Há um lugar-comum que se instalou confortavelmente no debate europeu sobre defesa: existe um Norte sério, que percebeu a ameaça russa e paga o que tem a pagar, e existe um Sul distraído, que fala de imigração quando devia falar de tanques. É uma narrativa arrumada. É também, em boa medida, falsa. E Portugal tem todos os motivos para a contestar antes que se transforme em critério de repartição de dinheiro e de influência.

Comecemos pelo que é verdade. As perceções de ameaça divergem, e divergem muito. Para um estónio, a segurança tem um endereço postal: a fronteira a leste. Para um italiano, um espanhol ou um grego, o perigo chega por mar, vem do colapso da governação no Sahel, da Líbia fragmentada, de redes criminosas que instrumentalizam pessoas. Não são sensibilidades diferentes sobre o mesmo problema. São problemas diferentes, e ambos são reais.

O erro está em traduzir essa divergência geográfica em hierarquia moral. Quem vive a mil quilómetros de Narva não é menos europeu por dormir descansado quanto a colunas blindadas; é apenas alguém que olha para outro horizonte. E quem trata a instabilidade no Norte de África como assunto menor devia recordar que ela produz, ela própria, oportunidades para Moscovo: em contratos de mercenários, em portos, em alavancas migratórias usadas com propósito político. A ameaça é a mesma. Muda a porta por onde entra.

Portugal ocupa aqui uma posição desconfortável: somos duplamente periféricos. Não estamos no flanco leste nem, verdadeiramente, no Mediterrâneo. Estamos no Atlântico, e é precisamente aí que se joga uma parte da segurança europeia de que quase ninguém fala. Os cabos submarinos que transportam as comunicações do continente passam por águas que nos dizem respeito. As rotas marítimas que abastecem a Europa passam por águas que nos dizem respeito. Os Açores continuam a ser um dos ativos estratégicos mais subvalorizados da NATO. Se o debate europeu se organizar em torno de um único eixo, o do Leste contra o Sul, Portugal arrisca-se a não estar em lado nenhum.

Daí a tentação, que convém resistir, de nos limitarmos a reclamar. A queixa portuguesa sobre o “esquecimento do flanco atlântico” só é audível se vier acompanhada de despesa credível. Durante anos, Lisboa exerceu um talento notável para assinar compromissos ambiciosos em cimeiras e cumpri-los devagar. Não se ganha um argumento estratégico com discursos; ganha-se com capacidades que os aliados possam usar. Quem quiser que a Europa alargue a definição de segurança para lá dos carros de combate tem primeiro de provar que leva a sério os carros de combate.

E é essa a bitola pela qual devíamos medir a próxima década: não quanto gastamos, mas em quê. Meios navais para vigiar e proteger infraestruturas críticas. Capacidade de projeção limitada mas real. Ciber. Satélites. Uma base industrial que produza alguma coisa em vez de comprar tudo. Um euro bem gasto num navio de patrulha oceânica vale mais, para a credibilidade portuguesa, do que dez em programas simbólicos.

A Europa não precisa de escolher entre o Leste e o Sul. Precisa de um conceito estratégico único que reconheça que a dissuasão convencional e a estabilização da vizinhança meridional são duas faces do mesmo problema, financiadas pelo mesmo orçamento e sustentadas pela mesma vontade política. Isso implica que o Norte aceite que a segurança do Mediterrâneo não é caridade, e que o Sul aceite que a solidariedade não se pede em cimeiras se não se pratica com meios.

A fratura Norte-Sul não é eterna. É uma escolha que se faz todos os anos, quando se aprovam orçamentos. Convinha que, desta vez, escolhêssemos outra coisa.