Mais de sessenta anos depois de termos conhecido Astérix o Gaulês, finalmente Astérix e Obélix chegaram em 2025 à Lusitânia. É verdade que em ‘Astérix, o Legionário’ há uma referência às ‘lavadeiras da Lusitânia’ e na construção desse grande condomínio, ‘O Domínio dos Deuses’, depois de os escravos Iberos e dos Belgas terem sido dispensados do trabalho por cantarem, um lusitano aparece dizendo que cantar não sabe, mas pode recitar qualquer coisita: isto para também poder ser desobrigado de trabalhar. Portanto, éramos tão só operários da construção e lavadeiras e só em 2025 nas ‘Aventuras de Astérix’ é que atingimos alguma complexidade moral.
Bom, agora finalmente na Lusitânia, entre muitos ‘Oh pás’, as voltas do destino e o fado, a contínua sombra da opressão e a alegria triste dos portugueses, toda a estória se resume em solicitarmos as boas graças de poderes externos para nos livrarem de outros maus poderes externos e dos seus acólitos portugueses. Os personagens lusos principais são dois, o ‘Tristês’ e o ‘Sacanês’ e representam bem regimes morais vigentes. ‘Tristês’ é um redentor voluntarista que vai solicitar a Astérix e Obélix que nos livre de uma má justiça que prende inocentes (o malmevês) e deixa em liberdade os trafulhas como ‘Sacanês’, um dominador ressentido vendido ao dinheiro estrangeiro. No final, claro, tudo acaba bem com os maus e bons no seu devido lugar e com a tradicional grande festa, como não podia deixar de ser, que nos faz ter fé e acreditar em milagres… ou, pelo menos, nos milagres de todos os dias.
Atribui-se a Einstein a frase “Há apenas duas maneiras de viver a vida. Uma é como se nada fosse um milagre. A outra é como se tudo fosse um milagre.”. Esta frase em Portugal é complexa pois somos cépticos e heróicos ao mesmo tempo; somos desconfiados, mas emocionais e solidários; não somos muitas vezes católicos, mas não deixamos de ser religiosos. Numa imagem, os que não entram na igreja não deixam de olhar para o céu. Aliás, talvez não por acaso, somos dos maiores designers dos céus em todo o mundo com os nossos espectáculos pirotécnicos! Portanto, ao mesmo tempo que somos capazes de dizer que não acreditamos em milagres, muitos de nós somos intrinsecamente profundamente voluntaristas, até em demasia, e estamos disponíveis as mais das vezes para uma união entre pessoas para um fim comum, mesmo que pouco realista.
De uma outra forma, é bem provável que o Português tenha uma clara noção do que é o Bem Público, quer os que se apropriam dele para proveito próprio, quer os que acreditam e procuram contribuir, de facto, para a possibilidade de boa governação do que é comum. Ou seja, até aqueles que acederam a recursos públicos para proveito próprio, esperam por vezes ter a oportunidade de se redimir. E muitos outros consideram também que não há incompatibilidade plena entre uma coisa e outra: roubou mas fez obra! E, ainda que falte trabalho, que urge, sociológico e antropológico sobre tal tema tão central, a verdade é que a ideia de milagre é central em Portugal: o milagre de todos os dias, mas também o milagre sempre esperado de que toda a hipocrisia não seja senão uma passageira fantasia: um sonho mau.
Os milagres de todos os dias acontecem. Nas nossas relações com vários serviços públicos, surpreendemo-nos (quase) sempre quando somos bem atendidos, quando o serviço é prestado com eficácia, quando o tempo dispendido é reduzido. E surpreendemo-nos e partilhamos essa surpresa, muitas vezes como quem procura uma resposta. De facto, a nossa surpresa é como num país que funciona tão mal em tantos casos, com tanta ineficiência (não cumprimento de regras que até temos) e tanta ineficácia (não se atinge os objectivos), como é que, ainda assim, funciona?
