Dizem que os dinossauros foram extintos por um asteroide, mas os profissionais de saúde parecem estar a desaparecer por causas bem mais modernas: exaustão crónica, salários de museu e turnos que desafiam as leis da física e da sanidade. São uma espécie resiliente, é certo, aguentam anos de formação, más condições de trabalho e ainda sorriem nos corredores, não se sabe bem se por resistência, ou por delírio induzido pela falta de sono.
Os enfermeiros? Ah, os enfermeiros…, esses seres mitológicos que conseguem estar em vários sítios ao mesmo tempo, administrar medicação, fazer pensos, consolar doentes, telefonar a famílias, tapar pés frios, conter surtos, registar tudo em três sistemas diferentes (nenhum deles compatível)… e ainda assim pedir desculpa por não terem chegado mais cedo. São a espinha dorsal dos serviços, o motor da máquina, mas são tratados com a gratidão reservada ao motor de uma máquina de lavar: só se repara que existe quando se avaria. No SNS, são chamados de “essenciais”, o que é uma palavra bonita para “subvalorizados”. No privado, são um investimento a cortar, até porque já há soluções mais rentáveis, como “equipas flexíveis”, “modelos inovadores de cuidados”, e outras formas criativas de dizer “menos gente, mais trabalho”. Afinal, para quê um enfermeiro, se podemos ter um assistente com formação de três dias, sorriso plastificado e um tablet com vídeos educativos sobre “como aplicar pensos em si mesmo”? É a nova lógica do sistema: empatia opcional, eficiência obrigatória. E se o doente reclamar? Carrega-se no botão vermelho: não para chamar ajuda, claro, mas para ativar o protocolo de gestão de reclamações, esse outro milagre do Excel.
E onde está o Médico nisto tudo? A esmagar teclas, a correr entre macas e camas, a preencher campos em programas informáticos que alguém decidiu que são “inteligentes”, mas que têm a fluidez de um funcionário público em véspera de reforma. Ou então, nos hospitais privados, a tentar sobreviver à nova fauna empresarial da saúde: esse maravilhoso mundo onde o tempo de consulta é medido em décimos de segundo e o valor do médico em linhas de faturação. Ali, o médico é um recurso, e como qualquer recurso, o ideal é usá-lo o mínimo possível. Se puder ser substituído por um algoritmo barato ou por um questionário online com frases feitas e final feliz, melhor ainda. Afinal, um médico é caro, pensa demais, às vezes até tem opiniões próprias: uma chatice! Muito mais prático é um sistema automático que diga sempre “se os sintomas persistirem consulte o seu médico”’, enquanto na prática o objetivo é que ele não apareça nunca. Nos hospitais privados modernos, o médico é o equivalente tecnológico da impressora: só se usa quando não há outra hipótese… e mesmo assim, com aquele irritante aviso em letras vermelhas: “recurso obsoleto — considerar atualização”. Porque o futuro da saúde privada não passa por tratar doentes, passa por tratá-los o mais depressa possível e preferencialmente sem contacto humano. É mais limpo, mais barato e não faz perguntas.
E depois temos os Administradores Hospitalares. Essas criaturas raras que flutuam num plano etéreo, acima das urgências, das camas por fazer e das macas no corredor. Vivem num mundo de “dashboards”, reuniões com catering e decisões tomadas a partir de relatórios que ninguém percebe, mas que vêm sempre com gráficos em 3D. Para eles, um hospital não é um lugar onde se trata pessoas, é uma empresa com ativos biológicos que ocupam espaço e geram despesa. A palavra “doente” só aparece se for para justificar cortes. A palavra “profissional de saúde”, se vier com aumentos, é considerada ofensiva. São especialistas em fazer mais com menos — menos recursos, menos pessoal, menos salários, menos humanidade. Mas com mais PowerPoint, claro. Porque nada cura melhor uma infeção hospitalar do que um bom slide animado com a frase ‘compromisso com a excelência’. E têm uma habilidade notável: conseguem passar anos sem nunca ver um doente, mas ainda assim saber exatamente o que está mal nos cuidados de saúde. São como meteorologistas do caos: olham para um mapa, preveem tempestades, e vão almoçar descansados, que há-de chover para os outros.
E no meio disto tudo, sobram os utentes. Pobres almas errantes que ainda acreditam que o sistema de saúde existe para cuidar deles: uns ingénuos. Entram num hospital armados com um cartão do SNS ou com um seguro de saúde, e pensam, coitados, que isso é o passaporte para serem tratados. Mal sabem que entraram num jogo de sobrevivência disfarçado de serviço público ou empresa privada. No SNS, o utente aprende rapidamente que o conceito de espera é uma arte milenar. Espera para marcar, espera para ser atendido, espera para ser chamado, espera para ser visto… e muitas vezes espera tanto que o problema ou se resolve sozinho ou evolui para algo mais grave — o chamado upgrade clínico gratuito. Já no privado, o utente é tratado com mais rapidez, mas não confundir rapidez com humanidade. Ali, o cliente é bem-vindo… enquanto o cartão de crédito estiver quente. O sorriso é proporcional ao plafond. E se faltar cobertura? Lamentamos o incómodo, volte sempre, ou melhor ainda, não volte de todo, que atrapalha a rentabilidade por metro quadrado.
No fundo, o utente na saúde de hoje é como o cliente de uma companhia aérea low-cost: tem direito a existir, mas tudo o resto é pago à parte — dignidade incluída.