A morte de Francisco Pinto Balsemão trouxe de volta à memória um tempo político que hoje parece distante. Um tempo em que o diálogo não era um exercício de vaidade, mas um instrumento de construção. Em que adversários se sentavam à mesa, não para trocarem comunicados ou insultos, mas para encontrarem soluções. Em que a política, ainda que dura, era também um espaço de respeito mútuo.
Balsemão foi primeiro-ministro num período particularmente frágil da nossa democracia. Sucedeu a Sá Carneiro num país ainda à procura de estabilidade, e soube compreender que o poder só se consolida quando é capaz de ouvir. É talvez esse o traço mais marcante do seu legado: a convicção de que governar não é gritar mais alto, é saber escutar melhor.
Em 1982, no diálogo com Mário Soares, nasceu uma das revisões constitucionais mais relevantes da nossa história. Da diferença entre os dois: ideológica, pessoal e política, resultou um entendimento raro. A Constituição foi revista, o Conselho da Revolução extinto, e o país deu um passo decisivo na consolidação democrática. Foi um momento em que a política cumpriu o seu papel maior: servir o país acima das trincheiras partidárias.
Hoje, esse espírito parece perdido. A política vive mergulhada num ruído constante, onde a vitória se mede em likes e o debate se confunde com o espetáculo. Fala-se muito, mas ouve-se pouco. O adversário é tratado como inimigo, e o compromisso como fraqueza. A democracia transforma-se num campo de batalha em vez de um espaço de encontro.
Mas é precisamente nos tempos de maior divisão que o diálogo se torna mais urgente. Portugal não precisa de mais certezas absolutas, precisa de mais pontes. De políticos que entendam que a firmeza não se opõe à moderação, e que o compromisso não é rendição, é maturidade.
Balsemão representava essa ideia simples e exigente: a de que o diálogo é a verdadeira medida da força de um regime. É fácil governar contra, difícil é governar com. E foi essa dificuldade que ele escolheu enfrentar com serenidade, com respeito, e com a convicção de que o país só avança quando há espaço para o outro.
Numa altura em que a política se alimenta da divisão, talvez devêssemos voltar a aprender com os que souberam conversar mesmo quando tudo os separava. Porque é do diálogo que nasce o progresso, e sem ele, a democracia não passa de um eco vazio.