O fim da minha leitura do livro “Porque se enganam os intelectuais”, de Samuel Fitoussi coincidiu com mais uma manifestação da preferência dos intelectuais pela racionalidade social – a que procura a integração no grupo – sobre a racionalidade epistémica – a que procura a verdade – de que fala Fitoussi.

O Estado tomou uma decisão contratual sobre a gestão de um aviário (eu sei que aviário diz respeito a aves, mas estábulo, pocilga e coisas que tais teriam uma conotação negativa que não me parece adequada) de produção de linces que existe em Silves, de apoio ao programa de recuperação do lince-ibérico.

O aparecimento da mixomatose em meados do século XX e na pneumonia hemorrágica viral, uns trinta anos depois, que dizimaram as populações de coelho reduzindo-as uns 10 a 20 por cento do que eram antes de cada uma dessas doenças, levou o lince-ibérico, que se alimenta essencialmente de coelho, a uma situação de dramática pré-extinção.

Se em vez de gatinhos simpáticos e com pouco efeito visível na vida quotidiana das pessoas, estivéssemos a falar de ursos, lobos, ratos, cobras, morcegos, gafanhotos, mosquitos, os programas de conservação da espécie nunca teriam o desenho dos programas de conservação do lince.

Espécies simpáticas como a marta ou o esquilo, nunca tiveram programas de conservação como os do lince, estavam mesmo extintas em Portugal, e reapareceram há uns anos, fruto das alterações sociais e económicas que estão na base da renaturalização de grande parte do território europeu.

Como o que estava em causa eram gatinhos que praticamente só atacam presas selvagens comuns, como o coelho, o potencial de apoio social a acções de conservação é brutal, levando a uma coligação de políticos, funcionários, académicos, jornalistas e técnicos, empenhada em aplicar o dinheiro dos contribuintes em quaisquer acções que se possam, teoricamente, defender como sendo salvadoras do lince ibérico.

Como a dinâmica da população de lince segue, com desfasamento, a dinâmica da população de coelho, e como a dinâmica da população de coelho segue a lógica darwiniana de quedas bruscas em função de doenças periódicas altamente contagiosas, com lentas recuperações, com base nos coelhos que têm defesas em relação a essas doenças, a probabilidade dos programas de conservação do lince serem apresentados como grandes êxitos de acção humana é enorme, pelo menos até à doença seguinte da população de coelho, “que é de todos, e virá”, para citar Jorge de Sena.

Dentro desta lógica, em que os perdedores são os contribuintes que vêm os seus recursos a serem usados de forma ineficiente, e as outras espécies que vêm os recursos disponíveis para conservação serem gastos numa espécie estrela, muito para lá do razoável, é natural, na lógica de racionalidade social dominante entre os intelectuais, que se alinhem no sentido de apoiar aquilo que o grupo quer: a demonstração de que somos capazes de controlar os processos naturais, quando nos alinhamos todos no mesmo sentido, dirigidos por quem sabe, isto é, nós, os intelectuais.

Estes intelectuais ficam na posição de Arthur Koestler, citada por Samuel Fitoussi, vendo o que querem ver e usam a sua capacidade intelectual para racionalizar os seus preconceitos.

Mesmo que seja evidente que hoje, com mais de dois mil linces na natureza e 800 crias por ano em liberdade, um centro que produz dez crias em cativeiro é irrelevante para a conservação do lince-ibérico.

Por mais que a reprodução ex-situ tenha tido alguma importância no início do programa, quando havia menos de 200 linces na natureza (do que duvido, sempre duvidei, mas não há espaço para discutir essas dúvidas neste texto), hoje é claramente irrelevante na poderosa recuperação do lince, que segue a fase ascendente da população de coelho.

Ontem li o “Decálogo de boas práticas para uma transição responsável em programas de conservação”, em que 39 intelectuais protestam contra uma decisão administrativa que altera a gestão do aviário dos linces, gestão essa que há 17 anos é exercida com grande opacidade.

Os poucos desses intelectuais de quem se pode dizer que alguma vez geriram um programa de conservação, infelizmente, deram provas que desaconselham a sua retirada da bolha académica, em que são bons, para voltar a gerir o que quer que seja.

Ficou célebre a resposta de Einstein ao livro “Cem autores contra Einstein”: para quê cem? Se eu estiver errado, bastaria um.