Após a Covid, Odemira viveu os últimos três anos com a espada da seca severa a pairar sobre o seu tecido económico, que depende em 60 a 70% da agricultura. O setor arregaçou as mangas, investiu o que tinha e o que não tinha no racionamento e modernização dos seus sistemas de rega, mas fez muito mais do que isso.
Através das associações que os representam, os agricultores não pouparam esforços no sentido de sensibilizar os Governos (e foram três, durante este período) para a indispensabilidade de finalmente serem tomadas medidas de fundo e de se investir para garantir o acesso de todo o território a água.
Há muito que se sabe que o país não sofre de falta de água, mas sim de uma distribuição desigual e de dificuldades históricas em conciliar proteção ambiental com soluções estruturais que garantam resiliência económica e social. Nesse contexto, a gestão temporária da Associação de Regantes do Mira, sob supervisão da DGADR – Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural, embora não ideal, tem sido a solução mais adequada. As associações locais também tiveram um papel importante na aceleração do projeto governamental Água que Une, e é essencial que as chuvas recentes não diminuam a pressão na execução das obras, mantendo-se rigor no cumprimento dos prazos.
É aqui que Odemira tem de virar a página.
Para além das questões da água, é fundamental que associações, município e Governo concentrem esforços nas pessoas, definindo uma nova fase de desenvolvimento para Odemira. Nomeadamente, no cerne do problema do acolhimento e integração de cidadãos nacionais e estrangeiros em Odemira está a falta de habitação e alojamento. São conceitos distintos, ambos com relevância e urgência, mas com soluções diversas.
Os produtores pouco podem fazer relativamente ao primeiro problema: a habitação deverá ser privada e pública e a agricultura não tem meios nem vocação para a promover.
Já no que diz respeito ao alojamento temporário, muito foi feito e mais se pretende fazer: foram, até agora, investidos 10 milhões de euros em alojamentos temporários de qualidade nas quintas, que permitiram oferecer condições de vida dignas a cerca de 2.000 trabalhadores. É ainda esperado um novo investimento, que permitirá alojar outros 1.000. Foi um processo penoso, lento e caro, que é urgente aligeirar.
Segue-se agora a promoção de alojamentos coletivos para trabalhadores temporários fora das quintas, um processo que necessitará de um cuidado planeamento territorial para a inserção dos mesmos no espaço urbano. Estima-se que o território necessite de quatro a seis destas estruturas e que cada unidade possa acolher 500 trabalhadores.
Para que o projeto aconteça, é necessário que o Governo regule a legislação adequada e que, à semelhança do que foi feito em Espanha, cerca de metade desse investimento seja co-financiado. O setor agrícola cá estará para investir a restante metade, ajudando a resolver um problema que é de todos.
Tal como no racionamento do consumo de água, os associados da AHSA e outros produtores estão, uma vez mais, totalmente disponíveis para participar no desenvolvimento equilibrado do território junto do Governo. Queremos expressar, através destas medidas, o apreço que temos pela riqueza que aporta a diversidade de quem vem trabalhar para o Sudoeste Alentejano.