Por um lado, há que dizê-lo, as instituições e as pessoas não são iguais em todo o lado em Portugal. Por um lado, tenho-me cruzado na vida com muita gente séria, que faz o seu trabalho com orgulho e dedicação na agricultura, na construção civil, enfermeiros, professores, médicos, etc. Também nas instituições como um todo, haverá talvez (não quero ser injusto) as que funcionam. Por outro lado, tenho também ao longo da vida contratado serviços a várias empresas que funcionam. Em muitas delas, o empresário é também o principal trabalhador cioso do seu trabalho, mas mesmo noutras, em que o empresário é responsável por uma empresa média, quando há um problema ou uma reclamação, é ele que vem analisar o que se passa e corrigir o que foi mal feito.
Também todos sabemos claramente que o português é um trabalhador incansável e também muitas vezes alguém com grande capacidade de aprendizagem e mesmo, por vezes, com talento – e no estrangeiro é reconhecido como tal. Mas então, sabendo nós tudo isso, como se compreende que haja tantas instituições a funcionar tão mal? E, ainda mais torcido, como é que tantas instituições que funcionam tão mal continuam a funcionar?
Na tensão portuguesa entre cepticismo e heroicidade, entre descrédito e voluntarismo entusiasta, entre dependência do passado e possibilidade de mudança, há duas variáveis que criam fortes turbulências: o dinheiro e o poder. É como se um certo regime moral de tipo camponês permanecesse de forma estrutural e indelével na nossa sociedade, sendo o dinheiro e o poder um terror, uma espécie de diabo que cria o pânico. O dinheiro e o poder em Portugal funcionam como um desejo-obstáculo. Cada vez que alguém tem ideias em Portugal que possibilitam vir a ganhar dinheiro e a ter poder, de certeza alguém no grupo, e especificamente na família, vai chamar à atenção, dizer para ter cuidado: desacreditar de facto de tais ideias. Um dos receios óbvios que está subjacente é que a união familiar (esse milagre de todos os dias) se sente muitas vezes ameaçada pela própria possibilidade e imaginação do dinheiro e do poder. A ideia de ‘pobres mas honrados’ subjaz como uma espécie de inconsciente colectivo. O dinheiro e poder são associados a um individualismo e fragmentação dos coletivos sociais (família) típicos de um mundo urbano que um certo regime moral português receia.
Mas, por outro lado, e exactamente por ser um desejo-obstáculo, o desejo intensifica-se pelo obstáculo e há quem adopte a lógica fáustica e abrace o dinheiro e o poder como o único desígnio e, mesmo, como uma espécie de vingança na vida. A vingança aqui é vária e pode mesmo atingir um nível de psicopatia. Pode ser desde logo uma vingança por não ter tido família ou ter sentido que não teve ou ter-se sentido traído ou abandonado pela família. Ou seja, uma vingança em relação a não ter tido a possibilidade de ter percebido o milagre de todos os dias ou, pior, de ter percebido, a certa altura, normalmente na entrada da adolescência, mas poderá ter sido noutro momento crítico, que não teve o milagre de todos os dias. Mas a vingança até pode ser, noutros casos, em nome da própria família, e em função das agruras que ela viveu: uma vingança da pobreza da qual muitos portugueses vieram, vários deles tendo atingido responsabilidades de poder institucional. É preciso ter em conta que muitos daqueles que fizeram e fazem o mundo em que vivemos vieram do mundo rural, foram educados ainda no tempo do Estado Novo e tantos tiveram de passar pelo Seminário e por toda essa infância e parte da juventude que configurou muitas vezes uma ‘manhã submersa’.
Por tudo o que se referiu, há um regime moral de base em que o ressentimento é estruturante. Quer dizer, todos sofremos dele e é o que nos faz alegres e tristes ao mesmo tempo. Mas o ressentimento não é um defeito do caráter português: é antes uma consequência sistemática da arquitectura institucional portuguesa. Por um lado, parece haver um dilema difícil de ultrapassar entre uma ideia de sociedade tendencialmente igualitária de tipo camponês, porventura com uma única autoridade paternalista, e uma sociedade rural (e depois urbana) em que dinheiro e poder são já divisores de estratos sociais vários. Os quase 50 anos de Ditadura terão enfatizado estruturalmente esse dilema que, em si mesmo, cria ressentimentos, qualquer que seja a forma de o gerir. Acresce que a ‘Sociedade Administrada’ que adoptámos no período Democrático (os outros 50 anos) aumentou um ressentimento social por várias razões:
- Ressentimento como produto de uma cidadania permanentemente diminuída: a menoridade crónica do cidadão perante um Estado que ‘tutela’, que ‘capacita’, que ‘autoriza’. Criámos gerações em espera – ressentidas.
