Eu não preciso que os meus amigos escrevam bem, ou que sejam cultos. Quero lá saber se leram a Ilíada ou que saibam debitar a antologia de Quental. Não preciso que tenham bom gosto musical e que saibam explicar as diferenças entre o som de uma trompete, um clarinete e um saxofone. Quero lá saber que não saibam que a “That’s life” não foi escrita pelo Sinatra. Estar rodeado de gente dita erudita que sabe tudo – e apenas isso – sabe a sabão. Não me interessa nada que os meus amigos não saibam quando se deu a queda do sacro império romano-germânico. Se souberem ótimo. Feliz por eles. Mas o que interessam essas coisas ao lado

da Amizade?

de uma pancadinha nas costas,

de uma mãozada estratosfericamente ecoante quando nos vemos,

do brinde de cerveja “àquela semana no Alentejo”.

Quem é Schopenhauer ao pé de um Amigo? De que valem mil páginas de filosofia quando tens um Amigo bom, que quer saber de ti, sem interesses? Quem é Nietzsche ao pé de uma noite acelerada regada a cambalhotas por cima de um chão peganhento?

O Nietzsche vem depois. Para mais tarde. Dêem-me o chão peganhento. E as cambalhotas que partem os dentes. E as histórias no Alentejo. E a bondade e o carinho quente e cínico que sinto vir dos pulmões cinza dos meus amigos.

Não me interessa o vosso PhD em Harvard ou o vosso mestrado em LSE. Não me interessa que sejam de famílias antigas e muitíssissimo finas. A finura está no amor. O trato grandioso está na bondade. Dêem amor. Dêem a mão. Deixem-me dar-vos a mão. Deixem-me saber como estão. Peçam uma cerveja para mim e deixem-me oferecer a próxima rodada. Obrigado por perguntarem como vou. Tudo a rolar, e contigo?

Quero lá saber que não saibas que “quezílias” se escreve com Z e não S. Quero só que trates bem o mendigo que te pede dinheiro na rua. Isso, a reading list de Oxford não costuma ensinar. Quero que percorras comigo uma noite e que contes umas escadas com o queixo – e que de manhã a dor tenha apagado a memória. Quero que venhas ao enterro dos meus pais e marques uma sardinhada para o almoço com outro amigo nosso que já não vias há décadas. Quero que gozes violentamente comigo por achar que estou outra vez doente. Quero que me desfaças a rir outra vez com a história do Diogo e as portas erradas de Coimbra. É isso que quero. Não quero Wagner nem Chopin. Isso já é o meu Wagner e Chopin. É a música que me dá corda ao coração.

Estás aqui para me aturar?

Não me interessa assim tanto saber que estejas a estagiar na Morais Leitão. Faz-te sentir importante? Ótimo – juro! E agora as coisas importantes: és Bom? Há bondade dentro de ti? Quero lá saber que sejas muito culto e viajado – ajudas o teu vizinho? Quero que estejas presente e que sejas honesto comigo. Espera o mesmo de mim. Quero dar-te um abraço e quero que os teus pais estejam bem. Quero saber a cor dos olhos do teu gato. Caga nas metafísicas. O teu gato já faz xixi na areia ou quê? E a tua irmã, está melhor do desgosto amoroso? Sorte a minha, porque ficou solteira.

Dos meus amigos quero calor. Quero saber que sejam bons. Quero saber que queiram saber. Cada um de nós é uma pequena embarcação. Uns à deriva, outros não. Partilhamos o rio. Uns estão de lancha. Outros com o barco furado e a meter água. Vão-se afogar. Rememos até eles e convidemo-los para o nosso barco. Já fui salvo algumas vezes. Sinto já ter salvado. Ser amigo é isto. Salvar, dar amparo, dar chão tão seguro que apeteça dançar em cima dele. Mesmo que na flutuação perigosa de um rio. Mesmo que sob um nevoeiro de pensamentos abstrusos. Dêem-me esse chão. Agarrem-me pelo braço. Dou-vos esse chão, agarro-vos pelo braço. Hoje aqui, amanhã acolá. Hoje em choro, amanhã em deleite. Hoje a deitar água, amanhã a reparar a embarcação furada de outro. É isto que são os meus amigos. Mais bonitos do que a junção de todas as letras que a República das Letras escreveu sobre amizade – porque real.