Os socialistas estão a fazer um enormíssimo favor a Luís Marques Mendes. O que parecia improvável há um par de semanas está agora a ganhar contornos de uma quase inevitabilidade: haver uma segunda volta nas próximas eleições presidenciais entre o almirante Henrique Gouveia e Melo e o candidato do espaço de centro-direita. Atendendo a tudo o que está em jogo — o PS não ocupa o Palácio de Belém há 20 anos e Pedro Nuno Santos prometeu uma candidatura digna desse nome quando se apresentou como sucessor de António Costa — seria um tiro no pé absolutamente notável.

Ninguém estará isento de responsabilidades neste processo. A começar por Mário Centeno, o grande favorito do partido e das sondagens. Centeno não estava obrigado a ser candidato, naturalmente, mas poderia ter poupado o Banco de Portugal, os seus apoiantes (que preparavam ativamente a candidatura) e o partido a meses de uma egotrip inconsequente. Depois de alimentar divertidamente o tabu, veio agora dizer, de forma cândida, que nunca contribuiu para conversas sobre Belém e que é apenas mais uma vítima inocente dos criadores de factos políticos. Só acredita quem quiser, claro.

Pedro Nuno Santos, por sua vez, tem gerido tudo com a finesse de um paquiderme. Ainda em outubro, lançou na televisão uma mão cheia de putativos candidatos a Belém fazendo imediatamente erguer dentro do próprio partido barricadas em torno de uns e de outros. Logo a seguir, e depois de ter elogiado Aquele-Cujo-Nome-Não-Podia-Ser-Pronunciado (o ressuscitado António José Seguro ainda arrepia os costistas e/ou os socráticos), lá apareceu a dizer que afinal fora um “erro” falar em nomes presidenciáveis. Pudera.

Não satisfeito, iniciou uma espécie de roteiro gastronómico pouco discreto para ouvir tudo o que os candidatos a candidatos tinham para dizer, transformando o apoio do PS num estranho casting feito à mesa e entre repastos, mediado pela comunicação social, sem critérios claros e objetivos, e incluindo nas conversas aqueles que queriam muito ser candidatos, aqueles que queriam assim-assim e aqueles que não queriam nem ouvir falar disso.

Com o partido do avesso, agora vai dizendo que não se sente obrigado a apoiar o primeiro candidato que aparecer (ouviu, António José Seguro?), permite (ou estimula) que a sua direção faça saber que António Vitorino é o favorito (não era Mário Centeno?) e desafia publicamente os que querem ser candidatos (Vitorino, subentenda-se) a darem corda aos sapatos e a dizerem rapidamente ao que vêm, num gesto tão evidente como desesperado de impedir que Seguro tome a dianteira da corrida.

Dir-se-á que, antes dele, António Guterres, José Sócrates e António Costa, por ação ou inação, também geriram as eleições presidenciais com os pés. É verdade. Mas é um fraco consolo para quem, no congresso que o entronizou como secretário-geral do PS, prometeu que o partido apoiaria “um candidato” a Belém como “há muito tempo” não fazia, “honrando os melhores Presidentes da República que Portugal já teve”. Foi Pedro Nuno quem elevou as expectativas; será ele a responder por elas.

Apesar de tudo, há duas coisas que Pedro Nuno Santos, por muitas virtudes e defeitos que possa ter, não consegue fazer: empurrar para uma eventual candidatura quem manifestamente não o deseja e mandar sossegar os espíritos mais agitados e criativos do partido (ainda que o tenha tentado fazer durante o psicodrama orçamental).

A corrida para receber a bênção do PS reavivou ódios antigos, quase irracionais, e está a transformar o debate num triste espetáculo — e isso não é responsabilidade exclusiva de Pedro Nuno. Augusto Santos Silva destratou publicamente Seguro e ameaçou cometer uma candidatura presidencial só para estragar a festa, João Soares devolveu-lhe os simpáticos mimos, Eduardo Ferro Rodrigues pediu primárias, Marta Temido pediu Santos Silva, Francisco Assis pediu juízo — e algum decoro, já agora.

É difícil imaginar como é que isto pode acabar bem. António Vitorino será sempre visto como uma segunda escolha depois da autoexclusão de Mário Centeno. António José Seguro será visto como aquele que não convence sequer o próprio partido. E se, por bizarra conjugação astral, os dois avançarem ao mesmo tempo, como parece que pode mesmo acontecer, a luta fratricida só vai ficar mais feia.

Nas últimas eleições legislativas, o campo do PS valeu uns estonteantes 28%, o pior resultado em percentagem de votos desde 1987. Com dois candidatos do mesmo partido em jogo nas próximas presidenciais, um fora da política ativa há 10 anos, o outro há 20, nenhum dos dois com percurso e vocação para falar com naturalidade ao eleitorado mais à esquerda do PS, estes 28% vão ser generosamente fatiados. Se em cima disto surgir alguém com pergaminhos à esquerda, não há grandes razões para esperar uma candidatura vencedora da área socialista.

E esta hipótese abre perspetivas animadoras para Luís Marques Mendes. O seu maior adversário nesta corrida presidencial continua a ser a possível fuga de eleitores da Aliança Democrática para Henrique Gouveia e Melo. Mais a mais, não é de esperar que alguém com o perfil de Mendes consiga entrar facilmente no eleitorado do Chega ou do PS, pelo que crescer à direita e à esquerda também não são hipóteses.

Para continuar a sonhar com uma segunda volta, Marques Mendes tem de conseguir segurar o que Gouveia e Melo não conseguir conquistar no centro-direita e esperar um milagre à sua esquerda. Não é fácil, mas, no final do dia, só precisará de ter mais um voto do que o terceiro classificado. Com os socialistas entretidos em jogos autofágicos, Marques Mendes deve estar a esfregar as mãos de contente.