Como esperado, o crescimento dos novos movimentos nacionalistas e de todos os seus associados, continua a agudizar-se de ano para ano. Enquanto as variações partidárias destes movimento vão ganhando espaço político, vencendo eleições, os seus programas começam a ser implementados, de forma mais ou menos eficiente. Ecos de falhanços das suas políticas continuam a ser insuficientes, por agora, para a maioria dos seus defensores. Políticas económicas que empobrecem, políticas de emigração que não resultam e sonhos saudosistas irrealistas, produzem efeitos negativos que podem ser desprezados com alguma facilidade, por agora. Ainda é cedo. Não nos podemos esquecer que os efeitos económicos e sociais devastadores do início do Séc. XX só se fizeram sentir mais de 20 anos depois. Acontecem após o Tratado de Versalhes (1919), uma pandemia global (Gripe Espanhola), uma crise financeira internacional (crash de Wall Street) e uma crise social na Europa, separados por 20 anos, até ao culminar da II Guerra Mundial e do Holocausto. Neste momento, há 20 anos atrás, em 2005, a Europa e os EUA estavam relativamente estáveis, mesmo considerando os ataques terroristas às torres gémeas e a consequente invansão do Iraque e do Afeganistão. Com isto pretendo constatar que ainda muito poderá acontecer até ao culminar do processo que estamos a viver.

Como referi, as políticas dos movimentos nacionalistas já estão a falhar. Pouco importa neste momento, porque ainda é cedo. As pessoas ainda se podem dar-se ao luxo de criar as suas próprias realidades, ignorando os acontecimentos à sua volta. A criação destes cultos é demais evidente, por exemplo nos EUA, com o culto dos MAGA à volta de Trump, provavelmente o pior presidente da história americana, que em pouco mais de 2 meses conseguiu desestabilizar uma economia sólida e perder a confiança da maioria dos seus aliados no Ocidente, enquanto a Rússia, à beira de um colapso económico e a falhar de forma evidente à sua incursão na Ucrânia, consegue assim mais um suspiro com Trump, ganhando tempo para reconstruir exército e economia. A criação destas realidades alternativas é amplificada pelas novas tecnologias, como as redes sociais e a inteligência artificial, que facilitam a manipulação da opinião pública e incentivam à adesão a este tipo de ideologias. É importante frisar que estas ideologias nada têm a ver com o espectro político, mas sim, com a concentração de poder num centro, tendo em conta a concretização de um determinado objetivo. Esse objetivo não é o bem comum. O objectivo é apenas a concentração de mais poder.

Figuras como Donald Trump, Marine Le Pen e Jair Bolsonaro são exemplos de líderes destes movimentos, que conseguem mobilizar grandes segmentos da população à custa da coesão social. São criadores de realidades. O aumento da desigualdade económica e social que vivemos na atualidade, não tem uma correção simples e rápida, sendo a resposta políticas públicas complexas, longas e de resultados por vezes incertos. Essa complexidade facilita a vida a lideres como Trump, que promete soluções simples de entender, que normalmente são divisórias do ponto de vista social, apresentando uma retórica de “nós contra eles”, existindo poucas coisas mais mobilizadoras do que um inimigo externo. As políticas de Trump estão a criar mais dificuldades para a maioria dos seus eleitores, muitos fazendo parte das partes mais pobres dos EUA. É perceptivel que a ciência económica por detrás de algumas das suas medidas é altamente questionável, o comércio internacional e principalmente a diplomacia, não são somas nulas. Um país não é uma empresa. Ainda assim, não existe uma queda extrema na popularidade e nas sondagens de Trump. Os números são o que sempre foram, o Presidente dos EUA é altamente impopular nos segmentos anti-Trump e extremamente popular nos segmentos mais cultores de Trump. Significa que são as realidades a funcionar, as realidades alternativas de cada um. Essas realidades alternativas apenas podem ser abaladas por consequências graves da verdadeira realidade. Uma tragédia não é inevitável mas é possível.

