A situação política atual em Portugal torna cada vez mais pertinentes os textos de Eça de Queiroz, cujas obras literárias continuam a ecoar como uma crítica mordaz à realidade política e social do país. A instabilidade governativa, a falta de transparência, o jogo de interesses disfarçado de princípios e a sucessão de eleições sem mudanças estruturais são temas que atravessam o seu pensamento e permanecem incrivelmente atuais. O que ele denunciava com ironia e lucidez no século XIX mantém-se como um retrato fiel da política portuguesa dos nossos dias.
A política portuguesa atravessa um momento de grande instabilidade, marcado por sucessivas crises governamentais, disputas partidárias estéreis e um eleitorado cada vez mais desiludido com aqueles que o representam. A sucessão de quedas de governo e a convocação de eleições tornaram-se uma rotina previsível no panorama nacional. “Cai o governo, anunciam-se eleições, prometem-se mudanças – e, passado pouco tempo, lá estamos outra vez no princípio da desordem.” (A Cidade e as Serras). A alternância de poder, que deveria ser um motor de renovação, parece mais um ciclo vicioso onde os rostos mudam, mas os problemas permanecem.
A desconfiança na classe política cresce à medida que o povo sente que lhe ocultam a realidade, temendo que os corredores do poder sejam, na verdade, um palco de conveniências e interesses ocultos. “Nada destrói mais a fé do povo nos seus líderes do que a impressão de que lhe escondem a verdade.” (A Cidade e as Serras). Em vez de clareza e compromisso, impera a opacidade e a falta de explicações coerentes sobre as decisões que moldam o futuro da nação. “Governar sem explicar é como navegar sem bússola – o desastre é só uma questão de tempo.” (A Relíquia). Mesmo quando a responsabilidade do governo não é total, o silêncio ou a comunicação deficiente agravam a sua posição perante a opinião pública. “Muitas vezes, um governo não é culpado – mas parece sê-lo, apenas porque se recusa a falar.” (A Correspondência de Fradique Mendes).
Entretanto, a oposição não se afirma como alternativa construtiva, mas sim como um eco constante de contestação, muitas vezes sem fundamento ou vontade real de diálogo. “Em Portugal, a oposição não ouve: espera apenas pela sua vez de falar. E, quando fala, já decidiu que o governo está errado, mesmo antes de ouvir as razões.” (As Farpas). Este clima de permanente antagonismo não favorece a estabilidade nem o progresso do país. Pelo contrário, perpetua uma lógica de confronto que, ao invés de esclarecer, confunde; ao invés de edificar, destrói. “A discórdia entre os políticos pode ser útil para as suas ambições, mas é sempre desastrosa para a pátria.” (As Farpas).
No Parlamento, onde se esperaria um debate digno e orientado para soluções, impera o ruído. “O Parlamento é uma praça onde cada um grita mais alto que o outro, convencido de que o ruído substitui o raciocínio.” (A Correspondência de Fradique Mendes). O extremismo e a radicalização do discurso político apenas aprofundam as divisões na sociedade. “Os extremos na política não constroem nações; apenas erguem muros entre os homens.” (A Cidade e as Serras). Em vez de um combate de ideias nobres, a política portuguesa reduz-se frequentemente a um jogo de interesses disfarçado de convicções. “A política em Portugal não é uma luta de princípios, é um combate de interesses mascarado de princípios.” (A Ilustre Casa de Ramires).
A imprensa, que deveria ser uma guardiã da verdade e da transparência, muitas vezes não escapa ao espetáculo da polarização e da manipulação mediática. “O jornal não quer informar, quer excitar. Não lhe interessa a verdade, interessa-lhe o tumulto.” (As Farpas). Os jornais, longe de se limitarem a relatar os factos, tornam-se juízes implacáveis, condenando antes mesmo de ouvir a defesa dos acusados. “A imprensa pode, com uma palavra, fazer um homem ou destruí-lo. Um jornal é um tribunal sem apelação, onde o acusado nunca é ouvido e onde a sentença já está escrita antes do crime.” (A Correspondência de Fradique Mendes).
Num contexto de sucessivas eleições e crises, o país vê-se aprisionado numa engrenagem onde a política se torna mais um espetáculo eleitoral do que um verdadeiro exercício de governação. “As sondagens prometem, os discursos garantem, os jornais confirmam – e depois vem o voto e desmente a todos.” (Cartas de Inglaterra). A obsessão com disputas eleitorais constantes impede que se trace um rumo sólido e sustentável. “Não há país que prospere quando se passa mais tempo a fazer eleições do que a governar.” (As Farpas).
Portugal encontra-se, assim, numa encruzilhada: ou reencontra na política um espaço de verdadeira responsabilidade e serviço público, ou continuará a ser um palco onde se alternam vozes e promessas, sem que nada de essencial se transforme. Para que o país avance, os seus líderes devem abandonar os jogos de poder e adotar uma nova postura: a da verdade, da transparência e da responsabilidade. Pois sem isso, o destino será apenas a repetição cíclica do que já foi – e do que nunca deveria voltar a ser.