente numa relação de confiança. O segredo está na reinvenção e no equilíbrio das coisas. Isto sim, será o caminho de todos.

Diana Cunha tem 28 anos e é natural do Porto. Apaixonada por comunicação, alimentação saudável, animais, viagens e natureza, é licenciada em Ciências da Comunicação e da Cultura, vertente do Marketing, pela Universidade Lusófona do Porto, e está a tirar o mestrado de Gestão de Marketing no IPAM Porto. Iniciou o seu percurso profissional na área do ensino, nomeadamente no departamento de Marketing e Comunicação do ISAG – European Business School, exercendo, desde 2017, funções na área da gestão de eventos no Centro de Congressos da Alfândega do Porto. Enquanto profissional, considera-se uma pessoa focada, criativa e empática e assume o seu entusiasmo pela vida e pelo “fazer acontecer”. Gosta de pensar fora da caixa e tem uma visão muito para além do marketing. Extremamente dedicada e orientada para o detalhe, nunca deixa nada ao acaso. É caso para dizer, que é pau para toda a obra e farinha para toda a colher!

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõem o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.