O nacionalismo, enquanto ideologia política, tem raízes profundas na história. No final do século XIX e início do século XX, a ascensão de movimentos nacionalistas contribuiu para a eclosão de conflitos de larga escala. Naquele período, o nacionalismo exacerbado levou à competição entre Estados, ao imperialismo e à radicalização política. O mesmo fenómeno pode ser observado na atualidade, onde líderes nacionalistas promovem políticas protecionistas e isolacionistas, enfraquecendo organizações multilaterais e contribuindo para um ambiente de crescente rivalidade entre potências globais. Um dos principais problemas dos movimentos nacionalistas modernos é a sua tendência para simplificar questões complexas. Problemas estruturais como a desigualdade económica, as migrações em massa e as crises ambientais são frequentemente reduzidos a narrativas binárias, onde há um suposto inimigo a ser combatido. O encerramento de fronteiras, a rejeição de acordos comerciais internacionais e a valorização exclusiva da identidade nacional (por vezes a identidade etnonacionalista), são medidas que se tornaram mainstream, sem considerar as consequências a longo prazo dessas políticas. A abordagem pode gerar ganhos políticos imediatos, mas agrava tensões internas e externas, colocando em risco a estabilidade global.

O papel das novas tecnologias na disseminação dessas ideias é inegável. As redes sociais, impulsionadas por algoritmos que favorecem a manipulação emocional, criam bolhas ideológicas e facilitam a difusão de desinformação. A inteligência artificial, por sua vez, contribui para a segmentação precisa de públicos-alvo, tornando a manipulação da opinião pública mais eficiente do que nunca. Com o uso de bots, deepfakes e campanhas de desinformação coordenadas, grupos extremistas conseguem mobilizar as massas e influenciar processos eleitorais em vários países. Essa manipulação digital não apenas fortalece esses movimentos, mas também mina a confiança na democracia, enfraquecendo as instituições e aumentando a polarização social. A manipulação das massas por parte de lideres carismáticos ou movimentos ideológicos sempre foi uma realidade, o que me parece diferente é a velocidade de disseminação dessas ideias e, como consequência, o acelerar de acontecimentos e o seu agravamento mais rápido ao longo do tempo.

Além disto, a ascensão destes movimentos está frequentemente associada ao aumento da violência política. A retórica inflamada dos líderes populistas aumenta a intolerância e a hostilidade contra grupos minoritários, jornalistas e opositores políticos. Atentados terroristas perpetrados por extremistas, como os ataques em Christchurch, na Nova Zelândia, e em Buffalo e Charlottesville, nos EUA, são exemplos concretos dos perigos dessa retórica. A violência política também se manifesta em confrontos entre manifestantes e forças de segurança, como foi observado na invasão do Capitólio dos EUA no 6 de janeiro de 2021, ou a invasão do Palácio do Congresso Nacional no Brasil, em 2023.

A comparação com o início do século XX mostra que a história pode estar a repetir-se de formas preocupantes. Não acredito que a repetição da história seja um fenómeno real, mas se as características políticas, sociais e económicas forem semelhantes em duas alturas específicas, é possível que alguns acontecimentos sejam semelhantes. Isto porque estamos a falar à mesma de humanos, em civilizações semalhantes. Assim como naquele período, vivemos numa era de transformações tecnológicas aceleradas, mudanças económicas profundas e insegurança global. No final do século XIX, a industrialização e a urbanização trouxeram desafios sociais que foram explorados por líderes nacionalistas e populistas. Hoje, a globalização e a revolução digital desempenham um papel semelhante, fomentando medos e incertezas que são capitalizados por políticos que prometem voltar a uma suposta era dourada (Make America Great Again). O sentimento é o mesmo, significando a infantilização do espaço político e público, a sua estupidificação.

Existem várias políticas públicas e medidas que podem ser consideradas. Entre as mais conhecidas estão a maior regulação das plataformas digitais, o fortalecimento das instituições democráticas e a promoção da literacia mediática e digital. É essencial que os governos e as sociedades desenvolvam mecanismos para combater a desinformação e reduzir o impacto das campanhas de manipulação digital. Além disso, é necessário investir em políticas públicas que abordem os problemas reais da população, de forma abrangente e eficaz, em vez de recorrer a discursos populistas e emocionais que apenas alimentam divisões e conflitos.

A história mostra que o nacionalismo exacerbado pode levar a tragédias de grande escala. O mundo enfrenta hoje desafios globais que exigem cooperação e solidariedade, não isolamento e rivalidade. A ascensão destes movimentos extremistas representa uma ameaça real à estabilidade política e social, e cabe à sociedade como um todo encontrar formas de mitigar perigos, antes que a tragédia se torne inevitável e bem real.