Apontado por Oriane Cohen, trata-se de um dos padrões mais importantes, despercebidos e incompreendidos do novo século, o “sagrado” está de regresso às estruturas de poder sob a forma de passageiro clandestino e disfarçado que molda e influencia, à sua maneira, a arquitectura interna e os processos de tomada de decisão nos centros de influência.
Regresso este que não se prende necessariamente com religião ou fé, mas sim com algo mais profundo. Uma sede de significado, uma fome que anseia por transcendência, mas sobretudo, uma profunda necessidade de pertença, estrutura e verticalidade perante algo maior que nós mesmos.
Os movimentos tectónicos bruscos dos paradigmas sociais nas últimas três décadas aliados ao caos geopolítico deram lugar a um espaço onde o “sagrado” se alimenta e espalha como fogo num palheiro; o vácuo. No vácuo tudo é imprevisível e instável, o que hoje é, amanhã deixa de o ser, o que ontem era verdade, hoje é mentira, o que hoje é a norma, amanhã é proibido, qual distopia da modernidade líquida inspirada nas teorias de Zygmunt Bauman. O vácuo é a tirania da imprevisibilidade, algo que o ser humano – um animal de hábitos – vê como um lugar onde a sua vida corre perigo constante, onde não existem abrigos ou zonas de sombra para se proteger do caos que o envolve.
O “sagrado” oferece esperança no meio do tenebroso vácuo; oferece códigos, rituais, comunidades, caminhos, pertença, memória colectiva, mas sobretudo, farois que guiam os seres perdidos no vácuo, sedentos de sentido. Este, ao contrário das ideologias, não necessita de persuadir, pura e simplesmente, guia.
Nunca tendo totalmente desaparecido, o “sagrado” adoptou diferentes formas, adaptando-se, mesmo quando o secularismo contemporâneo nos queria fazer querer que a humanidade do mundo ocidental já tinha evoluído para um estágio superior que transcendia a necessidade do mito e do ritual, ignorando completamente que o ser humano é o mesmo animal que há 300 mil anos, com a mesma estrutura cerebral, o mesmo número de sinapses e as mesmas faculdades mentais e estruturas neurológicas; este animal não evoluiu para habitar eco-sistemas e sócio-sistemas imprevisíveis e sem zonas sombra ou abrigos, físicos ou mentais.
À medida que o secularismo se espalhava cada vez mais no mundo ocidental, de mãos dadas com o crescimento do vácuo, o “sagrado” – que abandonava o formato “religião de massas” – sobreviveu adoptando novas formas. Ideologias políticas ou dogmas tratados como verdades absolutas, com os seus santos, mártires e heresias; fenómenos tecno-misticistas como a inteligência artificial, imortalidade, ou a singularidade tecnológica; cultos profano-materialistas como a devoção a marcas como Apple, Nike, Tesla, Harley Davidson ou Starbucks; ou pseudo-espiritualidade pós-moderna como a astrologia, neo-xamanismo ou a teologia do trauma. O “sagrado” foi sobrevivendo sub-repticiamente com base na sua própria fragmentação, demonstrando que mesmo que nem todos os seres adorem aos mesmos deuses, porém, todos eles necessitam de uma estrutura sagrada na qual acreditar, seja ela gnóstica, ou agnóstica, teísta ou ateísta, dogmática ou adogmática. Sistemas sagrados estes que competem entre si, colidem e por vezes convergem e fundem-se, dependendo dos seus interesses e conveniências. São estas as neo-teocracias.
Um pouco por todo o mundo começam a identificar-se quatro grandes padrões sociais que se vão consolidando em virtude da turbulência dos tempos; as “tecno-fortalezas” (sistemas fechados, governados por uma elite tecnocrata onde o controlo é imposto através de algoritmos, inteligência artificial e vigilância; onde a soberania cognitiva dá lugar à optimização, onde a ética é dissolvida em detrimento da eficiência e onde o factor humano se transforma numa variável em aperfeiçoamento contínuo e intensivo), as “redes ecológicas”, as “neo-teocracias” (sistemas onde a autoridade é legitimada por narrativas consideradas sagradas estruturadas em torno de mitos e rituais que definem a legitimidade e identidade colectiva) e as “zonas cinzentas”. Cada uma destas apresenta, em si, uma forma distinta de organizar o poder, o controlo e o significado interior.
No meio de todas estas camadas começa a formar-se uma camada híbrida que mistura duas das forças mais potentes do nosso tempo, a racionalidade tecnológica das “tecno-fortalezas” e a legitimidade sagrada das “neo-teocracias”, a esta camada Oriane Cohen chama-lhe “tecno-misticismo”, uma camada secular na aparência, mas religiosa na estrutura; que funde a lógica preditiva e analítica das máquinas com a linguagem simbólica e mitológica da fé; um mundo onde o algoritmo se transforma num oráculo, e o programador numa espécie de pastor. Neste nível, a tecnologia – inteligência artificial, algoritmos, e redes de dados – é tratada como uma ferramenta e veículo de transcendência sagrada, ordem extrema total, e verdade absoluta; substituindo a verdadeira verdade por um falso sentimento de coerência face às decisões tomadas pela tecnologia.
Este sistema híbrido é profundamente autoritário e redefine completamente o conceito de verdade, onde a realidade se transforma em metaverso (onde a vida é uma simulação), onde a consciência se transforma em estruturas de dados, e onde a ética se transforma em eficiência.
Qual é o verdadeiro perigo de tudo isto? A responsabilidade deixa de existir no poder. O pecado e o escândalo deixam de existir, são vistos como meros erros do sistema, erros de encriptação, erros da matriz. Deixa de existir dissidência, irreverência ou revolta, apenas ruído que pode ser filtrado e omitido, fazendo com que o domínio totalitário do algorítmo e a censura endémica do sistema se tornem indetectáveis, circulares e auto-justificáveis.
Todavia, em teoria, o sistema “tecno-misticista” não é visto como um sistema assente numa maldade pura – mesmo que o seja, na prática – este responde a cinco necessidades humanas viscerais; controlo, coerência, legitimidade, transcendência e significado. É um espelho da própria essência e condição humana, a necessidade de deuses que não sejam Deus.
Todo o sistema que negue todas estas contradições da nova realidade acabará por implodir sobre si mesmo. Para permanecermos livres, devemos aprender a aceitar o paradoxo do “sagrado” que se une à “tecno-fortaleza”, mas resistir com total brutalidade e violência à escravização da consciência humana pela tirania da máquina.