Dia 3 de janeiro, os Estados Unidos da América (EUA) conduziram uma operação militar na Venezuela — uma denominação já aplicada a um país soberano por Vladimir Putin quando invadiu a Ucrânia — com o principal objetivo de capturar Nicolas Maduro, um ditador criminoso e narcotraficante, que (deixo já como nota inicial) não é o legítimo presidente da Venezuela desde 2024.

Afinal o que distingue Trump de Putin? À primeira vista parece haver muitas semelhanças. Vladimir Putin também afirmava que Volodymyr Zelensky era um ditador e queria terminar com o seu regime na Ucrânia. Apesar de tudo, a maioria dos ucranianos gostava de Zelensky, via-o como um presidente competente, e a Ucrânia era considerada um república democrática pela comunidade internacional. Na Venezuela não era esse o caso.

Em 2024, a Venezuela teve eleições presidenciais e quem ganhou não foi Nicolás Maduro, foi Edmundo González Urrutia com cerca de 70% dos votos. Apesar dos resultados aparentemente claros, o líder do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) decidiu consolidar o seu poder absoluto oprimindo a oposição e manipulando os resultados verdadeiros. Para distrair os venezuelanos decidiu antecipar o Natal para dia 1 de outubro, no entanto, sem dinheiro para prendas ou para uma ceia de Natal em condições.

As eleições de 2024 não foram as únicas a serem fraudulentas na terra de Simón Bolívar. Em 2019, Juan Guaidó também acusou o Governo venezuelano de alterar os resultados das eleições e autoproclamou-se presidente interino, com base na constituição. Algo que acabou por não conseguir levar a cabo devido a falta de apoio das forças armadas.

Nos últimos 13 anos, todas as revoltas que os venezuelanos tentaram fazer contra o regime nunca resultaram por falta de apoio das forças armadas.

Hoje em dia, existem na Venezuela cerca de 2200 generais, enquanto que nos EUA são cerca de 800. A população da Venezuela é estimada em 35 milhões de habitantes. Os EUA têm aproximadamente 350 milhões de habitantes. É um facto que a Venezuela tem muito mais crime que os EUA, especialmente no âmbito do narcotráfico, mas será justificação para ter mais 1400 generais que o exército mais poderoso do mundo?

A verdade é que Nicolás Maduro sabia que sem forças armadas não havia golpe de Estado, e por isso é que nomeava as pessoas da sua confiança para altos cargos do exército e subornava-os não apenas com dinheiro, mas com sumptuosos luxos para que cumprissem as suas ordens. Há vários anos que os venezuelanos tentavam acabar com o regime e nunca conseguiram, precisavam de ajuda externa.

A administração Trump olhou para o cenário latino-americano e viu que a Venezuela era o país que estava a receber mais intervenção chinesa, especialmente na extração de petróleo. Cerca de 80% do petróleo extraído das reservas venezuelanas estava a ser vendido à China por preços bastante baixos, mas suficientes para sustentar o regime e deixar o povo na pobreza extrema — o ideal para Nicolás Maduro.

As acusações que estão a ser feitas aos Estados Unidos é que não deviam ter intervindo na Venezuela, porque a única coisa que pretendem é o acesso às reservas de petróleo. No entanto, esse cenário (se fosse real) não era muito diferente do cenário anterior. O que os diferenciava é que os venezuelanos, quando 80% do seu petróleo ia para a China, não tinham liberdade de expressão nem dinheiro para 3 refeições diárias.

Os Estados Unidos não vêm apenas com o objetivo de obter petróleo a preços mais acessíveis. Donald Trump sim, interessa-se pouco com o governo da Venezuela, mas Mark Rubio, Secretário de Estado americano, pretende democratizar a Venezuela para um regime pró-América para futuramente chegar a outros países comunistas, com especial destaque para Cuba. Desta forma, ficaria visto nos Estados Unidos como o Secretário de Estado que tinha arquitetado o plano para a democratização de duas ditaduras históricas e possivelmente candidatar-se a presidente. Para alcançar este plano precisa de Donald Trump, e só o consegue convencer com os recursos naturais venezuelanos.

Dados os dois cenários – um, em que um ditador governa a Venezuela com punho de ferro, ajuda a financiar uma ditadura que anseia ser a maior potência económica do mundo, e a população morre à fome; e outro cenário em que os cidadãos têm a oportunidade eleger democraticamente o seu chefe de Estado, conseguem ter condições de vida melhores e uma grande parte das suas reservas de petróleo vão para um país democrático – e reconhecendo que nenhum deles é perfeito, mos venezuelanos preferem aquele em que lhes são asseguradas melhores condições, pois que atualmente não conseguem comprar um quilo de carne devido à inflação desmedida dos preços no país.

É verdade que os Estados Unidos violaram o direito internacional quando bombardearam a Venezuela, mas não se ouve a comunicação social falar sobre as violações do direito internacional por parte da China. Ao financiar e a oferecer armamento militar à Venezuela que são usados para fins anti-democráticos, Xi Jinping está também a violar os Princípios da Responsabilidade dos Estados por Atos Internacionalmente Ilícitos (RAII) adotados pelas Nações Unidas em 2001.

A intervenção dos EUA não foi o cenário ideal para acabar a ditadura na Venezuela, mas era o único eficaz e por que os venezuelanos mais ansiavam. É isso que distingue este episódio da tensão entre a China e Taiwan ou da invasão da Rússia à Ucrânia. Os únicos contra esta intervenção eram os beneficiários do regime; o povo venezuelano sabia que era necessário auxílio externo.

Neste momento, o Estado não pode simplesmente cessar funções ou transferir as funções para Edmundo González e Maria Corina Machado. Se o governo de Delcy Rodríguez for deposto e os venezuelanos estiverem sem um  governo minimamente  estável  neste período de ânimos quentes com a captura de Nicolás Maduro e a intervenção americana, o mais provável é que não se consiga manter a ordem e a transição pacífica para a democracia seja afetada.

A situação na Venezuela mostra que não há escolhas perfeitas. Neste caso, a escolha foi necessária. Enquanto o regime de Nicolás Maduro mantinha o povo na miséria para alimentar interesses próprios e de aliados estrangeiros, a intervenção externa surge como um mal menor, uma oportunidade de de mover aos venezuelanos o que lhes foi roubado: liberdade, segurança e a possibilidade de um futuro digno. A verdadeira questão não é se os Estados Unidos agiram de forma ideal, mas se a comunidade internacional está disposta a assistir em silêncio enquanto milhões de pessoas continuam a sofrer. A Venezuela não pode esperar e a democracia não pode ser adiada.