A Europa encontra-se perante uma encruzilhada decisiva. As metas climáticas da União Europeia, consagradas no Pacto Ecológico Europeu, visam não apenas uma redução drástica das emissões de gases com efeito de estufa, mas a ambiciosa neutralidade carbónica até 2050 e, mais ousadamente, a possibilidade de alcançar emissões líquidas negativas. Mas será essa transição possível sem recorrer a todas as opções tecnológicas e naturais disponíveis? A resposta que emerge com força crescente, e agora sustentada por um estudo rigoroso de investigadores suecos e alemães, é clara: sem biomassa, os custos aumentam drasticamente e os objetivos tornam-se, na prática, inalcançáveis.
Biomassa: o elo esquecido ou o trunfo estratégico?
Frequentemente discutida com reservas, a biomassa tem sido alvo de controvérsias que, muitas vezes, obscurecem o seu real valor estratégico. É tempo de recentrar o debate. O estudo publicado na revista Nature Energy, liderado por Markus Millinger, revela que excluir a biomassa dos cenários energéticos europeus pode aumentar os custos da transição em até 20%, o que representa um acréscimo de 169 mil milhões de euros por ano. Este impacto é equiparável ao de excluir a energia eólica, um dado que, por si só, deve reconfigurar a narrativa dominante.
Mais do que uma fonte de energia renovável, a biomassa, segundo este estudo, revela o seu valor essencial no conteúdo de carbono que permite a captura e armazenamento de carbono (CCS). Ou seja, estamos a falar de um recurso que pode remover CO₂ da atmosfera, o que é absolutamente crucial para cenários de emissões negativas, uma necessidade em setores onde a descarbonização total é, por agora, tecnologicamente impossível, como a aviação e o transporte marítimo.
Uma perspetiva holística e intersectorial
A sofisticação do estudo sueco-alemão reside na sua abordagem sistémica. Utilizando um modelo energético acoplado a múltiplos setores, os investigadores analisaram os efeitos de manter, reduzir ou excluir a biomassa em cenários de emissões líquidas nulas e negativas. O resultado é claro: a biomassa não é intercambiável com outras fontes renováveis, ela tem funções únicas, especialmente na indústria e nos transportes, mas também na produção de combustíveis sustentáveis e produtos químicos. Adicionalmente, a modelação mostra que a biomassa será usada sobretudo para fornecer serviços não elétricos, com a eletricidade assegurada maioritariamente por solar (40%) e eólica (54%).
Importa frisar que a biomassa modelada no estudo é proveniente sobretudo de resíduos florestais e agrícolas, o que reforça a sua sustentabilidade e o princípio de circularidade, pilares basilares da transição justa e ecológica que a Europa ambiciona.
E se ignorarmos a biomassa? A fatura climática e social
Ignorar o papel da biomassa pode sair caro, tanto do ponto de vista económico como político. Os custos adicionais de centenas de milhar de milhões de euros por ano terão de ser suportados por alguém: empresas, Estados ou cidadãos. E mais: a exclusão de uma ferramenta estratégica como a biomassa pode comprometer a própria viabilidade das metas climáticas, prejudicando a credibilidade das políticas climáticas da UE.
Mas o risco não é apenas técnico ou económico. É também social e geopolítico. Muitos territórios rurais da Europa, incluindo Portugal, têm potencial significativo para a produção sustentável de biomassa. Ignorar esta oportunidade significa desperdiçar potencial de emprego verde, valorização de resíduos, dinamização das economias locais e autonomia energética. Além disso, a biomassa pode desempenhar um papel estratégico nos corredores de neutralidade carbónica, onde se articulam conservação da biodiversidade, agricultura regenerativa e florestas geridas de forma sustentável.
O que dizem as instituições internacionais?
Tanto a Agência Internacional de Energia (IEA) como o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) e a Agência Europeia do Ambiente (EEA) são unânimes em reconhecer a importância da biomassa moderna, especialmente quando associada a tecnologias como a captura de carbono (BECCS).
A IEA destaca que a bioenergia é hoje a maior fonte renovável do mundo e projeta um crescimento robusto até 2050. O IPCC vai mais longe ao considerar a BECCS como “inevitável” para alcançar emissões líquidas nulas. Já a EEA alerta para a necessidade de uma governação responsável, baseada em critérios de sustentabilidade rigorosos e na priorização de usos, uma abordagem que deve evitar conflitos entre energia, alimentação e biodiversidade.
Da hesitação política à urgência climática
Num momento em que a Europa debate o seu futuro energético, urge romper com tabus e reconhecer que a biomassa pode, e deve, ter um papel estruturante numa transição que se quer justa, eficaz e financeiramente viável. Não se trata de substituir outras fontes de energia renovável, mas de complementar e integrar soluções com base em evidências científicas e numa visão de longo prazo.
É tempo de abandonar dicotomias simplistas e de construir uma bioeconomia circular, estratégica e europeia, assente na valorização de recursos locais, na inovação tecnológica e na justiça intergeracional. A biomassa, bem regulada e inteligentemente utilizada, pode ser um pilar dessa nova arquitetura climática. Recusá-la seria mais do que um erro: seria um luxo que não nos podemos permitir.