“Não comerá,” observou friamente o caçador brasileiro diante do lobo morto, “mais crianças / Nos caminhos da floresta.”  Chegados ao fim daquela grande épica não podemos deixar de nos regozijar com o regresso da segurança às paisagens silvestres. Assaltam-nos todavia duas dúvidas cujas soluções o caçador dava por adquiridas: como determinar o que grandes quantidades de crianças andavam nesses tempos a fazer por florestas; e principalmente como saber que tipo de florestas são essas em que podem acontecer coisas às crianças.

Logo no princípio daquela épica a mãe tinha avisado a criança para ir “pela estrada do rio / O caminho da floresta é muito longo, sombrio.”   O lobo discordou.  Disfarçado de Anjo da Floresta, iria tentar convencer a criança a seguir o caminho que favorecia mais os seus interesses alimentares: justamente o da floresta.  A criança, impressionada pelo bicho, tirou a conclusão pretendida por este: “Então eu vou pela floresta, vou correndo.”

O que aconteceu depois à criança é conhecido, e não se deveu apenas ao lobo; e deveu-se só em pequena parte à impaciência que as crianças sentem quando pretendem ir visitar avós acamadas, e à velocidade que põem nisso. Deveu-se em maior medida à floresta, ou a um tipo de caminhos característicos das florestas. Ocupadas pelo amor à natureza, as pessoas não têm qualquer noção desses caminhos.  A experiência contemporânea da floresta ignora os caminhos inconclusivos. Existe demasiada informação nas florestas, para não falar dos frigoríficos miliares. Quase tudo serve de método e de ponto de referência; sob a areia está sempre o conhecimento.

Para perceber o verdadeiro perigo de uma floresta, é requerida uma floresta cujos caminhos não conduzam todos do ponto A ao ponto B; e em que não se saiba à partida que caminhos conduzem a algum lado.  O medo numa floresta resulta de se ter seguido durante muito tempo um caminho, apenas para perceber que era um acesso a uma pilha de lenha cortada por gigantes anónimos, ou que esse caminho desapareceu sem termos dado por isso; requer que seguir um caminho não faça parte da experiência de se ir ter a algum lado. À criança aconteceu demorar-se na floresta por causa de caminhos desses, e chegar tarde demais a casa da avó.

Quando pensamos no que nos acontece quando estamos perdidos na floresta ocorrem-nos dois ensinamentos diferentes. Um é a verdade prudencial de que nem todos os caminhos são de confiança, e nos levam a algum lado. Mas o segundo é a verdade ainda mais lúgubre de que um caminho que não vai dar a lado nenhum (a que nas cidades se chama beco sem saída) mostra que nem tudo depende de nós, e que um mundo velho continua a existir quando fechamos os olhos.  Ideias destas dão um certo medo: num mundo independente de nós passam-se coisas quando não estamos por perto.