A nossa tradicional silly season não dá tréguas neste “querido mês de Agosto”. Num verão ainda tímido, assistimos à revolta e à greve dos motoristas de matérias perigosas. É a segunda este ano. Numa situação normal de negociação entre sindicatos e empresários, com ou sem greve, cabe aos representantes de ambos chegarem a acordo. Nesta situação em particular, depois de o Governo ter aberto um precedente, e erradamente ter-se intrometido na negociação de abril, é natural que muitos portugueses esperem o mesmo desta vez. E esse é um problema para futuro.

Numa perspetiva distinta, os problemas associados à greve e o caos a que esta pode votar o país por tempo indeterminado (e de frequência imprevisível), devem fazer-nos refletir sobre a nossa dependência diária de combustíveis fósseis e levar-nos a exigir uma verdadeira transição energética.

Nos últimos meses tem-se falado, em crescendo, sobre o ambiente e as alterações climáticas. Hoje assistimos a marchas pelo clima lideradas pelos mais jovens, pela geração que, previsivelmente, mais irá ser afetada pelos desequilíbrios ambientais. Carlos Pimenta, uma das referências políticas na matéria, disse que “a luta pelo ambiente é uma das formas mais nobres de luta pela cidadania”. Guerrilhas políticas à parte, devemos ter a ambição de nos sentarmos todos à mesa e discutir o ambiente, porque este é um assunto de todos; é garantir o futuro das novas gerações.

Ainda precisamos de combustíveis para a produção de energia que permite ter a funcionar hospitais, portos ou aeroportos. Mas talvez seja importante perguntarmos que tipo de investimento tem sido feito em matéria de infraestruturas, eficiência energética em edifícios e transportes, e qual tem sido a evolução da fiscalidade verde.

O nosso país  é um dos maiores produtores europeus de eletricidade a partir de fontes renováveis, mas regista uma elevada dependência energética do exterior (cerca de 80%), principalmente do petróleo. Numa era fortemente marcada pela revolução digital, o ambiente e o combate às alterações climáticas podem e devem beber da ciência produzida no ensino superior e nas empresas. A proteção do ambiente, a economia circular e a transição energética também poder ser um bom negócio.

Em Portugal, as centrais de energia renovável produzem anualmente, em média, 54% das necessidades elétricas nacionais. Estes valores correspondem a uma redução de perto de 750 milhões de euros em importações. Mas o valor económico da aposta nas renováveis não se mede apenas pela poupança na importação de energia. O setor permitiu também criar um “cluster” industrial, que é hoje responsável por mais de 56 mil empregos (diretos e indiretos) e por exportação de equipamentos (e.g. aerogeradores, painéis fotovoltaicos, etc.) no valor de 400 milhões de euros por ano, o que se traduz num peso crescente da agenda verde na economia nacional.

A União Europeia tem contribuído, com fundos comunitários, para dar resposta à emergência da ação política em matéria ambiental. Por exemplo, o Horizonte Europa, define que pelo menos 35% do orçamento seja canalizado para a investigação dedicada ao combate das alterações climáticas. Mesmo o setor privado não é indiferente à problemática. As empresas de distribuição, por exemplo, têm investido em veículos eléctricos para o abastecimento das suas lojas ou para entregas aos clientes. Outras, apostam cada vez mais na economia circular. Até mesmo no setor financeiro, indicadores de responsabilidade ambiental têm cada vez mais impacto na decisão de investimento.

O sol, a água e o vento não fazem greve, e a transição energética exige uma visão holística, que convoque todos os agentes da nossa sociedade. Numa Europa líder no combate às alterações climáticas, Portugal já é um dos campeões na energia eólica. As condições naturais que possuímos (também como país mais soalheiro da Europa) perante este grande desafio da transição energética, obrigam-nos a estar no pelotão da frente.

eurodeputada do PSD