- Ressentimento como efeito da sobrecarga administrativa (“administrative burden”) crónico. O Estado é entendido como obsctáculo, incerteza, demora e arbitrariedade. O ressentimento é a resposta emocional a tal situação.
- Ressentimento como produto do desfasamento entre mérito real e reconhecimento institucional. O mérito com base na obediência/lealdade canina cria discrepância entre “o que faço” e “o que me reconhecem” e é uma fábrica de ressentimento.
- Ressentimento como mecanismo de autodefesa nas instituições de baixa responsabilização. Quando ninguém responde por nada e ninguém controla nada, todos se protegem numa desconfiança fluida que gera ressentimento.
Em suma, o ressentimento é um efeito social português de uma história longa de “sociedade administrada”. Por a democracia política não coincidir com uma democracia institucional, instalou-se uma economia moral feita de microfrustrações acumuladas. É esse “fundamento afetivo” que explica tanto a passividade quanto as explosões pontuais de indignação: nenhuma delas eficaz nem levando a mudanças efectivas. E, por isso, tem ainda um efeito aumentado que deve ser analisado, pois possibilita quer frustração sucessiva quer motivações acrescidas àqueles que, psicologicamente, já teriam propensão para o abuso de poder, exponenciando as psicopatias.
E é por tudo isso que podemos caracterizar dois tipos de portugueses: o ‘Tristês’ e o ‘Sacanês’. Por um lado, o ‘Tristês’, dominado pelo ressentimento desejoso de redenção e que se caracteriza por um voluntarismo intrínseco, disponível sempre para ver o virar de página do que está mal e superar-se individualmente, e até colectivamente, em prol de um objectivo maior. Mas céptico, de facto, em relação à possibilidade real de qualquer mudança. Por outro lado, o ‘Sacanês’, que adoptou o dinheiro e o poder como objectivos pessoais, num desejo de vingança de um ressentimento cristalizado. Há aqui uma espécie de tensão entre o ‘individuo-para-o-mundo e o ‘individuo-contra-o-mundo’. Uns são ressentidos-desejosos-de-redenção, heróicos contidos e cépticos de facto face à mudança, e outros vingativos-exibicionistas-dominadores que utilizam o dinheiro e o poder como forma de superarem o seu ressentimento porventura mais profundo.
Há, assim, dois regimes morais que caracterizam duas figuras movidas ambas por ressentimento, mas que o metabolizam de formas opostas:
- Os que sublimam o ressentimento — transformam-no em energia de redenção, idealismo, voluntarismo, esforço coletivo: são os “indivíduos para o mundo”.
- Os que cristalizam o ressentimento — convertem-no em sede de poder, ostentação, domínio: são os “indivíduos contra o mundo”.
Temos, então, na sociedade portuguesa, uma tensão muito forte entre o redentor e o vingador, ambos filhos da mesma ferida, mas com saídas morais distintas. E destes dois quais são mais capazes para chegar à liderança das instituições? E quais os que são capazes de subverter as regras democráticas formais das instituições de forma a dobrá-las a favor de uma clique, de um grupo que se reproduza no poder? Claro que, numa lógica de darwinismo social, são os que se sentem bastardos da vida, os que se querem vingar e dedicam a vida a isso que têm a força para chegar às lideranças e nelas sacrificar tudo e todos aos seus interesses.
De facto, na vida portuguesa, a grande festa não é a do regime moral do ‘Tristês’ ter vencido o regime moral do ‘Sacanês’, como no último álbum do Astérix na Lusitânia: um milagre difícil de alcançar. A Festa para os portugueses faz-se antes pelo facto de, apesar dessa luta constante entre dois regimes morais, podermos celebrar o milagre de todos os dias.