Era a primeira vez que ousava aventurar-me sozinho naquela que é conhecida como a melhor onda de Portugal, os Coxos. Devia ter catorze anos e durante umas férias na Ericeira pedi, confiante, à minha mãe que me deixasse no cimo da colina. O vento offshore (aquele com que os surfistas sonham) soprava com força e todas as lendas vivas do surf se juntavam nas pedras para saltar ao mar. O surf vive-se em meio a um misticismo e aquele momento era o culminar de uma expectativa que se fora criando durante anos, em conversas rumo à praia. Falavam daquela baía mágica como o verdadeiro local de iniciação para todo o “surfista de verdade”. Mas não seria nesse dia. O que acabei por descobrir foi um lado menos glamoroso do surf:

“Não és daqui, vai para o inside!”

Normalmente, o inside é o lugar onde rebentam as ondas, que ninguém quer. E era para lá que me estavam a mandar.

Apesar de esta ser uma dimensão menos visível nas nossas praias, até há bem pouco tempo quem estava no pico em Ribeira D’ilhas (outra baía da Ericeira) podia ler em letras garrafais um valente “Vai Para A Tua Terra!” no cimo do monte. A Câmara mandou pintar o muro (ficava mal). Mas só quem não é surfista é que não tem a plena noção de que o mar não é igual para todos. Num regulamento que não existe, mas que todos conhecem, estão inscritos os poderes dos donos de cada praia: é-lhes atribuída a faculdade discricionária de reorganizar a população que se encontra na água, privilegiando os amigos e relegando os que não são dali para o fim da fila. Na disputa pelas ondas, os primeiros lugares estão reservados sempre para os mesmos. Exceção feita às namoradas novas de quem manda. Essas, também podem apanhar ondas boas. Na “sua” praia, o surfista local é rei e senhor.

Naquela manhã, nos Coxos, aceitei a minha sina, coloquei ao pescoço a fita metafórica onde se podia ler “apenas visitante” e remei para o lugar do mar onde esperam os forasteiros. Afinal, eu não era mesmo dali… e ficou assimilado para mim o direito natural do surf. Era assim, pensei na altura, e nunca poderia ser de outra maneira.

Os anos passaram e também eu tive direito a ser local na minha praia, Carcavelos. Mas o exercício do poder que emana de possuir um bem imobiliário nas imediações nunca esteve dissociado, para mim, de um conflito interno. Talvez porque exercer esse poder me fazia lembrar um comentário feito no Facebook quando fui campeão nacional de sub-16:

“És brasileiro e, em vez de estares aqui a roubar oportunidades aos portugueses, devias ir para a tua terra”.

Foi um de muitos comentários que ouvi em que me comparavam a um ladrão ou diziam que a minha mãe, por vir de onde vinha, seria uma mulher com muita rodagem na vida.

Muitos surfistas, pelo estilo de vida relaxado e viajante, estão na linha da frente no que toca a discursos de abertura social. São muito rápidos a pronunciar-se nas redes sociais sobre as barbaridades que se passam nos Estados Unidos quando a violência policial e o racismo se manifestam. E, no entanto, estas são as mesmas pessoas que, durante a minha adolescência, reproduziam com menos filtro o que ouviam em casa, dos pais, em relação a brasileiros, pretos, gays, ciganos ou mulheres. E também são as mesmas que justificam as injustiças cometidas dentro de água com um “mas ele não era de lá”.

A sério? É mesmo possível comparar xenofobia, racismo ou homofobia com o localismo do surf?

A verdade é que há algo no localismo que é transversal a todas as formas desigualdade. Provavelmente, se não tivesse convivido de perto com comportamentos discriminatórios, por ser filho de brasileiros, talvez não conseguisse enxergar com outros olhos as justificações do localismo. Se eu for à praia no Verão, não tenho mais direito de estender a minha toalha na zona mais agradável nem de passar à frente de todas as crianças para mergulhar do pontão do que os não-residentes. Já para um surfista, o mar e a praia pertencerem aos locais é uma lei da natureza. Acreditam nisso, porque vivem no seu mundo à parte, com os seus valores próprios que para quem está de fora não fazem sentido. Mas será que cada um de nós não vive, também, no seu próprio mundo, que justifica com argumentos tão absurdos quanto os do localismo?

Crescer num mundo em que se diz repetidamente que mulheres ou negros não sabem conduzir, por exemplo, vai fazer-nos acreditar que essas pessoas são, realmente, menos capazes. Quem nunca ouviu um “tiozão” dizer “mulheres ao volante, perigo constante”? É uma frase tão inocente, tão banal, que não parece discriminação. Mas é.

O “vai para a tua terra”, a violência policial contra minorias ou uma agressão claramente racista são manifestações extremas da discriminação. E, sim, talvez fujam à regra. Mas isso não significa que não sejam o reflexo de um sistema que discrimina constantemente, ainda que de forma mais leve. Os pais dos miúdos com quem eu treinava, e a quem, em casa, subtilmente, lhes ensinavam que os brasileiros são assim ou assado, não diziam essas coisas aos meus pais quando os encontravam durante os campeonatos. Mas alguma coisa fez com que esses miúdos, com treze ou catorze anos, fossem muito rápidos a mandar-me “para a minha terra”, sempre que, por exemplo, a caminho dos treinos, eu ousava escolher um bom lugar na carrinha. Faziam-no com toda a inocência: alguém os tinha educado para acharem legítimo mandar-me para o Brasil.

O localismo também tem a sua forma de camuflar a discriminação. Ouvem-se risos na água se um local rouba a melhor onda do dia a um alemão que está de férias. Mas esse comportamento, aparentemente inócuo, é o mesmo que legitima, na cabeça de alguns, que se furem os pneus do carro de quem visita uma praia e tem o desplante de apanhar ondas.

É um fenómeno interessante para entendermos, pelo lado absurdo, o que significa discriminar. Talvez, olhando primeiro para fora, possamos ver o nosso mundo com outros olhos. Se não pertencermos à tribo do surf, será fácil descrevermos o localismo como uma forma primitiva de organização social. Mas, duas frases depois, podemos estar a minimizar a experiência de quem nos conta como é difícil a um negro alugar um apartamento em Portugal. Diremos que é uma exceção à regra. Será?

Até aos meus dezoito anos, tinha vergonha de dizer em voz alta que era filho de pais brasileiros e fazia de tudo para esconder essa parte da minha identidade. Ninguém gosta de ouvir esta história – dizem-me muitas vezes que é uma exceção triste, que aconteceu “por acaso”. Mas não será esse acaso parecido com o que os surfistas descrevem, quando classificam a agressão de alguém no mar como um caso isolado? O localismo existe, porque a maioria dos surfistas justifica os princípios que o legitimam, mas “só até certo ponto”.  Se não aceitarmos, em absoluto, que o mar tem dono, qualquer manifestação do localismo deixará de fazer sentido. Da mesma forma, se não queremos que a nossa sociedade reflita o que se passa nas nossas piores praias, temos que aprender a olhar para os princípios que nos guiam com olhos mais críticos. Só assim saberemos se não estamos, também nós, a ser cúmplices de uma forma qualquer de discriminação, tão primitiva quanto o localismo.

João Kopke é um contador de histórias que utiliza o surf, a sua formação artística em música clássica e a sua formação académica em Ciências Políticas e Relações Internacionais para criar conteúdos. Tem 24 anos e juntou-se ao Global Shapers Lisbon Hub em 2020.

O Observador associa-se ao Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial, para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa.  O artigo representa a opinião pessoal do autor, enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.