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Numa das suas poucas afirmações que estão certas, Marx declarou que a história tende a repetir-se, primeiro como tragédia, depois como farsa. Curiosamente, é também uma das raras citações de Marx que não está na origem de alguns milhões de mortos. Deve ser acaso.

Desta feita, a recorrência deu-se a propósito da nomeação de Rita Rato para dirigir o Museu do Aljube. Mais de 40 anos depois do 25 de Abril, o Estado volta a mandar injustamente um comunista para o Aljube. A diferença é gramatical, só muda o advérbio: em vez de “dentro” do Aljube, agora é “à frente” do Aljube.

Como, neste momento, Portugal se pode dar ao luxo de não enfrentar problemas graves, o tema deu para uma semana de polémica. Rita Rato é ex-deputada e militante do PCP e isso basta para charivari político. Parece que Rita Rato não tem as qualificações necessárias para dirigir um museu. O que é estranho, uma vez que Rita Rato é mulher e eu sempre achei que dirigir um museu é, sobretudo, dispor objectos por salas. Ou seja, decorar. Mas, segundo me dizem, é um bocadinho mais do que isso, de maneira que não chega ter bom gosto para combinar cores, são necessárias algumas habilitações que Rita Rato, ao que dizem, não possui.

Mesmo assim, num país que já merece um Museu dos Tachos, um país em que Armando Vara foi nomeado para a Administração da CGD com a justificação de que percebia de Banca por ter sido funcionário do balcão da Caixa em Mogadouro (para apenas referir o caso mais emblemático de entre as centenas de políticos do PSD, PS e CDS que ocupam lugares em administrações de empresa apenas por terem ritmo cardíaco, actividade cerebral e um motorista que os leva às reuniões), é preciso querer embirrar com o PCP para pegar neste tema. Por mim, tudo bem.

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Detractores da nomeação dizem que Rita Rato só foi escolhida por ser do PCP. Defensores da nomeação dizem que Rita Rato foi escolhida justamente por ser do PCP. Parece que o facto de pertencer à mesma agremiação de pessoas que estiveram presas no Aljube lhe atribui, por osmose, conhecimento e capacidade. É mais ou menos o mesmo que eu, por ter um fígado e ser consócio do Dr. Eduardo Barroso no Sporting, estar capacitado para dirigir a Unidade de Transplantes Renais do Curry Cabral e de até poder tentar a minha sorte com o bisturi.

A razão pela qual ser do PCP habilita alguém para dirigir o Aljube não é esta, é outra. Em 2020, um militante comunista é aquilo que na paleontologia se designa de “fóssil vivo”. Segundo a Wikipédia: “Fóssil vivo é uma expressão utilizada informalmente para qualificar organismos de grupos biológicos atuais que são morfologicamente muito similares a organismos dos quais há conhecimento no registo fóssil. Frequentemente, os “fósseis vivos” pertencem a grupos biológicos que no passado geológico da Terra foram muito mais abundantes e diversificados que atualmente”. Ou seja, entre a múmia de Lenine e Rita Rato, as diferenças são de pormenor. Rita Rato trata-se, portanto, de um interessante exemplar que podia estar na colecção do Museu de História Natural. E é uma óptima ideia, pôr peças de museu à frente das instituições. Depois de Rita Rato a mandar no Aljube, talvez se possa colocar a Custódia de Belém a dirigir o MAAT, ou o Cromeleque dos Almendres à frente de Serralves.

Houve quem quisesse dizer que ser comunista não teve nada que ver com a escolha. Que Rita Rato participou num normal processo de recrutamento e que é injusto acusar a EGEAC de a ter nomeado apenas por ser do PCP, uma vez que Rita Rato, e cito, “até tem um projecto”.  A sério? É óbvio que tem um projecto. Quando é que um membro do PCP faz alguma coisa sem ser orientado por um projecto, um plano, ou um programa, que lhe foi entregue pelo Comité Central? Dizer que um militante do PCP tem um projecto é a mesma coisa que dizer que um gordo tem fome. O que é uma coincidência gira, porque a maior parte dos projectos comunistas costumam acabar com gordos, e não só, a passarem fome.

Mas o argumento mais interessante que ouvi é o de que Rita Rato não deve ser impedida de dirigir o Museu por ser do PCP, mas sim por, há dez anos, ter dado uma entrevista em que disse desconhecer a existência do Gulag. Ou seja, Rita Rato não deve ser prejudicada por ser do PCP, mas deve ser prejudicada por ser do PCP. É isso, não é? É que não se pode ser do PCP ao mesmo tempo que se reconhece o Gulag. São mutuamente exclusivas. Só há um tipo de comunistas que reconhecem o Gulag ou quaisquer outras das atrocidades do género. São os ex-comunistas.

Não é que eles não saibam que existiram. Sabem, claro. Alguns até apreciam. Não podem é reconhecê-lo publicamente. O que sucede é que, quando deu essa entrevista, Rita Rato ainda era uma inexperiente deputada comunista. Sabia o que fora o Gulag e sabia que não o podia dizer. Só não sabia ainda a forma correcta de o não dizer. Lá está, o seu controlador ainda não lhe tinha entregado o projecto com as repostas-padrão a dar neste tipo de situações. É o guião que permite aos membros do PCP saírem airosamente de questões sobre crimes soviéticos, crimes do maoismo, crimes do chavismo, crimes do castrismo, crimes na Europa de Leste, enfim, crimes dos regimes comunistas em geral.

Experimentem perguntar agora a Rita Rato o que ela pensa do Gulag. Passada uma década, aposto que a resposta vai ser diferente. Vai continuar a não reconhecer o Gulag, claro. Mas vai não reconhecê-lo de forma diferente. Uma forma menos absurda, mais aceitável. Uma forma adequada a uma senhora directora de um museu de uma prisão política.